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Ensaios-->LATIM: A LÍNGUA ETERNA DA CIDADE ETERNA -- 15/11/2001 - 01:13 (Aparecido Donizete Rossi) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
O texto que se segue é fruto de reflexões sobre o processo de romanização, sobre o latim clássico e principalmente sobre o latim vulgar.

INTRODUÇÃO

Como se sabe, a grande herança cultural deixada pelo Império Romano no Ocidente, e porque não no Oriente também, é de incomensurável grandeza. De toda essa herança, talvez a lingüística seja a de maior força e repercussão, uma vez que todas as línguas ocidentais e algumas do Oriente Próximo têm no mínimo resquícios da língua de Roma, dita a Cidade Eterna: o latim, que poderíamos, aproveitando o epíteto, chamar de Língua Eterna. Uma língua eterna para uma cidade eterna, nada mais justo.
Aparte o trocadilho, de fato notaremos nas reflexões que se seguem que o latim, 1600 anos depois da queda do Império Romano, de uma forma ou de outra, ainda se faz presente em nossa cultura de maneira tão enraizada que chamá-lo de língua eterna não seria somente uma brincadeira: arriscaríamos dizer que é uma verdade, o que bate de frente com aqueles que dizem ser o latim uma língua morta.
Sendo assim, é interessante refletirmos sobre como se deu essa “eternidade” do latim, qual a sua origem e porque é tão forte sua presença. Para isso, é de suma importância que verifiquemos como ocorreu o processo de romanização e, principalmente, a importância do latim clássico e, muito em especial, do latim dito “vulgar” na formação das línguas românicas ou neolatinas.

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1. ROMA EM EXPANSÃO

Falar sobre o processo de romanização é, antes de tudo, recorrer à História para explicar um fato lingüístico. Contudo, no caso do latim, essa recorrência faz-se necessária, uma vez que está intimamente ligada à disseminação dessa língua no Ocidente e no Oriente. Dessa forma, iniciemos pelo princípio da história de Roma.
Roma foi fundada em VIII a.C. e duas lendas parecem ligarem-se para relatar esse fato: a primeira delas diz respeito a Enéias, o único sobrevivente da Guerra de Tróia que, refugiado, chegou na península itálica, especificamente na região do Lácio (Itália Central), por volta de XII a.C. e fundou Alba Longa. Essa lenda foi imortalizada na Eneida, a grande epopéia latina, por Virgílio, um dos grandes mestres da literatura mundial. A outra lenda diz respeito aos irmão Rômulo e Remo, gêmeos filhos de Marte (deus da guerra para os romanos) e de Réia Silvia, filha dos reis de Alba longa e portanto descendente de Enéias. Segundo esta lenda, os gêmeos foram jogados no Rio Tibre (que banha a cidade de Roma) por seu tio, que tomara o trono. Por sorte, foram atirados às margens pelas águas e salvos por uma loba, que os amamentou. Já adultos, voltaram à Alba Longa e venceram o tio, devolvendo o trono ao avô que, como recompensa, deu-lhes aval para fundarem uma cidade às margens do Tibre. Dessa forma, no ano de 753 a.C., Roma (o nome provém dos nomes dos irmãos) é fundada por Rômulo e Remo. Tempos depois, os gêmeos se desentendem e Rômulo mata Remo, tornando-se o primeiro rei de Roma.
Percebe-se que ficção e realidade misturam-se nessa história. Entretanto, é a partir desses fatos que se inicia o que foi o maior império que o mundo já viu: o Império Romano. Falar detalhadamente sobre ele seria assunto para uma tese, mas alguns pontos são necessários ressaltar por estarem fortemente ligados ao processo lingüístico de romanização. Antes de mais nada, é importante lembrar que, na verdade, Roma originou-se de uma aldeia de pastores latinos às margens do Rio Tibre, que existia desde o II milênio a.C. Com o início do Império, os vários povos ao redor de Roma foram definitivamente absorvidos, inclusive sua língua: os etruscos (cujo alfabeto, baseado no grego, inspirou o alfabeto latino); os povos chamados itálicos (umbros, oscos, samnitas, volscos, sabinos, auruncos e picenos); os jupígios e messápios, que habitavam a região da Apúlia e, no caso dos últimos, tinham uma língua de origem indo-européia assim como o próprio latim; os gregos, que tinham muitas colônias no sul da Península Itálica (hoje região de Nápoles e da Calábria), constituindo a chamada Magna Grécia; e finalmente os habitantes da Sicília, sicanos e sículos.
