Usina de Letras
Usina de Letras
45 usuários online

 

Autor Titulo Nos textos

 

Artigos ( 59666 )

Cartas ( 21255)

Contos (13325)

Cordel (10320)

Crônicas (22226)

Discursos (3169)

Ensaios - (9537)

Erótico (13486)

Frases (47215)

Humor (19420)

Infantil (4627)

Infanto Juvenil (3940)

Letras de Música (5497)

Peça de Teatro (1340)

Poesias (138779)

Redação (3078)

Roteiro de Filme ou Novela (1061)

Teses / Monologos (2432)

Textos Jurídicos (1946)

Textos Religiosos/Sermões (5659)

 

LEGENDAS
( * )- Texto com Registro de Direito Autoral )
( ! )- Texto com Comentários

 

Nossa Proposta
Nota Legal
Fale Conosco

 



Aguarde carregando ...
Artigos-->O caminho vago de Pessanha -- 22/06/2000 - 09:34 (Abilio Pacheco) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos


Este artigo tem como pretensão fazer uma análise da triologia Caminho composta por sonetos escritos pelo poeta português Camilo Pessanha,

nascido em Coimbra, 7 de Setembro de 1867, e falecido em Macau, 1º de Março de 1926.

Primeiramente o título "Caminho" evoca-nos a dispormos o olhar em frente do que se segue, ou seja, uma estrada, via, rua; tal evocação parece, a priori, ecoar em nosso íntimo: Vida.

No primeiro soneto o poeta declara ter sonhos e sentir um "vago receio", medo; sua disposição anímica é a de ir a medo na aresta do futuro, segundo PINHEIRO "aresta pode significar caminho estreito", por onde o poeta segue em atitude saudosista, já que o presente por ele referido logo vira passado quando ele (o poeta) chega ao futuro.

Veja que a saudade sentida se dá porque o presente, apesar de triste, apesar da dor (1º verso da 2ª estrofe) é mais seguro já que o futuro

é incerto, impreciso.

A metáfora "desmaiar sobre o poente" tem o sentido de sono de sono, de adormecer, e não de morrer. Veja que o sentimento de dor do poeta se

intensifica ao anoitecer de tal modo que o véu que cobre o firmamento, a noite, é a dor que lhe cobre o coração. Pois sua dor é "está falta d

harmonia", que poderia ser entendida como uma inadaptação ao mundo, à sociedade, a si mesmo; porém no poema a inadaptação se dá à mudança:

presença/ausência de luz, a oscilação entre dia e noite. A noite é uma "luz desregrada", ou seja, sem ordem, ora fraca, ora forte, na maioria das vezes penumbrosa. Por isso, não havendo luz, o coração é "quase nada". Veja que é durante a madrugada que o eu-lírico dispõe-se em pranto.

No 2º soneto, a apóstrofe conduz o leitor para dentro do poema. A sensação causada pelo sujeito oculto (tu) do verbo encontrar é a de que o poeta está falando com a pessoa que lê o poema, parecendo haver a busca de um feed-back mudo e causando uma sensação apelativa de alta intensidade lírica, fazendo o leitor adotar a mesma (ou similar) disposição anímica. Claro que essa 2ª pessoa não é o leitor, é apenas um caminhante que a partir daí segue com o poeta, que declara não saber o que procura: a felicidade, o amor, a paz, tudo isso fica em aberto com esse verso.

No entanto, a caminhada, que já dissemos antes pode representar a vida, é cheia de problemas (espinhos) e o que se quer alcançar - o

indefinido - "é longe", a ponto de os dois caminhantes terem que descansar. Param então, numa venda, numa taberna, e bebem juntos vinho, claro que o tipo de bebida se deve a cultura portuguesa, vale lembrar que lá o vinho é

bebido em temperatura ambiente.

A terceira estrofe parece-nos um momento de delírio, onde cada um dos caminhantes bêbados lamentam-se, queixam-se.

