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Ensaios-->Cassiano Nunes- a saída para o beco -- 30/12/1999 - 19:01 (Alexandre Simões Pilati) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
“Minha obra é um beco sem saída”
Stéphane Mallarmé
“Não é possível detê-lo
nem mesmo para contemplar um beco”
Cassiano Nunes

Uno nas epígrafes acima dois poetas admiráveis. O primeiro, Stéphane Mallarmé, se não foi o pai de toda poesia moderna, foi daqueles amantes que mais a trataram bem e quiseram vê-la voar. O segundo, o velho Cassiano, santista-canadango, filho do mar e do cerrado, pertence à tradição revolucionária da lírica moderna. O oxímoro acima (tradição revolucionária), é necessário dizer, resolve-se apenas em mentes e almas como as de Mallarmé e Cassiano. A lírica moderna teceu trilhos até aqui desencontrados, que garantiram, a um tempo, que os poetas se rissem dos mestres e louvassem os mesmos.
Cassiano, é um desses que sabe cultivar a modernidade em sua lírica, além de apontar para novos caminhos e novas soluções para o esquema poético moderno. Para se perceber tal caráter moderno na obra do poeta é necessário primeiramente elucidar as principais características da lírica revolucionária do século XX.
De modo geral, pode-se dizer que a lírica moderna, inaugurada formalmente por Baudelaire, utiliza-se de características negativas para a definição do objeto poético. Contrariamente à tradição lírica, plena de louvação e esplendor, o lírico moderno se prenderá mais amiúde à construção lingüistica e poética baseada em termos depreciativos, ou anti-poéticos, sob a ótica tradicional. Rimbaud e Mallarmé foram mestres na utilização da definição negativa das situações e dos objetos, o que contribuiu muito para a originalidade e a vida perene de suas obras. É o homem preso a um mundo depressivo e convulsivo que se revela na palavra negativa. Esse é também o mundo, com algumas naturais mudanças, onde ferve o lirismo de Cassiano, que guia nossos olhos sobre uma realidade construída a partir de visões do passado que calam fundo pois são evidências claras da passagem inexorável do tempo. Veja-se o poema “Às vésperas do Natal”:
Outra vez o Natal
Como ficaram velozes os calendários.
Depois dos quarenta o tempo dispara
Não é mais possível detê-lo
nem para contemplar um beco
(imaginemos o da Música)
Verdade é, ainda há compensações:
o roxo vinho da ceia
manchando auspiciosamente a toalha,
e a estrela do presépio,
esplêndida,
fazendo ressurgir a aspiração exigente,
que, um tempo, flamejou
em nossas vidas resignadas.

Como se vê, o tema do tempo, à primeira parte do poema, é todo ele lapidado de forma negativa. O disparar do calendário, a exiguidade da vida, o beco em que nos metemos muitas vezes a contemplar a arte é cada vez mais impossível. No entanto, Cassiano traz ainda imagens positivas do advento natalino que fazem a chama da esperança ressurgir por um momento na vida humana. O fecho do poema, com o adjetivo resignadas, reforça a idéia negativa do princípio. Parece ser, pois, o Natal um suspiro auspicioso de novidade e beleza na passagem tacanha e veloz do tempo da vida humana. São, portanto, utilizadas pelo poeta, como ponto de partida para o desenrolar da poesia as categorias negativas tão características da lírica moderna.
Pertence também aos modernos algo que talvez tenha sido a pedra fundamental de Rimbaud e Mallarmé, que é a obscuridade. Tal obscuridade levou inclusive Mallarmé a enunciar as palavras citadas na epígrafe que abre o ensaio. A obscuridade é a característica que garante à lírica moderna uma aparente incompreensão racional do texto poético e que aciona outros meios humanos para se sentir a poesia. Muitas vezes a obra de Cassiano Nunes aponta para tais meios, mesmo que apenas de modo sugestivo. Se o texto de Cassiano não é absoluto em hermetismo e obscuridade, que são a própria mágica da lírica moderna, muitas vezes o caminho claro, iluminado pela lua poética do seu talento, nos faz chegar ao infinito, ao absoluto, ao obscuro. No poema “Idéias Flores”, todavia, a obscuridade parece elevar-se definitivamente:

É preciso viver
o instante da madressilva.
É preciso fruir
o momento do agapanto.

