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Ensaios-->A EDUCAÇÃO E SEU PAPEL SOCIAL -- 19/02/2002 - 01:43 (Wilson Coêlho) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos

A educação, entendida como um processo vital na formação do homem de caráter - ou conjunto de traços particulares que definem o modo de ser de um indivíduo -, através de forças naturais e espirituais, trata-se de um processo de conhecimento ou de um mecanismo de reprodução dos costumes perpetuados numa determinada cultura. É dizer que a educação cria uma espécie de roteiro ou modelo de conduta do homem para o “bom” andamento de uma determinada sociedade. E, considerando a possibilidade da educação não se resumir à simples existência de uma escola normatizadora de um suposto saber e a repartição do mesmo, significa dizer que o número de “educações” equivale ao número de culturas existentes.
Mas a educação, como um inventário das relações inter-pessoais, se sustenta do imaginário, dos costumes e – para garantir estas relações – tem por trás de si uma ideologia. Assim sendo, a educação depende tanto do tempo quanto do espaço educacionais estabelecidos para que ela se realize e pode – além de repartir o saber - também estar desconectando os homens da coletividade, tornando-os totalmente inúteis frente aos seus anseios e suas necessidades, tendo em vista as estruturas sociais de um saber centralizado e determinado pelo grupo dominante de uma sociedade dividida em classes. Porque repartir o saber dos dominantes entre os dominados significa preparar os segundos para atender aos interesses dos primeiros. Quando se fala, por exemplo, que após a revolução burguesa a França solucionou seu problema de analfabetismo, convém lembrar que ainda existiam em suas terras diversos castelos e feudos com costumes, línguas e culturas distintas e que – para garantirem seu domínio – os “revolucionários” tiveram que a ferro e fogo “educar” a todos, ou seja, fazer com que todos falassem a mesma língua para ler a mesma constituição e as mesmas leis e pudessem compreender os significados e valores dos novos senhores. Assim também aconteceu no México, depois da revolução dos priistas, o Partido Revolucionário Institucional(izado) pregou aos quatro ventos o acesso de todos às universidades: homens, mulheres, negros, índios, etc. Em nossos dias não é muito diferente. Um professor de música numa sala de aula, diante de 50 alunos, ensina os acordes e os ritmos convencionados pela cultura européia e, se dali houvesse a possibilidade de saírem 50 músicos a executar uma arte a partir de suas vivências e capacidades de compreender o som e a melodia, frutos de suas culturas e do sentido de suas vidas, essa possibilidade é abortada já no início do processo de criação e somente 1 ou 2 serão considerados aptos e dignificados como artistas, simplesmente por terem mais se aproximado daquilo a que o mestre entende como música. Daí, no futuro, participarem de uma Orquestra Sinfônica da vida em prol do “embelezamento” das realidades de miséria e injustiças as quais os povos de sua origem foram submetidos. Na maioria das vezes, as universidades não têm qualquer intenção ou preparo de formar profissionais, no sentido de poderem exercer um trabalho como participação na sociedade. Quase sempre servem apenas para legitimar a divisão de classes e oportunidades, tendo em vista a formação diferenciada e hierarquizada para atender às necessidades do mercado. É dizer que – em muitos casos – estas universidades não conseguem sequer preparar os chamados “cidadãos” para o sacralizado mercado, ou seja, apenas dão-lhes um título que os “autoriza” ao exercício de determinada função na sociedade. Talvez seja o caso de um simpatizante de esquerda que, após concluir sua tese de doutorado em Marx, pela Sorbonne, volta ao Brasil para exibir e ostentar seu título de nobreza. Essa relação se estabelece em cadeia e, também em nosso meio imediato, acontece de uma criança ser considerada inteligente, não por desenvolver uma capacidade de experimentar por si mesma a vida e chegar às suas conclusões, mas por não existir como tal e simplesmente ter “compreendido” a verdade do adulto, ou seja, por ter abdicado de si mesmo e ter se adaptado ao modelo pronto e acabado de uma sociedade que extratificou as diferenças para garantir a unidade de seu domínio.
Destarte, a educação, através de seus educadores, consiste num papel social determinante no processo de conhecimento, apreensão e construção do sentido de mundo. Mas no exercício deste papel social, muitos são os educadores que desconhecem o fato de estarem desempenhando esta função e simplesmente “repartem” o saber conforme os mandamentos da dominação. Alguns defendem a idéia de uma escola gratuita e de qualidade. Talvez por ingenuidade ou mero discurso, pois – por um lado – não existe escola gratuita, considerando que a manutenção desta se dá mediante o pagamento de impostos diretos e indiretos. No caso dos indiretos e/ou imbuídos no preço de mercadorias e serviços, convém ressaltar que são os impostos pagos justamente por aqueles trabalhadores que não têm acesso a escola, e sequer os seus filhos. Daí, não existe a tão apregoada gratuidade e, quanto a suposta qualidade, não passa de um conceito completamente esvaziado de sentido, tanto pela sua subjetividade flutuante quanto pelo seu significado a partir do discurso da atual sociedade.
Existem ainda os idealistas que propõem uma educação para a mudança. A partir deste pressuposto faz-se necessário atentar para duas observações. Primeiro, mudar algo é tirá-lo de um estágio ou lugar e levá-lo a outro, mas tratando-se da educação significa dizer que não existe educador sem educando e isso requer um projeto da coletividade por um pleno conhecimento da realidade que aí está para se saber quais as mudanças que se quer realizar. Depois, a educação não muda nenhuma sociedade, mas apenas pode contribuir de forma fenomenológica, na relação educador-educando, para a construção de uma mentalidade capaz de desenvolver mecanismos e instrumentos para tal. Porque a própria idéia de transformação das estruturas políticas e econômicas de uma sociedade já é determinada pelas estruturas desta mesma sociedade que se sustenta a partir de seu discurso desenvolvimentista e evolucionista. Por um lado, os projetos de educação para a mudança podem apenas estarem referendando as subjetividades criadas pelo capitalismo e, por outro, somente contribuindo com as estratégias de reorganização da vida social em prol de uma adaptação às necessidades atuais da reprodução do capital em seu estágio neo-liberal e globalizante.
Para ilustrar a idéia de educação para mudança, ultimamente, os meios de comunicação têm nos metralhado insistentemente com uma propaganda do governo federal em prol de um projeto de “valorização” da educação. Este projeto que não me recordo exatamente o slogan, é algo mais ou menos assim: “educação para a vida”. No entender da criativa publicidade, significa que a educação – para melhor compreensão e para ser mais prazerosa – deve estar diretamente ligada à realidade do educando. Bem, um determinado sujeito abre a porta da geladeira para apanhar um prato de bolo ou pudim, mas – ao tentar fazê-lo – é impedido por um monstrinho que se intitula “enzimas”, advertindo sobre os males do excesso na alimentação.
Enfim, para que se cumpra a nova ordem do dia , ou seja, levar a cabo o projeto de “educação para a vida”, faz-se urgentemente necessário realizar uma grande mudança: todos deverão ter um mínimo para comer para começarem a entender o momento de parar de comer.
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Wilson Coêlho é dramaturgo, escritor e graduado em Filosofia pela UFES.




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