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Contos-->Nunca tenha pressa -- 26/11/2002 - 15:23 (Ailton Sanches) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos








NUNCA TENHA PRESSA




Autor: Ailton Sanches




Chovia há vários dias. Uma chuva intensa que parecia não parar mais. Aquele dia a tarde estava fria e uma nuvem densa nublava o céu daquele mês de novembro. Tinha sido um dia longo e de muita expectativa para o Agostinho. Há meses, vem correndo de hospital para hospital, para ver se conseguia realizar uma cirurgia necessária tanto quanto delicada – três pontes de safena.
Todos os hospitais apresentavam a mesma desculpa: A saúde do Brasil está arruinada e caótica; o governador não repassa a verba da saúde, você tem que aguardar; contudo, o seu médico que costumeiramente lhe atendia, isto porque pobre não tem médico particular, mas aquele que costumeiramente atende, havia dito em tom taciturno que o seu estado era de risco. A qualquer momento, dizia, poderá enfartar e a depender do local em que se encontrar será fatal.
Prescreveu uma serie de medicamentos e cuidados desde o levantar até o deitar ao final do dia. Por sua dedicação profissional passou-lhe um quadro tão grave que não deveria sequer sair de casa; dirigir automóvel nem pensar, ainda mais se a direção do veículo for mecânica. Realmente estava nos seus últimos dias da vida.
Debaixo de uma garoa fria, um pouco encolhido para que os ossos se aproximassem uns dos outros e com essa aproximação produzissem calor juntamente com os demais tecidos; como no dizer popular, estava encolhido, mas tão encolhidinho que os ossos rangiam ao se chocarem.
Algo de estranho estava para acontecer.
Agostinho sempre respeitou a opinião das pessoas, e a questão de crer ou não, em alma do outro mundo nunca o colocou em opinião oposta. Cria e não cria, dependia, é claro da situação e dos interesses. Discutir sobre esse assunto é o mesmo que se falar em futebol – a razão está sempre com quem está ganhando.
Existem pessoas que vivem das coisas do além, dizem que se comunicam com os mortos; recebem mensagens; enviam mensagens; marcam encontros e às vezes até arranjam uma ajudazinha para que o vivo, influenciado pelo morto acerte na loteria.
Agostinho nunca mexeu com o sobrenatural, sempre teve respeito por estes fatos e não os discutia, embora, como seguidor da Bíblia Sagrada tenha aprendido que o homem morre uma só vez e ficará em algum lugar aguardando a sua justa punição ou recompensa.
Mas existem dias que as coisas se complicam. E, em um dia chuvoso, uma tarde nebulosa, em um local tenebroso, no mês de novembro, tudo pode acontecer.
É o que quero lhes contar. Agostinho fora ao hospital para se informar a respeito da sua cirurgia; ao sair, indo em direção ao estacionamento, vislumbrou que, ao longe aparecera seu irmão mais velho, vestido com uma jaqueta bege e uma das mãos colocadas dentro do bolso. Agostinho apressou-se para encontra-lo, imaginando que seu irmão estivesse com pressa e não queria mais retardá-lo. De repente, seu irmão, fazendo gesto com uma das mãos, acenando para que ele não corresse, não tivesse pressa, pois, a sua hora não tinha chegado e ainda teria muito tempo pela frente. Com o gesto de mãos, continuava a acenar e dizer, não tenha pressa... não tenha pressa. Neste momento, aquela imagem fora desaparecendo lentamente até sumir por completo. Agostinho ficou assustadíssimo; compreenderá que tivera uma visão. Seu irmão morrerá a cerca de seis anos.
Os dias se passavam e Agostinho não conseguia esquecer-se do que vira e ouvira e tentava compreender a razão do aparecimento de seu irmão naquela visão e, na saída do hospital onde deveria submeter-se a tão delicada cirurgia. Uma coisa não lhe saia da lembrança: Não tenha pressa ... não tenha pressa. Começou a entender que não devia preocupar-se tanto e aguardar o tempo certo.