Cada minuto
Desabrocha em flor.
À vida boca de orquídea,
golpe de espada-lírio.

Caminhamos sob signos florais.
Aceita da margarida
O sol minúsculo.
Converte-o
No sistema potente
Do universo íntimo.

Revertendo a lógica semântica natural da língua e inaugurando um universo em que se pode perceber como centro as flores e as idéias, Cassiano dispõe o texto de um modo obscuramente colorido, como deve ser a mente do poeta. Ao subtrair à flor o seu lugar convencional e equipara-la à abstrata região mental, o autor busca colocar-nos diante do absoluto e do obscuro. Um jardim mental, pois, se nos abre à frente, onde, paradoxalmente, não é a lógica que reina, mas a emoção e a sugestão. O caráter aparentemente incompreensível do texto nos conduz a um outro plano de interpretação e de vida, em que só é possível chegar com o auxílio de Cassiano. É o sentir antes do compreender que ele nos propõe na estrutura de sua lírica como um todo, e especificamente em “Idéias Flores” de modo mais contundentemente obscuro.
Uma outra característica da lírica moderna, decorrente da obscuridade, pode-se vislumbrar na obra de Cassiano: a absurdidade. Sobretudo Rimbaud e Baudelaire conseguiram elaborar tal característica de modo que ela fosse o veio central da obra. Enquanto em Mallarmé a ilogicidade e a absurdidade são fatores predominantes, parece ser em seus predecessores que o absurdo e o desvio da convenção, formal e de conteúdo, se efetiva com maior amplitude. A transformação do real, muitas vezes recriado em situações absurdas, também é encontrada em Cassiano, com o agravante da ironia inteligente e mordaz que muitas vezes permeia seu percurso poético. Assim, para Cassiano, o absurdo é muitas vezes ponto de partida para a crítica irônica à existência humana, ao fazer poético e à atitude do artista. Em “Este velho cão” encontra-se talvez a síntese do absurdo e da ironia:

Este velho cão
que me acompanha sempre,
contra a minha resistência.
Este velho cão
que se esconde
debaixo da minha pele.
Ele uiva até nas noites estreladas
O luar o alucina.
“Por que o suporto?”
E me respondo:
“É porque ele é meu inimigo
mas é eu próprio.”
Devo suportar a dolorosa rotina
Com este velho cão.
Até que um dia
os meus olhos se fechem,
oscilando talvez
entre a morte e o sonho.

