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Ensaios-->LINGUAGEM E TECNOLOGIA -- 19/02/2002 - 01:46 (Wilson Coêlho) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos

Não pretendo aqui formular uma noção ideal de linguagem ou fundamentar uma metodologia de análise meramente descritiva. É dizer que me interesso apenas por apontar algumas observações que imagino suficientes para propiciar ou provocar uma espécie de discussão em prol de uma postura crítica, considerando a linguagem como objeto socialmente construído, como prática concreta de ação no real. Para tanto, faz-se imprescindível abolir a idéia da linguagem como mera representação do real como propõe a tradição clássica. E se a linguagem não se resume numa simples representação da realidade, cabe-nos ressaltar seu caráter ideológico. Mas como ideologia, a linguagem tem sido distorcida e a todo momento utilizada para escamotear a realidade, mascarando sua imposição para justificar a dominação e gerar uma falsa consciência; uma consciência ilusória produzida a partir da mentalidade propagandística e mercadológica da burguesia. Nesse sentido, a sociedade se ocupa da tarefa de 'socializar' o desejo e privatizar os meios para uma possibilidade de realização do prazer.
Nos tempos que correm, se fala constantemente no avanço da tecnologia e - em especial - da informática na comunicação. De acordo com o discurso oficial da sociedade chamada moderna (ou pós-moderna) - apesar de sua prática primitiva de sacrifícios - a máquina avançou e o homem ficou para trás. Não se trata de ignorar a tecnologia e as vantagens oferecidas por este sofisticado (algo a ver com os antigos sofistas?) mecanismo de comunicação, mas não se deve perder de vista a consciência de que toda invenção é resultado de um processo desenvolvido por muitos e se dá de acordo com as condições materiais para que ela se realize. Sendo assim, toda invenção é uma ação humana e, como patrimônio da humanidade, deve estar a serviço do bem comum e empregada para facilitar o trabalho da e para a coletividade. Mas esse suposto avanço não nos interessa ao preço da exclusão e legitimação da miséria a milhares de milhares de seres humanos e, muito menos, quando se trata de uma deificação da máquina. Não nos interessa o fetiche de uma comunicação globalizada nos moldes dos capitalismo. Pode ser que o futuro da humanidade seja a miscigenação, mas tudo deve se dar a partir do intercâmbio e das relações entre os povos e não mediante a força e a imposição de uma linguagem dita 'universal', ou seja, entendida como universal por ser a forma de expressão estratégica da dominação em prol de sua hegemonia. Assim se faz também universal o deus cristão, pois se os povos colonizados não tivessem sido condenados ao temor da cruz e todas as ameaças do inferno, certamente, seria impossível que estes assimilassem ou aceitassem os mesmos valores euro-ocidentais que definem a propriedade, o trabalho escravo, a beleza padrão, as formas de organização de poder, os conceitos de justiça, etc & tal. Assim, entendendo o sistema discursivo como uma ficção e, levando em conta a alienação do sujeito quando obrigado a repetir a linguagem do outro (alteridade), poderíamos refletir sobre o processo de colonização de nossos povos e - conforme Roland Barthes - questionarmos: '- a classe dos sacerdotes não foi durante muito tempo proprietária e técnica das fórmulas, isto é, da linguagem?' Convenhamos que a palavra em si mesma já traz uma série de complicações em virtude de uma espécie de esvaziamento de sentidos numa sociedade de Babel, principalmente, quando oriunda de uma língua imposta. É como se tivéssemos assinado um acordo silencioso para fazermos de conta que nos entendemos. Por exemplo, será que a palavra nuvem teria o mesmo valor e significado se ouvida por um nordestino que sofre a estiagem há dois anos consecutivos e um outro no sudeste que quer ir à praia tomar sol com a família? World, Monde, Orbis, Welt, e Mundo - mesmo 'traduzidas' - têm o mesmo significado para um inglês, um francês, um latino, um alemão e um brasileiro? Ou cada um destes concebe o mundo conforme o seu sistema de interpretação, a partir de sua experiência, sua existência social e cultural de explicação do universo? Conforme Marx, numa passagem de A Ideologia Alemã , 'não é a consciência que determina a vida, mas é a vida que determina a consciência'. Isto posto, é a relação do sujeito com o mundo, consigo mesmo e com o outro que definem a sua linguagem. E a linguagem é a sua própria forma de ser para o mundo, para si mesmo e para o outro. Concordando com a idéia de que pensar e ser é o mesmo, o ser se faz na linguagem que é a forma do homem expressar o pensamento. Destarte, o homem é na linguagem e - sem esta - ele meramente existe como uma árvore ou uma pedra, mas assim ele não é. É dizer que o frenético avanço de uma tecnologia que não está a serviço do homem, mas de um pequeno grupo dominante, em nada contribui para o crescimento do indivíduo na sua totalidade para o mundo, para a liberdade. Trata-se apenas de uma inteligência artificial em prol da artificialidade do homem. A tecnologia? Sim!, com tudo o que o homem tem direito: computador, internet, intranet & qualquercoisanet. E não é para se viver uma realidade virtual, pois levados pela nova 'ordem' há homens que se comportam como um dos personagens no mito da caverna , de Platão, em sua 'República'. Lá, um prisioneiro contempla, amarrado no fundo de uma caverna, os reflexos de simulacros que - sem que ele possa vê-los realmente - se lhes aparecem transportados à frente de um fogo artificial. E, como esse prisioneiro sempre viu essas projeções de artefatos e aparências, toma-os por realidade e permanece iludido.
Nessa relação de dependência e sem uma linguagem que lhe é própria do ponto de vista de sua identidade cultural, o homem satisfaz apenas uma necessidade criada pela e para a própria sociedade de consumo, mas as suas verdadeiras necessidades permanecem reprimidas. Ele reprime partes de suas necessidades em favor de uma outra, a saber, a de supostamente se plugar com o mundo. Refiro-me ainda a uns poucos privilegiados, porque a maioria está diante da máquina apenas para cumprir uma tarefa para o famigerado mercado. Na verdade, essa modernidade não é o último objetivo dos seus desejos, muito pelo contrário, ele tem a necessidade de contatos interpessoais e reconhecimento social. E essa necessidade ele acredita satisfazer somente por meio desse aparato tecnológico, mas apenas com o produto do seu trabalho alienado e somente cumprindo a ordem dada - mesmo aparentemente satisfeito nessa necessidade - permanece isolado do mundo, ele e sua máquina, sem conseguir romper com sua carência de relações. Ou seja, escolhe uma falsa satisfação das necessidades por ser a única 'oferecida' pela sociedade comedora de acrílico e turistas de shopping que - asfixiados pela subjetiva ilusão de ser sujeito - estão perdidos entre os objetos e mercadorias a todo momento ameaçadas de cair em desuso para dar lugar a outra 'novidade'.
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Wilson Coêlho é dramaturgo, escritor, tradutor, encenador, professor de Filosofia e membro fundador do Grupo Tarahumaras de Teatro.




















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