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Ensaios-->O ensino da produção de texto: relação autor e contexto -- 27/03/2000 - 11:59 (Atila Tolentino) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos



O ensino da produção de textos e sua relação com o autor e contexto


'Ao escrever não posso fabricar como na pintura, quando fabrico artesanalmente uma cor. Mas estou tentando escrever-te com o corpo todo, enviando uma seta que se finca no ponto tenro e nevrálgico da palavra. Meu corpo incógnito te diz: dinossauros, ictiossauros e plessiossauros, com sentido apenas auditivo, sem que por isso se tornem palha seca, e sim úmida. Não pinto idéias, pinto o mais inatingível 'para sempre'. Ou 'para nunca', é o mesmo. Antes de mais nada, pinto pintura. E antes de mais nada te escrevo dura escritura. Quero como poder pegar com a mão a palavra.'

(Clarice Lispector - Água Viva)




As nossas escolas vêm pecando intensamente em não cumprir verdadeiramente seu real papel: integrar os seus alunos na sociedade em que vivem, fazendo-os compartilhar de seus valores culturais e preparando-os para a vida adulta em seu meio e no mundo. A principal falha encontra-se no ensino da língua materna, pois a escola exclui todos valores intrínsecos às variações lingüísticas com que as crianças, especificamente as socialmente desprivilegiadas, mantêm contato no seu dia a dia.

Trata-se o ensino da língua vernácula como um meio mecânico e não lhe atribui a importância de sua mais precípua finalidade: a produção de textos. Isso certamente ocorre porque raras escolas vêem o texto como uma unidade de sentido significativa, capaz de tornar a língua um meio sistematizado de atuação sobre o mundo. Geralmente os escritos dos alunos são tomados apenas como um conjunto ou, até mesmo, um aglomerado de signos e, em alguns casos, são adotados como expressão do pensamento do estudante, o qual visa utilizá-lo como um meio de comunicação.

Devido a isso é que a redação na escola é legitimada tão somente para correção gramatical. Na avaliação dos textos o conteúdo é pouco valorizado e o papel do autor e seu contexto não são nem observados.

Entretanto, o texto não é apenas um fenômeno lingüístico, mas também social. Os valores da escrita não são somente a fixação de um modelo da língua, modelo este convencionado e ligado aos interesses de classes socialmente privilegiadas. Antes disso, o objetivo da escrita é a instrumentalização do sujeito e a abertura de sua percepção acerca dos mecanismos que envolvem a sua língua e a aplicabilidade da mesma em seu meio social.

Tal ponto é que levou a professora Stella Maris Bortoni, da Universidade de Brasília, a falar de educação bidialetal:





'Muitos especialistas que têm examinado, à luz da sociolingüística, as diferenças entre a norma culta do português brasileiro, cuja difusão é o principal objetivo dos currículos escolares da Língua Portuguesa, e a linguagem usada pelos educandos - e até mesmo pelos professores - têm apontado para a adoção de currículos bidialetais. Por contemplarem características da modalidade oral efetivamente usada nas escolas, estes currículos poderão facilitar a transição entre esta e a variedade padrão, nas suas modalidades oral e escrita. Argumentam os estudiosos, com razão, que tal política beneficiará principalmente os alunos provenientes dos segmentos mais isolados, geográfica e socialmente, cujo contato com a dita variedade padrão em outros domínios, que não a escola, é muito restrito.'


O que Stella Maris procura é justamente valorizar a cultura adquirida pelos educandos, não impondo o ensino da língua padrão com valor substitutivo. Trabalho parecido com este, bem o fez a professora Eglê Franchi, com uma turma de alunos marginalizados pela escola por serem os 'não-adeptos' ao sistema lingüístico considerado como culto. As variações sociais da linguagem das crianças eram concebidas como um fator qualitativo e o progresso na escrita dessas crianças foi imenso, devido a valoração dos autores dos textos produzidos e do contexto em que estavam inseridos, com temas de interesse dos alunos e baseados em suas vivências.

Tudo isso evidencia que o texto não é autônomo, ele é integralizado ao contexto e autor. A língua é um conjunto de conhecimentos internalizados pelo indivíduo, por isso a escrita também o será. Portanto, é devido a isso que as variações lingüísticas da fala das crianças não podem ser execradas e substituídas, mas sim deve ser mostrada a importância da aprendizagem desse novo modo de falar com o qual as crianças não estão habituadas, expondo-lhes a necessidade de aprendê-lo para não serem barrados por uma sociedade que é naturalmente discriminadora.






Texto: Unidade de sentido


'Do mesmo modo que a frase não é uma simples seqüência de palavras, o texto não é uma simples sucessão de frases.'

(Elisa Guimarães - A articulação do texto)



Levando em consideração que o texto é uma unidade de sentido significativa e ainda que é uma forma de interação e atuação na língua e no mundo é que concluímos que a redação não é feita apenas de palavras distintas entre si ou de regras gramaticais bem comportadas. O texto também é feito de idéias e de uma boa relação entre os níveis gramaticais que o compõem, iniciando-se pelos aspectos fonológicos, passando pela morfologia, sintaxe, semântica até chegar ao nível pragmático, passos que determinam uma boa articulação de uma escritura.

A escola costuma iniciar a produção de textos a partir de seu aparente primeiro passo - a fonologia - passando então aos demais. Ou ainda os aspectos gramaticais são tratados totalmente distintos dos textos, numa análise crua apenas em frases óbvias e triviais, sem qualquer relação com um contexto. Paradoxalmente, como já falado no ponto anterior, apesar desse estudo da gramática separado de um contexto, a redação é utilizada basicamente como um forma de correção gramatical.

