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Artigos-->Travessia Pelo México - Aventura ou Loucura? -- 11/01/2002 - 16:44 (Angela Bretas) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Reportagem Especial:



TRAVESSIA PELO MÉXICO - AVENTURA OU LOUCURA?

(Por Ângela Bretas*)



Brasileiros que atravessaram a fronteira do México para chegar aos EUA relatam suas histórias:





"O sol já começava a aparecer no horizonte, a barriga doia de fome, as pernas estavam cansadas de andar quase a noite toda pelo meio do mato e o medo se fazia constante em minha mente, mas podia avistar as luzes da cidade norte americana de El Paso e isto me dava mais força para acreditar que iria finalmente vencer a travessia que já durava quatro dias..."

Esta é a forma que Adriano (nome fictício) descreve a primeira visão que teve do solo norte americano. Mineiro de Governador Valadares Adriano, de 42 anos, não conseguiu o visto e depois de várias tentativas frustadas resolveu vender tudo que possuia e enfrentar a travessia pelo México para chegar aos EUA. Já se passaram quatro anos que Adriano atravessou a fronteira mexicana, mas relata que a memória dos quatro dias mais longos de sua vida estarão sempre presentes em sua memória. Segundo Adriano o mesmo passou fome, frio e foi assaltado pelos mexicanos que o deixaram apenas com a roupa do corpo e seu passaporte, até as fotos de sua esposa que encontrava-se na carteira eles levaram. Sua sorte foi ter parentes aqui nos EUA que enviaram a ele dinheiro via Western Union para El Paso e ele possuir inglês suficiente para conseguir comprar uma passagem com destino à Miami. Sua esposa continua no Brasil pois não conseguiu o visto até hoje e ele não quer que a mesma passe o que ele passou. Adriano tem planos de retornar ao Brasil este ano e tentar vir novamente pelo México está fora de cogitação. " Vou embora, tentarei o visto de novo para mim e minha esposa, se conseguir bem, se não conseguir vou esquecer para sempre a vida nos EUA, atravessar pelo México só uma vez, nunca mais me arrisco a isto", disse Adriano que reside em Boca Raton.



A carioca Carmem, de 30 anos (nome fictício), passou por uma experiência que deixou marcas em seu corpo e traumas permanente " Eu tentei vir pelo México porque não conseguia visto, e meus dois irmãos já estavam aqui. Então juntamente com uma outra amiga resolvemos tentar a travessia pela fronteira mexicana. Tudo foi combinado lá do Rio mesmo, conseguimos um coyote brasileiro que nos cobrou a quantia de $ 4.000,00 cada, para nos entregar na cidade de Laredo no Texas, só que este brasileiro ao chegarmos em solo mexicano nos deixou na mão de outros coyotes mexicanos e nós duas fomos abusadas sexualmente por dois dias seguidos, ficamos trancadas em uma casinha na cidade de Nuevo Laredo e quatro mexicanos fizeram o que quiseram com a gente, inclusive esta marca aqui que você vê - a mesma exibe uma cicatriz enorme no braço direito - foi uma faca que um deles usou contra mim por eu tentar me defender e recusar transar com ele. Minha amiga quase morreu pois estava menstruada e mesmo assim eles não a respeitaram e ela começou a ter uma hemorragia, aí eles talvez tenham ficado com medo de uma de nós morrer na mão deles e atravessaram a gente durante noite nos deixando na beira da estrada. Tivemos a sorte de um senhor norte americano nos encontrar e nos dar proteção levando a gente até um hotelzinho da cidade de Laredo, de lá consegui entrar em contato com meu irmão aqui em Fort Lauderdale e ele enviou um PTA para o aeroporto para que pudessemos chegar à Fort Lauderdale. Eu e a minha amiga fomos direto para o Hospital quando chegamos aqui, eu por estar com a ferida ainda aberta e um começo de infecção e ela por estar fraca e machucada por dentro. Temos que dar Graças `a Deus de termos conseguido escapar com vida , enfoca Carmem com os olhos cheios de água ao descrever sua aventura.



Já o catarinense Antônio (nome também fictício), resolveu trazer a mulher e o filho de 12 anos com ele e apesar de todos terem conseguido alcançar o solo norte americano, ele revela que: " Nós tivemos sorte de estarmos com um coyote que era uma pessoa de bem, um salvadorenho que residia muitos anos no México e era muito cuidadoso, ele nos deu todo o apoio do começo ao fim e a única dificuldade que eu e a minha família sentimos foi de ter que caminhar uns 10 quilômetros no meio do mato, teve horas que pensei que minha esposa não iria suportar, pois ela estava acostumada com a vida na cidade e nunca tinha estado no meio do mato, ainda mais a noite. Mas conseguimos passar, e apesar de ter gastado um total de $ 5.000,00 para estar aqui, hoje em dia eu me sinto privilegiado de ter conseguido alcançar o solo americano com a minha família e não ter passado os apuros que a gente ouve por aí de pessoas que não tiveram a mesma sorte", relata Antônio que reside em Deerfield Beach há quatro anos e já conseguiu sua aprovação para o Green Card através de seu patrão americano.