Com a absorção desses povos, Roma constituiu ao mesmo tempo seu território principal (a região do Lácio e derredores) e sua língua, aprimorando, dessa forma, o latim que já era falado há pelo menos 1700 anos naquela pequena região. Contudo, o domínio total da Península Itálica só começa a tornar-se um fato relevante em 509 a.C., com a expulsão de Tarquínio, o Soberbo, último rei da linhagem etrusca de Roma. Esse fato fez com que a região etrusca fosse completamente submetida. Em seguida, 500 a.C., inicia-se o período republicano, de grande importância para a posterior hegemonia do Império. Ainda assim, em 390 a.C. Roma é saqueada pelos gauleses, mas consegue se re-estabelecer com rapidez. O domínio total da Península Itálica só se completa com a vitória sobre Pirro, rei do Épiro nos Bálcãs, em 275 a.C., e com a tomada de Tarento (272 a.C.). Com estas conquistas, Roma dominou toda a península até a Gália Cisalpina (hoje, norte da Itália).
Com o domínio total da Península Itálica, Roma já demonstra um poder político-militar bastante forte. Esse poder vem se solidificar com as três Guerras Púnicas (guerras contra Cartago, grande potência econômica e militar da época), que Roma vence e, conseqüentemente, transforma em província o norte da África. Além disso, com essa vitória Roma tem agora o domínio sobre o Mar Mediterrâneo, importante rota de navegação da época.
De acordo com Bruno Fregni Bassetto (1996, 103), bem organizada internamente e dominando o Mediterrâneo, Roma expandiu rapidamente seus domínios e foi incorporando sempre novos territórios conquistados. O autor elenca alguns desses territórios principais, que aqui reproduzimos, com as devidas datas de início da romanização: Hispania (197 a.C.); África do Norte e Grécia, ou Achaia (146 a.C.); Ásia Menor (129 a.c.); Gallia Narbonensis (118 a.C.); Gallia Cisalpina (81 a.C.); Gallia Transalpina (51 a.C.); Egito (30 a.C.); Rhaetia e Noricum (16 a.C.); Panônia (10 d.C.); Capadócia (17 d.C.); Britânia (43 d.C.); Mauretania (40 d.C.); Agri Decumates (83 d.C.); Arábia (106 d.C.); Dácia (107 d.C.); Armênia (114 d.C.); Assíria e Mesopotâmia (115 d.C.).
Bassetto (1996, 103) ainda observa que algumas dessas regiões não chegaram a ser romanizadas, como a Grécia, o Egito e a Ásia Menor; outras regiões, como a Britânia e os Agri Decumates, só foram superficialmente romanizadas. Contudo, nessa época o Império Romano já havia atingido sua extensão máxima, abrangendo praticamente todo o mundo então conhecido, com exceção do Extremo Oriente e dos povos germânicos de além do rio Reno.
Esse ponto histórico-político-social é de grande interessa, pois é nesse momento que a língua de Roma, o latim (assim como o poder econômico, político e social), já tendo absorvido a língua dos povos peninsulares, se reflete sobremaneira no cotidiano do mundo colonizado. Bruno Fregni Bassetto diz que latinização ou romanização é a assimilação cultural e lingüística dos povos incorporados ao universo da civilização latina (1996, 104). Nesse momento do Império Romano, os povos conquistados, por sua própria condição de conquistados, são obrigados a submeterem-se ao poderio bélico e, principalmente, à estrutura sócio-econômica de Roma, que mandara comitivas de administradores romanos para suas províncias. Com isso, o fator lingüístico torna-se também uma peça chave no processo de romanização, uma vez que os povos conquistados são, de uma maneira ou de outra, obrigados a aprenderem o latim para poderem se comunicar com seus colonizadores.