Passados alguns dias e novamente em uma noite chuvosa do mês de novembro. Agostinho com a cabeça apoiada em seu travesseiro, olhava para o teto do quarto ouvindo o barulho da chuva batendo no vidro da janela. Aquele som das gotas de chuva contra a janela, lhe trazia uma calma que era um lenitivo para sua alma tão angustiada, colocando-o assim em estado de tranqüilidade: e, achava-se como se estivesse sendo transportado para uma esfera superior fora das agruras deste planeta tão conturbado. Nesse estado inebriante começou a vagar em seus pensamentos. Mil coisas se passavam. Agostinho, tinha por hábito, quando se tratava de algum pensamento interessante fazer anotações para depois colocá-los em ordem, e que, por certo viriam a servir para alguma coisa.
Levantou-se e foi ao segundo quarto do seu apartamento, que também, lhe servia de escritório, onde tinha uma escrivaninha e um computador.
Já acomodado neste quarto, o relógio existente sobre a escrivaninha, insistentemente, com seu tique-taque, marcava duas da madrugada. Fez algumas anotações. O silencio da noite, interrompido apenas pela tique-taque do relógio que não se cansava de trabalhar as vinte e quatro horas do dia era o único sinal de que a vida existia. Envolto naquela calmaria, Agostinho achou por bem apagar a luz e permanecer em silencio e meditação até que o sono voltasse e o envolvesse no descanso.
Alguns minutos se passaram, o silencio era sepulcral, o tique-taque do relógio incansável, quando uma tênue luz começou a inundar a escuridão do quarto. Foi momentânea e a seguir, Agostinho foi sentindo que não estava só. Algo pairava no ar e aos poucos, diante de seus olhos, foi se formando uma figura que, de principio, estava turbada suas pernas: começaram a tremer, os cabelos a arrepiar, o batimento do coração já bastante danificado começaram a aumentar, sua boca começou a secar em razão da dificuldade da circulação sanguinea. Agostinho pensou que estava sendo acometido de um enfarto, coisa que para ele tornara-se corriqueiro, pois já havia tido outros; achava que sua hora estava chegando, mas porque a pressa... Aos poucos aquela aparição foi se definindo, materializando-se: não tinha dúvidas, era seu irmão mais velho, falecido hà seis anos atrás. Ouve uns minutos de silencio e contemplação: o medo já estava se dissipando, diminuído. Os batimentos do coração voltara a normalizar-se. Aos seus olhos descortinava-se a figura daquela pessoa ou espírito. Um frio corria por todo o quarto. De repente, o ambiente foi se rcompondo e Agostinho se aclamando. Ainda balbuciante criou coragem e, fez a primeira pergunta com voz trêmula:
- O que você quer de mim?
A resposta veio de imediato.
- Vim para te dar tranqüilidade. Você anda muito preocupado e apressado. Não se preocupe, você ainda tem muito tempo pela frente.
Refeito do susto inicial, com as coisas já ordenadas, agora, mais tranqüilo, Agostinho pode então dialogar mais tranqüilamente.
- De onde você vem? E como é o lugar em que estás?
- Não posso lhe dizer o nome e nem o lugar onde estou, só te digo que é um lugar dos mortos. A Bíblia chama de hades.
- Mas como é esse lugar? As pessoas se conhecem? Tem visto nossos pais, nossos irmãos?
- Aqui somos todos iguais. Somos espíritos. Nossa única aparência é de espírito. Não temos forma, isto é corpo. Estamos aguardando um corpo espiritual que nos será dado quando o Mestre completar a sua missão. Por enquanto apenas existimos.
- Mas, não dá para se comunicar uns com os outros?
