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Ensaios-->ALEGORIA E REALIDADES REINTERPRETADAS -- 04/11/2005 - 15:21 (ANTONIO MIRANDA) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
ALEGORIA E REALIDADES REINTERPRETADAS
Problematizações em João de Melo (Meu reino não é deste mundo)

(apontamentos feitos por Antonio Miranda sobre a tese de doutorado de VANDA INÊS DA SILVA PAZOS, defendida no Departamento de Teoria Literária da Universidade de Brasília, em março de 2005, como membro da banca examinadora. A tese analisa a obra O meu mundo não é deste reino , romance do açoriano João de Melo)

Antonio Miranda

Um prazer descomunal com a leitura do texto... Li o livro do João de Melo e a tese da candidata na preparação para esta defesa pública.

Relembra o El reino de este mundo... de Alejo Carpentier, onde os conteúdos históricos são alegorizados, numa cenografia de exacerbações e interpretações, para revelar a obra enciclopedista dos libertadores do Haiti e da América hispânica.

Alejo Carpentier, Manuel Mujica Láinez, Uslar Pietri, Garcia Márquez são alguns dos autores que precederam João de Melo, ainda que menos escatológicos, mais esperpênticos. JM mais que esperpentiza, apela para uma alegorização escatológica, com fúria.

1 METODOLOGIA

A metodologia e os objetivos estão diluídos mas explicitados ao longo da longa revisão de literatura, na parte relativa á justificativa, na parte introdutória da intitulada ‘abertura’ mas não deixa claro exatamente como vai ser realizada a exegese textual. Ex. p. 10, p. 12... informa que pretende elaborar um modelo analítico considerando principalmente (“basilarmente”) as considerações de Walter Benjamin.

Confesso um susto inicial diante da revisão de literatura que compreende 150 páginas de uma obra de 230, incluindo a bibliografia.

Poupourri, um digest da evolução histórico-conceitual do tema central da tese, um condensado de toda a história da cultura ocidental
MAS a autora consegue realizar uma síntese magistral, revelar o essencial .

Persegue uma análise cronológica e sucessiva das diferentes correntes filosóficas que abordam a questão mas inteligentemente não pretende demonstrar propriamente uma evolução mas sua transformação, quebrando a seqüência quando, ao final, dedica-se á interpretação benjaminiana no capítulo sobre a Hermenêutica contemporânea (p. cap. 2. p. 107) que retrocede para o barroco, o romantismo...

Trata-se de um verdadeiro ‘estado da arte’ da literatura sobre a Alegoria cujo capítulo por si só vale o esforço da candidata e merece converter-se em livro. Um trabalho de grande erudição e capacidade de síntese, num estilo competente e convincente.

RESUMO HISTÓRICO: útil para quem desconhece a trajetória histórica da ilhas açorianas embora JM faça poucas alusões e referências aos fatos históricos ao contrário de outros autores que exercitam a escritura do “real maravilhoso” como Carpentier e Mujica Láinez, enquanto García Márquez envereda por esse labirinto na biografia alegorizada do Libertador Simon Bolívar. Por certo, García Márquez está mais próximo do JM pela obsessão em torno das devastações das guerras civis na geografia e na alma de Macondo e das povoações que emolduram outros de seus magistrais relatos. Mas García Márquez faz pouco uso da escatologia, embora esteja ela mais presente em obras referentes à Cândida Erêndira e sua avó desalmada e em algumas passagens da saga bolivariana, mas de forma mais velada.

2.O TEXTO (cap. 4.2) que vai da p. 165 até 190 talvez merecesse constituir-se em capítulo independente assim como o seguinte (4.3, p. 190-214) pois os dois capítulos constituem o chamado “estudo de campo” da autora, em que aplica o pretenso modelo analítico por sua exemplaridade – ao corpus da pesquisa, ou seja, à obra de JM.

O texto apresenta uma leitura interpretativa de toda a narrativa do O Meu reino não é deste mundo, de forma seqüencial, decifrando ou explicitando as simbologias e as alegorias. Praticamente sem adjetivos, i. e, sem avaliações qualitativas e de juízo da obra. Um reader digest em que, ao invés de usar da tesoura para condensar o texto, faz um resumo seqüencial da narrativa. Funciona como um roteiro ou reconto.

Seria a hora de aplicar o método analítico. Certamente que a autora o fez mas não diretamente mediante uma análise textual. Em duas oportunidades faz relações com a literatura de apoio:

á p. 184 quando afirma que o texto aproxima-se de Nietzsche
e à p. 189 quando recorre a Benjamin.

Não pretendo desqualificar a forma como a doutoranda processou a análise. Expresso apenas uma expectativa em que não fui atendido mas respeito a opção da autora.

Eu esperava encontrar uma seqüência de interpretações textuais em confronto com o arcabouço teórico até como forma de “ruminar” ou deleitar-me com a prosa do escritor, numa releitura.

3. RESULTADOS

“Os Alegoremas estruturantes de O meu mundo não é deste reino” (p. 190-203) dão a chave segura para o entendimento do universo alegórico de JM. A autora confirma a sua segurança e capacidade heurística e desvela as alegorias que explicam a fantasia criadora de JM.

Apresentação do “universo metafísico” do autor – através de Cronos e da Morte

assim como do “universo físico” – o Mar,

o “universo cromático” – o Azul, o Branco e o Verde,

o “universo animal representado” – as Aranhas, os Ratos, os Pássaros,

assim também o “universo representado no título da obra”: o Mundo

como verbetes explicativos de sua significação pela literatura, sem nenhuma relação imedita com o texto de JM.

A autora reserva-se para uma análise mais correlacionada no 4.4 – “Leitura alegórica de O meu reino não é deste mundo” para o “devido” dissecamento do texto.

Aqui acontece (plenamente) a minha reconciliação com a autora da tese. Dei asas à fantasia e mergulhei na economia de palavras com que ela faz o relacionamento do texto de JM com as alegorias do subcapítulo anterior, tendo como fundo as teorizações consistentes de sua revisão da literatura.

É certo que o capítulo em que a autora faz uma súmula discursiva da obra de JM é de extrema utilidade para quem não leu a obra e mesmo para este que o fez, como eu, mais na degustação de seu estilo do que propriamente nos fatos narrados... Sem esta súmula ficaria sem sentido, no corpo da tese, as interpretações do capítulo 4.4 mas, ainda assim, eu teria ficado mais satisfeito se a (quase, na iminência de ser) doutora Vanda Inês tivesse servido a mim e a outros leitores com análises mais pontuais do tão rico e emblemático texto de JM.

O esquema que apresenta à p. 213 para visualizar as interrelações textuais é interessante mas a autora não gasta muito tempo em explicá-lo e defendê-lo, e não vou exigir que o faça.

As “palavras finais” (p. 215-224) são reiterações, como sói acontecer na apresentação de “resultados”, um requinte acadêmico de utilidade principalmente para quem não leu todo o tempo e tem pressa de passar do resumo à metodologia, da apresentação aos resultados, como é de praxe no mundo atual em que já renunciamos ao “antiquado” processo exaustivo e penoso da leitura intensiva para este universo plano e internético (eu jamais usuária os termos cibernético e virtual que respondem a outras alegorias...) do fenômeno atual da leitura extensiva.

Vanda Inês fecha a obra de forma lapidar, epigramática, magistralmente ao referir-se ao caráter EX CÊNTRICO do autor de O meu mundo não é deste reino.

Antonio Miranda
Março 2005
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