É bom lembrar que, numa genial manobra administrativa e logística, o processo de romanização, especialmente do ponto de vista lingüístico, não se deu por imposição direta aos conquistados. Foi um processo gradativo, em que os dominados foram paulatinamente assimilando a cultura e a língua romanas até o ponto de suas antigas culturas se misturarem com a cultura de seus dominadores e, mais tarde, com a queda do Império Romano, se transformarem em culturas distintas com línguas distintas: as dez principais línguas românicas (italiano, francês, português, castelhano, romeno, catalão, sardo, dalmático, provençal e rético) e suas respectivas culturas. Logicamente que o processo não foi tão simples assim, pois há ainda o reflexo das culturas dominadas na própria língua romana (o outra lado da moeda) e, conseqüentemente, a imensa importância do latim dito “vulgar” nesse processo. Tudo isso trataremos no próximo capítulo.
Para finalizar, Bruno Fregni Bassetto aponta os principais fatores do processo de romanização (após a conquista da Península Itálica) que, não sendo uma imposição por parte de Roma, só pôde dar-se indiretamente (1996, 105-113): o exército romano (aqueles que realmente levavam o latim aos confins do Império), as colônias militares (que se estabeleciam nas colônias e, conseqüentemente, os soldados acabavam unindo-se em matrimônio com mulheres da região, uma vez que o serviço militar obrigatório iniciava-se na juventude e termina já na fase adulta), as colônias civis (que eram instaladas como uma espécie de tribunal de pequenas causas para resolver demandas de terra entre os colonizados), a administração romana (cujo papel já mencionamos acima), as obras públicas (que, de certa forma, aproximavam o povo conquistado dos conquistadores, uma vez que era um costume romano de organização da vida pública que os dominados normalmente não tinham), e finalmente o comércio.

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2. CLÁSSICO E VULGAR: ASPECTOS DE UMA MESMA LÍNGUA

Após uma contextualização histórica e uma leve pincelada sobre o processo de romanização, faz-se necessário verificar mais detidamente como este se deu, agora exclusivamente do ponto de vista lingüístico. Obviamente que para tanto precisa-se tomar a língua de Roma como ponto de partida e, sendo assim, é inevitável falar sobre o latim e seus aspectos clássico e dito “vulgar”.
Antes de mais nada, com relação ao latim dito “vulgar”, gostaríamos de deixar claro que, juntamente com Serafim da Silva Neto (1957, 32): a expressão latim vulgar (Vulgärlatein, latin vulgaire, latino volgare, latin vulgar), criada numa época em que se subestimava a língua corrente, julgando-a corrupção da literária, deve, pois, evitar-se, por dar azo a más interpretações; também não concordamos com a expressão latim vulgar, uma vez que, atualmente, esta acaba gerando uma noção de valor pejorativo, como se latim vulgar fosse uma língua menor, de baixo nível, provocando dessa forma um preconceito lingüístico inadmissível em pleno século XXI.
Rodolfo Ilari (2000, 58-59) tenta ponderar sobre esse assunto propondo três interpretações distintas para “vulgar”: 1) “corriqueiro”, 'banal” (sem sentido pejorativo); 2) “reles”, “baixo” (com sentido pejorativo); 3) em conexão com “vulgarismo”, nome que os puristas dão às formas e expressões que julgam condenáveis por suas conotações populares. Entretanto, sua tipologia, infelizmente, cai no deplorável campo do preconceito lingüístico quando, mais à frente, diz o autor: quanto ao segundo sentido de “vulgar” [“reles”, “baixo”], há bons motivos para crer que o proto-romance foi de fato uma língua eminentemente popular (2000, 59). Portanto, discordamos veementemente de Ilari no que diz respeito a chamar o latim dito “vulgar” (ou proto-romance) de língua “reles” e “baixa”.
Apesar disso, todos os estudiosos não menos importantes que consultamos (Maurer, dentre eles), sem tocar na questão do preconceito lingüístico, chamam o latim falado pela grande maioria da população romana de latim vulgar, provavelmente por tal expressão já ter-se incorporado há muito tempo nos estudos romanísticos. Assim, para evitar polêmicas, optamos por utilizar, numa tentativa de suavizar a conotação pejorativa, a expressão latim dito “vulgar” para expressar o latim coloquial.