Além das categorias negativas reveladas no texto, como morte, cão, inimigo, dolorosa rotina, pode-se perceber a absurdidade da comparação entre o espírito poético e um velho cão. Deixando de lado a convenção poética do belo, Cassiano reflete sobre o fazer poético como faria Cabral nos versos: “poesia te escrevia flor/ posto que és fezes”. O espírito poético, parte do eu de Cassiano, é um cão que uiva ao luar e com o qual o poeta deve conviver. O cão representa aqui também o lado obscuro do espírito, muitas vezes responsável pela sensibilidade transcendente do artista e da arte. Suportar a presença do cão dentro de si, nada mais é do que cultivar a poesia, tarefa tão dolorosa quanto agüentar os uivos loucos de um animal. Todavia, o cão também é considerado o animal mais fiel ao homem, o que mais fácil se deixa adestrar. Portanto, apesar de ser o inimigo que denuncia o eu-poético em todas as suas fragilidades e incertezas, que pertencem de resto à humanidade de modo geral, o cão muitas vezes o conforta na dolorosa rotina. Reside aí precisamente o caráter irônico do poema, a comparação do ofício poético com a atitude de um cão que incomoda. Assim é a arte, um cão que se deve “tolerar”, mas que nos avisa da existência dos astros, muito além de nós.
De certo modo, as três características mestras da lírica moderna (negatividade, obscuridade e absurdidade) contribuíram muito para o alargamento do abismo entre o poeta e o leitor. A tríade de poetas que enforma o lirismo contemporâneo (Baudelaire, Rimbaud e Mallarmé) elaborou uma estrutura que solicita ao leitor muito mais faculdades intelectuais e emotivas do que aquelas utilizadas quotidianamente. Assim, a lírica moderna pareceu um tanto inacessível ao leitor médio, incapaz de percebê-la em todos os seus matizes. No Brasil, todavia, a modernidade se instaura também com a ajuda de um olhar para o país e seu povo, que se efetiva, lingüisticamente, na utilização de termos correntes em detrimento do eruditismo clássico de outrora. Cassiano é também poeta da rua e do povo. Se sua poesia satisfaz à exigência moderna de um conteúdo e de uma forma não perceptíveis cotidianamente, muitas vezes seu texto revela-se tão suburbano e simples que quase se confunde com gestos do dia-a-dia. “Breve Serenata” é um texto exemplar, que expressa um modo muito particular de poetar, que se baseia em eruditizar o popular e popularizar o erudito:

Como posso queixar-me
De solidão
Se possuo a noite
E a sua canção?

A noite é tão vasta
Que me perco nela!
Amor! Acende a estrela
de tua janela!

Aproximar-se do leitor com elementos populares e cotidianos é uma grande conquista de Cassiano. A serenata, a noite, o amor, a solidão, temas tratados de maneira moderna, ganham uma aura de brasilidade que é a grande vantagem de poetas como Cassiano, Bandeira, Drummond. Além de apresentarem-se de modo mais imediato ao leitor, os dramas de poetas dessa estirpe geralmente nada deixam a dever aos franceses fundadores da lírica moderna. O dado popular, característica inovadora, é algo tão forte para a elucidação do mistério da vida, do absoluto, do nada, quanto as estratégias mais tradicionais da modernidade.
Dessa maneira, Cassiano Nunes nos remete a reflexões sobre nosso próprio ser de brasileiros, inseridos em um todo maior e absoluto que é a arte. Quando se lembra de Diderot, um dos fundamentadores teóricos da lírica moderna, compreende-se por que a atitude de Cassiano é fundamental. O filósofo francês dizia ser importantíssimo para o poeta lançar-se aos extremos do objeto. Desvendar a existência em seus variados matizes é o que faz o autor santista, inclusive sob o prisma popular e acessível de vocábulos e construções. Para Cassiano, contrariamente a Mallarmé, o mais importante talvez não seja obscurecer, mas conduzir à obscuridade. É a mão de Cassiano que nos conduz ao universo mágico do absoluto e do nada. Seu texto é o método que desabrocha nossa visão para tais elementos.
Outro teórico do lirismo moderno, Rousseau, fala da existência de uma inteligência pré-racional. Se nos voltarmos novamente aos dois poetas das epígrafes, a inteligência sensível, centro da escritura e da exegese da lírica moderna vai se manifestar de maneira distinta em cada um deles. Não obstante serem percebidos na obra de Cassiano trechos extremamente obscuros ou absurdos, não são eles próprios presentificados pela tessitura do texto poético. Em Mallarmé, pelo contrário, o próprio texto é o absoluto, o nada, o incognoscível. Em Mallarmé, o próprio texto é o beco. Cassiano, poeta dadivoso, cão das ruas de nossas emoções, tem missão diferente. Seu texto é não só o caminho para o beco como uma pausa para a sua contemplação. Ler Cassiano é a porta de saída do cotidiano opressor e sem tempero; ou é a porta de entrada no beco da poesia, negativo, obscuro, absurdo e cheio de flores e serenatas.

Alexandre S. Pilati



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