Para Maurício, mineiro de Belo Horizonte de 38 anos, a aventura mexicana se transformou em um pesadelo que durou trinta dias, pois o mesmo ficou preso em uma cela mexicana por não ter dinheiro para pagar os policiais mexicanos que demandavam que o mesmo pagasse por sua liberdade "Eu tive o azar de perder meu passaporte, que continha o carimbo das autoridades mexicanas, ao tentar uma travessia à noite pelo Rio Grande que não deu certo, aí tive que voltar para a cidade de Matamoros/México para tentar a travessia na noite seguinte e fui abordado por uns policiais mexicanos na rua, como não tinha nenhum documento e eles notaram que eu era brasileiro foi levado diretamente para uma cela, lá fui interrogado e eles quiseram uma propina para que eu ficasse em liberdade pois alegavam que eu estava ilegalmente no México, como não possuia mais dinheiro eles simplismente me esqueceram numa cela por quase 30 dias, não tive direito de telefonar às autoridades brasileiras ou à minha família no Brasil para pedir ajuda, passei fome, frio, fui tratado como um criminoso, até que um dia eles resolveram soltar a mim e a mais outros quatro presos que dividiam a cela comigo, porque queriam uma cela vazia para outros brasileiros que eles tinham conseguido apreender nas mesmas condições, ou seja sem documentos. Dois dias depois, com a ajuda de um dos companheiros que tinha ficado preso comigo, que era boliviano, eu consegui atravessar a fronteira e pisar na cidade de Browsville/Texas. Foi uma aventura que se transformou em um pesadelo, por vezes pensei que nunca iria acordar, mas graças a Deus hoje após quase cinco anos aqui nos EUA eu consigo falar nesta experiência sem que me comova tanto como antes, no começo estava traumatizado com tudo e não conseguia descrever o sofrimento que passei", comenta Antônio que afirma em nunca mais pensar em tentar esta travessia.



Há ainda casos de brasileiros que resolveram arriscar a travessia da maneira mais extrema possível, como é o caso de Mariza "Aconselho as pessoas que residem aqui e pensam em trazer seus parentes pela fronteira para re-pensarem duas vezes", enfatiza Mariza, natural de São Paulo de apenas 24 anos. A sua experiência foi uma loucura "Eu vim acompanhada de meu irmão, e como já sabia que os mexicanos gostam de abusar sexualmente as mulheres - pricipalmente as brasileiras - eu cortei meu cabelo bem curtinho e usei só roupas bem masculinas para me fazer passar por um rapaz. Após conseguir passar pela fronteira do aeroporto da cidade do Mexico nós, eu e meu irmão, pegamos um ônibus e fomos para a cidade de Mier, de lá tivemos que ficar esperando um coyote por cinco dias, e ao passarmos na fronteira tínhamos mais quinze pessoas junto com a gente, um verdadeiro grupo de aventureiros , todos homens, que sonhavam em pisar nos EUA. Havia Hondurenhos, Panamenhos, Bolivianos, Peruanos e Brasileiros. Todos nós passamos, mas tivemos que correr por duas horas pelo meio de plantações e mato fechado, quando atingimos os limites da cidade de Falcon Dam/Texas eu nem conseguia respirar de tão cansada que estava, somente quando cheguei á Flórida é que fui voltar a ser uma mulher, durante todos os dias que estava por lá, eu tinha sido o irmão mais novo de meu irmão...Loucura né?" finalizou Mariza que atualmente é casada com um americano e mãe de um menino de 1 ano.



Quando os Estados Unidos não abrem as portas através de um visto, a opção que alguns acreditam serem viáveis é a travessia pela fronteira de forma surdina, e muitos brasileiros já se arriscaram nesta jornada aventureira. Alguns tiveram sorte e passaram sem muitos problemas, outros foram barrados e tiveram os sonhos de pisarem em solo americano destruídos, há ainda casos de brasileiros que sofreram, que foram mortos, que desapareceram...

As vezes uma aventura pode se tornar em um verdadeiro pesadelo e deixar de ser uma aventura para ser uma loucura... Será que vale mesmo passar por dificuldades e situações semelhantes as das pessoas aqui mencionadas para tentar viver em terras norte americanas?

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Nota da jornalista: O intuíto desta reportagem não é incentivar às pessoas a tentarem a travessia caso não consigam o visto, e sim alertar à todos para os problemas que poderão ser encontrados pela frente. Que os exemplos acima citados possam servir de alerta à todos que pensam em um dia efetuar tal trajeto... Todos os nomes das pessoas entrevistadas foram trocados para um nome fictício para manter em sigilo a verdadeira identidade dos mesmos.

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*-Ângela Bretas é jornalista, poetisa, escritora e free-lance writer. Reside nos EUA e trabalha como colunista e jornalista do Brazilian Times (Boston), Brazilian Paper, Brazilian Sun (Florida) , Correio Popular (Brasil.Possue vários artigos em sites da Internet. Para mais info acessem http://www.angelabretas.com.br -

Contatos através do e-mail: sonho_americano@hotmail.com -
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