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Contos-->CONVERSA ENTRE DESCONHECIDOS... -- 25/10/2002 - 18:14 (Renato Souza Ferraz) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Conversa entre desconhecidos...


São 17:55h. O motorista confere os bilhetes de passagem, no Terminal Rodoviário do Recife, do ônibus das 18:00h, com destino a Fortaleza. Quase todas as poltronas já estão ocupadas, inclusive a 28. Aproxima-se um senhor aparentando uns 65 anos, alto, cabelo liso, bem arrumado, aparentemente pintado, barba feita, com pulseira e corrente de ouro, largas...Do corredor mesmo, começa a colocar seus pertences na cadeira 27: um celular, um CD portátil, óculos, revista de bolso, caneta, etc. Por último a carteira porta cédulas. O passageiro da poltrona 27, desconfiado e sisudo, a essa altura já fizera um pré-julgamento do seu futuro vizinho de poltrona... observava-o e quando percebeu que havia concluído o despejo de todos os objetos inclinou-se para levantar e dar-lhe passagem. O senhor recusou e passou assim mesmo meio apertado, pois a cadeira da frente estava inclinada...
O homem assim que sentou, disse ser cearense, perguntou de onde o outro era, se gostava de música também e como bom cearense começou a puxar conversa:
Após o outro responder-lhe onde nascera e onde morava, continuou:
-Ah! Conheço Paulo Afonso, você morou lá? Eu passei um carnaval lá, houve uma passagem interessante comigo: executava um trabalhava do DNOCS lá na época; bebi muito durante uma noite de carnaval, estávamos eu, minha esposa e um casal amigo, todo mundo diz que “baixou” algo em mim, aliás, sempre que eu bebia, “baixava isso” e eu ficava estranho e atrevido...Disseram que dei um “beijo imoral” em minha mulher em pleno salão do Clube local, assim que iniciou o baile, e fomos os primeiros que entramos no salão...
A essa altura seu vizinho ficara cismado e falava para si: e se esse velho for “boiola...”, se vier me cantar... se durante a próxima parada ele inventar de tomar umas doses...se o capeta baixar nele durante a viagem...
A viagem transcorria, passava um filme de ação na TV e o velho conversava alto, pois ao mesmo tempo falava e ouvia música com um fone de ouvidos, e quando sua conversa exigia que o vizinho respondesse algo, pedia para repetir o que disse. Quando o ônibus parou 2 horas depois em João Pessoa, ele cochilava (mas havia pedido para ser acordado durante as paradas, pois gostaria de descer e às vezes não conseguia acordar sozinho), o vizinho saiu silencioso, foi ao sanitário rapidamente, enquanto urinava, olhava para trás e observava se o velho também entrava no sanitário. Quando vinha saindo topou com o mesmo apressado; o qual reclamou porque não fora acordado. Ao subir um degrau, tropeçou e caiu meio desajeitado...
-Não o acordei porque tive pena, o senhor dormia tão bem!
-Mas pedi para acordar-me, rapaz!...quero ver na próxima, tá?
Enquanto ele entrou no sanitário, o vizinho entrou na fila do caixa para comprar um lanche rápido...O velho chega em seguida e ainda o alcança na fila:
- vai comer o quê? Vou comprar pamonha, quer comprar canjica? A gente divide...
- Obrigado, vou comer uma pastel com café ( pensou, que alívio, pois o velho não vai beber!). Sentados à mesma mesa, ele continuou a conversa sobre quando bebia, e comia de um jeito tão feio, meio animalesco; disse que quando baixava o “negócio” nele, mudava a voz e que alguém falava por ele, sorria com extravagância, etc. Mas hoje em dia ficou bom e não bebe mais, depois que seu filho morreu num acidente de carro, pagou muito caro a uma velha, que fez um serviço e ele ficou bom .
O ônibus dá partida, o diálogo prossegue, o rapaz diz que está com sono e que irá dormir. Demora a dormir e de olhos semi abertos percebe que o velho dorme antes e começa a gemer meio esquisito, não era ronco, pois ronco conseguia identificar muito bem...ficou preocupado e custou ainda mais a dormir, cochilava apenas e qualquer movimento do velho se sobressaltava, tinha o pressentimento que a qualquer hora poderia ocorrer algo estranho naquela viagem. Passaram-se 4 horas, houve nova parada em Lages, pequena cidade do Rio Grande do Norte, dar-se-ia a troca de motorista. O velho dormia, mas como se mexeu, o rapaz não o chamou, achou que iria acordar sozinho e descer também. No local está parado um outro ônibus, este com destino contrário, ou seja, Fortaleza / Recife. Os poucos passageiros que desceram aguardavam o motorista subir para continuarem a viagem. O velho acorda atrasado, desce meio atordoado, encontra o rapaz e reclama de novo porque não fora acordado. Esse responde-lhe que o vira se mexendo, achou que ia descer ou mesmo desistira. Quando o velho retorna do sanitário, o outro ônibus que já estava parado dá partida; ele então cegamente dá um grito desesperado e sai correndo atrás do ônibus, pedindo, implorando que pare, não pode ficar ali, tem que chegar em casa... Só então percebe alguns passageiros companheiros de viagem e reconhece que não era o seu ônibus que dera partida. Fica meio sem graça, sorri e se desculpa. A viagem prossegue, chega a Mossoró, destino do passageiro da poltrona 28, que desce silenciosamente para não acordar o velho e também porque não gosta de despedidas...




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