Retomemos agora nossa discussão sobre as principais manifestações do latim. Theodoro Henrique Maurer Jr. (1962, 53), o mais importante romanista brasileiro, distingue três manifestações mais importantes: 1) a língua literária, utilizada por grandes escritores como Cícero e Horácio; 2) a língua coloquial urbana (sermo quotidianus ou sermo urbanus), que era a língua usual da sociedade aristocrática de Roma e das cartas de Cícero e sátiras de Horácio; 3) a língua vulgar (sermo plebeius ou sermo rusticus), que era a língua do povo, da grande maioria da população.
Maurer (1962, 54) esclarece que a língua literária e o sermo urbanus são de grande elaboração técnica, constituindo a língua literária a forma escrita do sermo urbanus. Dessa forma, o estudioso limita-se a distinguir apenas o latim aristocrático (sermo urbanus), que na sua forma escrita constitui o latim clássico, e o latim vulgar (sermo plebeius). Um outro ponto de suma importância tratado por Maurer e por Ismael de Lima Coutinho que precisa ficar bem claro, é a questão de que o latim clássico e o latim dito “vulgar” não eram nem duas línguas diferentes, nem dois dialetos distintos da mesma língua. Maurer dirá que a língua vulgar devia distinguir-se por maior simplicidade estrutural e por um léxico mais pobre e com numerosas peculiaridades (1962, 55-56). Ismael de Lima Coutinho diz que não eram duas línguas diferentes, mas dois aspectos da mesma língua. Um surgiu do outro, como a árvore da semente (1962, 32).
É interessante verificarmos rapidamente como era o latim aristocrático, ou clássico, para, em um segundo momento, compará-lo com o latim vulgar. As características desse aspecto eram, basicamente, três: a primeira delas á a estabilidade lingüística, ou seja, o latim clássico praticamente não mudava, não agregava novas palavras, era uma língua imóvel, extremamente rígida em sua gramaticalidade. Isso se deve por se tratar de uma língua falada por uma elite dominante, os patrícios, ciosa de proteger seu poder político e econômico e, porque não, social, uma vez que tinha costumes e educação muito refinada; e pelos escritores da alta literatura latina, como Cícero, Horácio e Virgílio, que além de falar escreviam nesse latim. Essa primeira característica é, por assim dizer, acarretadora das outras duas, que seriam a formalidade da língua, sempre tendendo para o sintético, e a estabilidade do latim literário, uma espécie de suporte documental para o latim falado por essa minoria.
Muito interessante é observar que o latim clássico está vinculado a uma sociedade fechada, reclusa em si mesma por ser constituída de poucos integrantes que eram, além de elite dominante, baluartes de uma cultura refinada advinda dos primórdios da civilização romana. Vemos aí a língua como fator de dominação, como instrumento de poder. O domínio através da língua caracteriza um domínio social muito grande, uma espécie de subestimação da cultura do dominado, como se o fato de saber uma língua de extrema rigidez gramatical, como o latim clássico, conferisse direitos quase divinos aos seus falantes (lembremos que os reis e imperadores de Roma eram considerados deuses) e qualquer outra manifestação lingüística diferente desta seria quase uma ofensa aos deuses, daí a marginalização do latim dito “vulgar” por parte dos patrícios.
Transportando essas reflexões para o nosso tempo, em pleno século XXI, verificaremos que pouca coisa mudou: no caso do português, o domínio de regras gramaticais e de léxico erudito ainda são poderosos instrumentos de poder sócio-político e econômico. Veja-se gramáticos que, atualmente em programas de TV, rechaçam as manifestações populares da língua como se fossem heresias merecedoras de fogueira à sacrossanta Gramática da Língua Portuguesa. Ou políticos inescrupulosos que decoram palavras de uso pouco convencional para, ao discursarem, parecerem poços de cultura às pessoas mais humildes. Ou ainda, no caso do Brasil, a discriminação por parte dos habitantes dos estados do sul em relação ao linguajar caipira e nordestino. São as nossas maneiras de ser patrícios pós-modernos, mesmo que subconscientemente.