Ambos bebem e choram. A tristeza é-lhes comum, assim como a garrafa de vinho.

Entre um soneto e outro há uma lacuna irrelevante; pouco importa se eles passaram a noite a beber ou se dormiram. No entanto, a estrofe seguinte reforça a idéia da vigília.

Na terceira estrofe, declara o poeta que tal repouso fez bem e renovou-lhes as forças. Vai amanhecendo, é hora de seguir o caminho, para

tanto "Eis (aqui estão) os nossos bordões da caminhada" (grifo nosso), a palavra bordões que significa cajado, objeto para apoio, comparece de forma figurada significando amparo, auxílio, companhia. Que bordões são esses? O poeta resolve encher as cabaças de vinho - eis os bordões - , pois esse vinho puro, virgem, ou seja, isento das coisas de um mundo corrompido, não será encontrado semelhante; o vinho é um néctar que lhe dará mais vigor.

Os dois caminhantes seguem um para cada lado. É desejo do poeta seguir só, olhar de frente, encarar sem medo o caminho todo, ou seja, a vida; podendo inclusive "resistir a grande calma": a morte.

A última estrofe é um apelo, um pedido. O poeta deseja mais e mais chorar e beber, "ter fé e sonhar", entregar-se ao devaneio, "encher a alma".

Essa análise que você leu, constitui-se apenas numa tentativa de apreensão das idéias expressas pelo poema. Claro que a análise aqui

apresentada, não é completa, nem essa era a intenção, mesmo porque tal não é possível, pois, primeiramente, trata-se de um poema lírico, e depois porque é um poema simbolista, cuja a interpretação é bem mais complexa.

Além disso duas caraterísticas são apresentadas na poética de Pessanha: "a tendência para o vago, quando foge da linearidade da vida pela construção de versos e de expressões interiorizantes; e a tendência para o vistoso..." (PINHEIRO, s/d:231) devido a primeira tendência é que nossa análise se encontra aberta.



Bibliografia:



PINHEIRO, Célio, Introdução à literatura Portuguesa. s/d/b.



O Poema:





Caminho

Camilo Pessanha



I

Tenho sonhos cruéis; n alma doente

Sinto um vago receio prematuro.

Vou a medo na aresta do futuro,

Embebido em saudades do presente...



Saudade desta dor que em vão procuro

Do peito afugentar bem rudemente,

Devendo, ao desmaiar sobre o poente,

Cobrir-me o coração dum véu escuro!...



Porque a dor, esta falta d harmonia,

Toda a luz desregrada que alumia

As almas doidamente, o céu d agora,



Sem ela o coração é quase nada:

Um Sol onde expirasse a madrugada

Porque é só madrugada quando chora.



II

Encontraste-me um dia no caminho

Em procura de quê, nem eu o sei.

- Bom dia, companheiro, te saudei,

Que a jornada é maior indo sozinho.



É longe, é muito longe, há muito espinho!

Paraste a repousar, eu descansei...

Na venda em que poisaste, onde poisei,

Bebemos cada um do mesmo vinho.



É no monte escabroso, solitário.

Corta os pés a rocha dum calvário,

E queima como a areia!... Foi no entanto



Que choramos a dor de cada um...

E o vinho em que choraste era comum:

Tivemos que beber no mesmo pranto.



III

Fez-nos, muito bem, esta demora:

enrijou-nos a coragem fatigada...

Eis os nossos bordões da caminhada,

Vai já o Sol: vamos embora.



Este vinho, mais virgem do que a aurora,

Tão virgem não o temos na jornada...

Enchamos as cabaças: pela estrada,

Daqui inda este néctar avigora!...



Cada um por seu lado!... Eu vou sozinho,

Eu quero arrostar só todo o caminho,

Eu posso resistir à grande calma!...



Deixai-me chorar mais e beber mais,

Perseguir doidamente os meus ideais,

E ter fé e sonhar - encher a alma.
Comentarios
Renove sua assinatura para ver os contadores de acesso - Clique Aqui