- Não. Aqui não existe meios de comunicação é um silencio total e eterno. Quando aqui chegamos, perdemos todos os sentimentos: amor, ciúme, carinho, tristeza, alegria, saudade, vontade de dar ou tirar, ambição, vaidades, fome, necessidade de vestir, comprar ou vender. Como disse o Mestre: Aqui não tem choro, não tem pranto, não tem dor e nem ranger de dentes. Chegando aqui, tudo passa, entramos em uma estado de meditação e contemplação, acho que, nos preparando para o grande dia, onde uns serão mandados para um lugar chamado paraíso eterno e outros para um lugar que segundo dizem de muita aflição e angustia. Me parece, que para o segundo lugar irão muitos dos que aqui estão. São pessoas, que como eu vivem cogitando uma forma de escapar e, quando muito longe vamos, é em locais como hoje estou.
A essa declaração, correu pela coluna de Agostinho um friozinho que o deixou bastante apreensivo. Meio atônito resolveu lançar mais uma pergunta.
- E o relacionamento entre vocês, como se faz?
- Olha, chegando lá, não perdemos a nossa individualidade, mas não temos relacionamento uns com os outros. Muitos acham que estão dormindo, pois lhes foi dada uma promessa de que dormiriam até aquele grande dia, então permanecem isolados a um canto aguardando o dia que, segundo aprenderam aí com vocês que ressuscitariam primeiro.
- Vocês compartilham esses sentimentos?
- Não. Ficamos vagando de um lado para outro apenas em observação mas não nos comunicamos. Não existe meios ou formas para isso, afinal de contas, somos espíritos.
- Mas vivem todos juntos, os bons e os maus?
- Não existem espíritos bons ou maus. Aqui somos todos iguais. A única coisa que esperamos é peleo grande dia quando será definida a situação de cada um segundo o que fez na terra. Ainda não tenho uma posição de que lado estarei. O conceito de bom ou mau é da pessoa humana, com relação a sua conduta diante dos homens. Se foi cumpridor da lei e das escrituras foi bonzinho: caso contrário, foi mauzinho. Agora quem vai julgar estas coisas será o Mestre, naquele dia...
- Bem, tudo isso me deixa confuso e apreensivo, afinal, com a sua intenção de vir me visitar?
- Não temos conhecimento do que se passa por aqui. Não posso afirmar se tenho ou não parentesco com você. Andando a vagar por aí, não sei porque, tive a atenção voltada para você. Notei sua preocupação e a pressa para se entregar a um processo que poderá lhe causar uma transferência para o lugar onde estou. Pensei em dar-lhe estas informações e, dizer-lhe para não ter pressa. Lá onde estou, não é bom e nem é ruim, isto é, indiferente, pelo menos por enquanto.
Continue a caminhar devagar nessa sua jornada. Cumpre uma dieta alimentar: faça caminhadas: dedique-se as pessoas que o cercam, viaje, divirta-se, aproveite a vida, mas faça tudo sem pressa.
- De fato, tenho andado bastante apreensivo, preocupado, e às vezes tenho questionado com relação a minha continuidade nesta vida.
- A vida não é sua:.é um dom que lhe foi dado, o que você tem a fazer é cuidar dela, ser mordomo de sí mesmo. O que você está fazendo é correto. Andando atrás de médicos, procurando soluções, mas... repito: não tenha pressa.
A chuva, agora, aumentava de intensidade; as gotas que batiam contra a janela, parecia uma contagem regressiva para o desfecho de um encontro. O ar se tornara mais escasso. Um frio gélido passava dentro do quarto fazendo com que a temperatura baixava cada vez mais.Aquela imagem que até pouco falava comigo, começava a se desfazer como que fumaça deixando no ambiente um cheiro forte como se estivéssemos diante de altar queimando incenso e velas. O quarto tão cheio de coisas vivas, tornara-se um ambiente lúgubre e espectral. Senti que nunca mais veria meu irmão. No entanto, jamais esquecerei suas palavras: Não tenha pressa... não tenha pressa!
A partir desta noite de encontro, aprendi a valorização da vida; tornei-me um amante das coisas boas, das amizades e dos valores que nos cercam. Aprendi que o importante é estar vivo, tudo o mais acontecerá, pois, seja o que for, por certo, faz parte do processo do viver.
Aprendi a caminhar devagar.




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