Vistas brevemente algumas características do latim clássico, passemos agora a refletir sobre o latim dito “vulgar”. Em primeiro lugar, torna-se necessário definir o que é esse outro aspecto do latim, por sinal o mais produtivo. Para tanto, é necessário recorrermos novamente à História.
Como já tratamos no primeiro capítulo, o processo de romanização abarcou vários povos e culminou com a plena hegemonia do Império Romano a partir do período republicado e durante todo o período imperial. Conseqüentemente, o latim também se misturou com as línguas dos povos dominados ao redor de Roma, que eram em sua maioria pessoas humildes sem instrução ou cultura erudita, analfabetos que estavam mais preocupados com o pão do dia de amanhã do que com as abstrações dos poetas latinos; e mais tarde com a dos povos conquistados. Maurer dirá que
a plebe do tempo era constituída de elementos sociais vários, de muitas famílias de origem antiga mescladas com elementos adventícios diversos. Essa classe mista, sem contacto com o passado, porque não sabia donde vinha, não incorporava em si um ideal de cultura ou classe. Crescendo constantemente pela agregação de novos elementos, pois nela se fundiam quase sempre os imigrados de toda parte, veio a constituir a grande massa dos habitantes de Roma e do Lácio e, mas tarde, de todas as regiões latinizadas (1962, 57).
Dessa forma, essa grande massa de artesãos, comerciantes, agricultores e, mais tarde, estrangeiros decorrentes das conquistas, entre outros, não tinha acesso ao latim clássico, ou melhor, à elite desse latim. Eram na verdades pessoas que obrigaram-se a aprender oralmente o latim falado pelos cidadãos de Roma ou, como no caso das conquistas, normalmente o falado pelos soldados e administradores, que já não era, de todo, o latim aristocrático. Numa brilhante colocação que vem completar as conclusões de Maurer acima, Schuchardt, um dos fundadores da revista Wörten und Sachen, que deu nome ao movimento “Palavras e Coisas”, uma corrente dos estudos romanísticos, diz: o problema é, de fato, muito difícil, porque a expressão latim vulgar não significa uma só linguagem, mas uma soma de camadas lingüísticas e dialetos, desde o latim até o aparecimento das línguas românicas (Schuchardt apud Silva Neto, 1957, 15).
É importante salientar também, juntamente com Maurer (1962, 57-58) e antes de verificarmos as fontes do latim dito “vulgar”, o fator sociológico que ocorria em Roma, e mais tarde em todo o Império, decorrente da existência simultânea de um latim aristocrático e de um latim da plebe: esses dois aspectos do latim ocorriam juntos e demarcavam classes sociais bem definidas (ricos e pobres). Enquanto a aristocracia cultivava um latim mais puro e elegante, raramente apresentando inovações próprias, a massa popular transformava mais ou menos profundamente o latim, simplificando-o, admitindo empréstimos lingüísticos vários e construções pitorescas, além de conservar alguns traços arcaizantes, daí a notável dinâmica que caracteriza o latim dito “vulgar'. É claro que, pela convivência mútua, um aspecto acabou influenciando o outro e culminando com as línguas neolatinas.
Retomando: de fato, o latim dito “vulgar” foi uma manifestação quase exclusivamente oral, que não deixou fontes escritas, a não ser algumas observações de gramáticos ou plebeísmos intencionais dos escritores clássicos (como nas comédias de Plauto, por exemplo). Para os estudiosos de filologia românica do século XIX e do começo do século XX isso foi um sério problema: como reconstruir uma língua que desapareceu sem deixar manifestações escritas? O método histórico-comparativo parece ter sido a respostas mais adequada. O estudo do conjunto das línguas românicas, juntamente com inscrições funerárias, textos de escritores populares e das línguas bárbaras que incorporaram algum termo do latim dito “vulgar”, etc., levaram os estudiosos a reconstituírem, claro que parcialmente e de modo indutivo, esse latim. Dessa forma, Maurer (1962, 58-59) diz que não é possível fixar com segurança a data em que se formou o latim dito “vulgar”, contudo:
Como data inicial podemos tomar o século III A.C., entre 250 e 200. Por essa época a intensa colonização da Itália e a assimilação de populações novas em grande número deviam começar a afetar bastante a linguagem da massa popular, para dar-lhe um colorido especial. Era o início de uma grande revolução lingüística destinada a destruir muito do velho sistema flexional herdado do indo-europeu (Maurer, 1962, 59).