A questão que se põe é a seguinte: por que a escola não adota um procedimento inverso do que vem procedendo, ensinando os aspectos gramaticais a partir do texto? Deste modo, os alunos ficariam habituados a reconhecer que esses níveis gramaticais não isolados entre si, mas se correlacionam e fazem parte de um todo, que é o próprio texto.

Apenas para verificar todo o exposto na prática, passarei agora a analisar como um livro didático de ensino de português da 8ª Série, de autoria de Alaíde Massaro, trata a sua proposta de ensino de redação. A priori, ressalto que os tópicos Redação e Gramática são trabalhados em dois capítulos diferentes, não havendo relação alguma entre um e outro.

O interessante deste livro é que possui propostas de elaboração de texto as quais respeitam o autor e o contexto e ao mesmo tempo apresenta propostas que deixam o aluno sem rumo algum, devendo apenas engolir o tema sugerido e se esforçar para escrever algumas linhas.

Uma boa atividade proposta pela autora é a sugestão de que cada aluno escolhesse dez temas que, em sua opinião, seriam bons assuntos para dissertar. Após um discussão entre toda turma, se verificasse os temas mais correntes e escolhessem o mais polêmico, para, então, proceder em sala de aula a um debate com exposições de fatos a favor e contra o tema, encerrado-se a atividade com uma elaboração de uma dissertação pessoal sobre o tema debatido.

Noutro ponto, uma atividade é dada friamente da seguinte forma: 'Elabore em seu caderno de redações, uma dissertação sobre o tema: 'Liberdade', sem mais comentários.

É muito difícil para um professor de redação encontrar o livro ideal com o qual possa trabalhar. Na verdade esse livro não existe e mesmo que o professor encontre um muito bom, ele sempre possuirá algumas falhas.

Desta forma, o que norteia um bom progresso da atuação do professor é a maneira como ele aborda o livro. Ainda que o livro seja ruim, o professor pode fazer um bom trabalho com ele. Também não se pode ficar apegado demais ao livro didático, pois é unicamente um instrumento de subsídio ao professor e este deve tapar as suas falhas com recursos fora do livro. Entretanto, é essencial apenas que o professor tenha pelo menos uma certa afinidade com o livro com o qual irá trabalhar.








Conclusão: A necessidade de escrever


'Fazer com que a palavra frouxa
ao corpo da coisa adira:
fundi-la em coisa, espessa, sólida,
capaz de chocar com a contígua.

Não deixar que saliente fale:
sim, obrigá-la à disciplina
de proferir a fala anônima,
comum a todas de uma linha.'

(João Cabral de Melo Neto)




É praticamente inquestionável a tese inatista de Chomsky de que o homem já nasce com uma faculdade de linguagem geneticamente determinada, ou seja, poderíamos depreender que o falar é natural ao ser humano. E quanto à escrita? Lennenberg, que também confirma a tese inatista de Chomsky, acrescenta que o escrever é inequivocadamente uma atividade culturalmente aprendida.

Partindo desses dois argumentos, podemos questionar por que então escrever é tão árduo e até mesmo um trauma em nossa cultura. Falar é inato ao homem certamente porque o ser humano é um ser biologicamente social e necessita comunicar-se e fazer-se entender com os demais de sua espécie.

Portanto, a fala é inata ao homem devido ele sentir necessidade dela. Outrossim, o que a escola deve fazer com seus educandos é despertar neles a necessidade da escrita e mostrar-lhes como ela pode atuar e influenciar em suas vidas.

O texto não é simplesmente para provar que o aluno já tenha internalizado todas as regras gramaticais da norma padrão. Desta forma, a única utilidade que o estudante vê no texto é acrescentar pontos à sua nota bimestral. É por isso que numa proposta de elaboração de redação não se pode dar um tema nu e cru caído do céu, para o aluno escrever um texto com um determinado número de linhas em um dado tempo. O estudante pode até conseguir arrancar algumas palavras de suas entranhas com muito esforço, porém não conseguirá ver sentido ou serventia no texto escrito ou na atividade de escrever.

Infelizmente, isso é o que de mais comum ocorre nas escolas. Todo mês existe um dia reservado para se escrever “a redação para nota”. E a redação apenas é cobrada e nunca ensinada. O sistema escolar e os professores de português não desenvolvem a habilidade de se ensinar a escrever textos. É concebido que o educando ao ter aprendido a codificar o alfabeto e o sistema gramatical da língua, supostamente ele já deve saber escrever.



Entretanto, escrever não é somente apresentar o sistema linguístico de nossa gramática, mas antes de tudo tem de haver um sentido significativo e uma finalidade no texto. Um exemplo prático que raras escolas fazem, mas que seria uma boa forma de se mostrar a necessidade da escrita, é a elaboração de um jornal ou revista escolar, com artigos e manchetes produzidos pelos próprios alunos e professores.

De qualquer maneira, deve ser mostrado ao estudante a praticidade de seu texto e respeitado o contexto dos alunos, questionando a eles e verificando quais seriam os assuntos de seus interesses ou úteis para suas vidas, de modo que pudessem ser bem trabalhados. E antes de se trabalhar um tema, é preciso que ele seja debatido, que o professor solicite aos alunos que colham algum material sobre o assunto e ensinar as habilidades do ato de escrever, a fim de que o estudante possa ter argumentos na hora de redigir e sentir o prazer e a utilidade de sua escritura.
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