Verifiquemos agora algumas características, inovadoras para a época, do latim dito “vulgar” (segundo Maurer, 1962, 181-186):
1) Maior simplicidade: dada pela perda de distinções sutis na flexão e na sintaxe; pela perda da 4.ª declinação, que facilmente era confundida com a 2.ª, e da 5.ª declinação que se confundia com a 3.ª e 1.ª; pela queda do 3.º gênero (neutro), herança do indo-europeu, ficando apenas o masculino e o feminino; pela grande simplificação dos pronomes; pelo desaparecimento dos verbos depoentes, que constituíam um problema devido a sua forma passiva e significação ativa; e pela simplificação da sintaxe.
2) Expressão analítica das funções e relações dos termos: o latim clássico era uma língua essencialmente sintética devido a sua origem indo-européia, ou seja, tinha tendência a utilizar um imenso número de flexões (como os casos; as flexões verbais; o número, o gênero e o grau dos nomes, etc; tudo expresso por sufixos e prefixos). Exemplo: alto (adj.) > altier (comparativo) > altissimo (superlativo). O inglês, apesar de não ser diretamente uma língua românica (é indiretamente via francês, já que 70% de seu léxico tem origem ou influência dessa língua), conserva algo parecido com esse exemplo: o comparativo e o superlativo em inglês das palavras de até duas sílabas são sempre demarcados por sufixos, provavelmente uma remota herança desse latim clássico. Ex.: tall (adj., “alto”) > taller (comparativo) > tallest (superlativo).
Contudo, o latim dito “vulgar” tende às formas analíticas, ou seja, desdobrar as flexões em palavras que as substituam. Portanto, utiliza-se mais verbos auxiliares, pronomes, preposições e advérbios. É, segundo Maurer, esta transformação do sistema antigo que dá o seu caráter distintivo ao latim dito “vulgar” em oposição ao clássico. Maurer também lembra que o processo analítico parou no meio do caminho, devido à recorrência de muitos elementos do latim arcaico por parte do latim dito “vulgar”. Também é interessante lembrarmos que tal processo, o passar da forma sintética para a forma analítica, é uma forte tendência observada ainda hoje nas línguas em geral: tomemos por exemplo o próprio português e ainda na questão dos graus dos nomes: gramaticalmente, o uso do superlativo terminado em –íssimo é o correto. Entretanto, essa construção sintética já há muito caiu em desuso na língua falada, sendo substituída simplesmente por muito ou pela duplicação deste (ex.: muito, muito fino, ao invés de finíssimo), construção analítica.
3) Gosto acentuado pelas formas concretas e expressivas: esse aspecto revela-se no léxico e na sintaxe, e caracteriza-se pelo emprego de termos relacionados ao cotidiano, ao concreto que rodeava o falante do latim dito “vulgar”, que era em sua maioria a classe trabalhadora e humilde do povo. Isso acabava caracterizando um discurso mais claro e objetivo, sem os floreios e as abstrações do latim clássico, tornando a língua mais acessível aos seus falantes. Lembremos que isso ainda ocorre nas línguas hoje, uma vez que a tendência à abstração é muito restrita à literatura, enquanto a concretização é o normalmente utilizado na fala, até por uma questão de melhor comunicação.
4) Menor resistência a elementos exóticos: neste caso Maurer se refere aos empréstimos lingüísticos. O latim clássico, como já se viu, não era aberto a eles, devido ao seu caráter purista, recluso, etc. Já o latim dito “vulgar”, no seu dinamismo, absorve grande quantidade de termos importados de dialetos itálicos vizinhos, do grego e, mais tarde, das línguas dos povos subjugados, enriquecendo-se com isso ao invés de relegar-se a um ostracismo. Esta questão dos empréstimos lingüísticos ainda hoje traz bastante polêmica: recentemente, no Brasil, o deputado Aldo Rebello (PC do B, SP) propôs um projeto de lei que previa a proibição do uso de empréstimos lingüísticos de língua inglesa. O deputado alegava que esses empréstimos do inglês estavam colocando em perigo a integridade da língua portuguesa. Até certo ponto ele tem razão, contudo, é uma atitude tola, pois como acaba-se de ver, foi graças a fatos lingüísticos como esse que o latim dito “vulgar” “evoluiu”, digamos assim, para sua autoconstituição e para as línguas românicas atuais, além de ser um processo praticamente impossível de ser evitado.
A estas quatro características básicas resumidamente elencadas acima, Maurer chamou de homogeneidade do latim vulgar, levando em consideração que este apareceu em Roma e em uma pequena região derredor antes das conquistas imperiais. Assim, quando ocorrem as conquistas territoriais e criam-se escolas para o aprendizado do latim entre os povos dominados, juntamente com os fatores apontados por Bruno Fregni Bassetto citados no final do capítulo 1 deste trabalho, o latim dito “vulgar” começa a levar essa homogeneidade às regiões conquistadas e estas mesmas regiões começam a trazer para Roma suas línguas: é o início do processo de dialetação do latim coloquial. Maurer dirá que
O abandono de formas antigas, desgastadas pelo tempo, e a criação de outras são constantes em uma língua viva, como resultado da atividade incessante do espírito humano à procura de novas idéias, de novos meios de expressão, mais vigorosos. Disseminando-se ela por uma extensão geográfica maior, é inevitável que as divergências regionais se multipliquem (1962, 189).
Mais à frente, Maurer dirá também que, no caso da dialetação do latim, é preciso levar-se em conta também a influência dos chamados substratos, que seriam as primeiras línguas conhecidas e faladas nas regiões conquistadas e que deixaram traços muito fortes nestas. Estes substratos, querendo-se ou não, influenciaram na pronúncia, na criação de formas analógicas novas e mesmo no léxico, contribuindo de maneira relevante no processo que resultou nas línguas neolatinas modernas e suas diferenciaçoes. Só complementando, nas palavras de Serafim da Silva Neto, o bom senso deixa-nos fora de dúvida que nas várias províncias o latim tomava aspecto próprio, colorido peculiar. Tais variantes caracterizavam-se, sobretudo, pelo acento e pelo vocabulário, uma vez que nas formas e nas frases há maior resistência à evolução (1957, 29).
Assim, com o passar do tempo e com a posterior queda do Império Romano, o latim dito “vulgar” se disseminou de tal maneira que aquela língua falada em Roma que mantinha uma certa homogeneidade, fragmentou-se e variabilizou-se até desaparecer, cerca de nove séculos depois de Cristo, enquanto língua falada por um povo. Contudo, ele continua vivo nas dez principais línguas românicas que originaram-se dele.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS: LATIM ONTEM, HOJE E SEMPRE

Muito ficou por ser dito sobre o latim dito “vulgar” e suas peculiaridades e transformações que deram origem às línguas românicas modernas. Contudo, tempo e espaço tornam-se limitados e insuficientes, pois faltaria uma análise de como estas línguas se constituíram desde o latim até suas formas modernas.
Apesar disso, acreditamos que, com o que foi apresentado, seja possível identificar a “eternidade” do latim, a qual mencionamos na introdução deste trabalho. Com o pouco que foi dito, pudemos notar as diferenças entre latim clássico e latim dito “vulgar” e mais ou menos como se deu a dialetação deste último, que o descaracterizou e, ao mesmo tempo, o tornou produtivo: foi graças a dinâmica desse aspecto, que deixou poucos vestígios concretos de sua existência, que se tornou possível toda a cultura ocidental hoje existente.
Também foi possível notar que alguns processos lingüísticos já adotados pelo falantes da época no que constitui a homogeneidade do latim dito “vulgar”, ainda são produtivos na dinâmica das línguas, como a tendência à simplificação e o uso de formas analíticas, sem falar da produtividade dos empréstimos lingüísticos.
E assim, como a Cidade Eterna, a língua eterna, de uma forma ou de outra, prevalece, e até o presente não há indícios de que o seu futuro seja diferente.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

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