Usina de Letras
Usina de Letras
49 usuários online

 

Autor Titulo Nos textos

 

Artigos ( 59672 )

Cartas ( 21255)

Contos (13337)

Cordel (10321)

Crônicas (22226)

Discursos (3170)

Ensaios - (9538)

Erótico (13486)

Frases (47225)

Humor (19422)

Infantil (4629)

Infanto Juvenil (3942)

Letras de Música (5497)

Peça de Teatro (1340)

Poesias (138797)

Redação (3078)

Roteiro de Filme ou Novela (1061)

Teses / Monologos (2432)

Textos Jurídicos (1946)

Textos Religiosos/Sermões (5662)

 

LEGENDAS
( * )- Texto com Registro de Direito Autoral )
( ! )- Texto com Comentários

 

Nossa Proposta
Nota Legal
Fale Conosco

 



Aguarde carregando ...
Ensaios-->ALDISIO FILGUEIRAS: A PALAVRA INVENTA E DEVORA - [poesia] -- 23/07/2006 - 14:08 (ANTONIO MIRANDA) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
ALDISIO FILGUEIRAS: A PALAVRA INVENTA E DEVORA

Por Antonio Miranda

“Pois o homem é palavra
que inventa
e assina em baixo
para não esquecer”.
ALDISIO FILGUEIRAS

A poesia do poeta amazonense Aldisio Filgueiras, em sua mais recente obra poética — NOVA SUBÚRBIOS (Manaus: Valer Editora, 2006) — certamente renova a linguagem da poesia contemporânea brasileira como queria Edgar Morin: pela raiz, pelas entranhas. Voz apocalíptica, sem fé, denunciando a decadência e a miséria humanas de nossos subúrbios eufemizados: “—Ai! Este povo em fuga/ Que nem a bênção / do Pai norteia.”

Descarna gentes estranhadas, rasas, de “formas písceas e humanas”, bestas-feras inocentes, vítimas da miséria, vistas pelo avesso, pelas vísceras. Imagens demenciais, de povos desterrados, retirantes, em diáspora sem fim. Numa linguagem coloquial, confessional, de espanto, de medo e arremedo daquelas (estas) vidas mínimas, ínfimas, exíguas, que vagam pelas ruas, pelos subúrbios, “no triunfo do lixo”.

“Até mesmo/ os pássaros / arriscam-se / a viver sem /para não morrer de.”

Antilinguagem. Aldísio evita as metáforas e se entrega à alegorias, às palavras mais cruas como signos pulsantes, denunciantes, sem mistificação, sem temor ao banal e ao coloquial. Versos às vezes truncados, que apenas insinuam, vociferam.

“Maldita a cruz em que eu.”
“... lá — bem longe / onde o pôr-do-sol.”

Denuncia a condição (des)humana, seus espelhismos: “visagens de vídeo”, que são miragens de um consumismo às avessas, que nos consome, nas frustrações e ilusões de “zona franca” e de bugigangas:

“mas eriçam / (em vão) os pêlos mais / discretos e, sem existir / em carne e
osso e suor, existem, de tanto insistir / que existem. Para quê”.

Evoca um rio ditirâmbico e mambembe, no centro da hiléia amazônica (como por associação, em qualquer metrópole do mundo em desespero): “... o rio ...e ... rua”, dialeticamente como o campo e cidade, dos retirantes com “uma bagagem de filhos”, despojados de ser e de ter, despejados na urbe, pois : “A cidade / engana quem a procura / para ser um lugar”. Um rio que serpenteia e se metamorfoseia em rua por onde as pessoas “nadam sem endereço”.

“O ser humano / é um rio / de uma só / margem interior”.

Homem-rio, serpentário. Impossível não associar o texto de Aldisio Filguieiras ao do mestre João Cabral de Melo Neto. Um rio menos didático e prosaico que o do mestre pernambucano, mais instigante ainda, menos contido e introvertido que o do poeta da paisagem agreste. Versos tensos, curtos, ressentidos: “em restos e trapos: roupas / ou o que restou delas) / têm remendos de pele suja”, mas sem declinar do lirismo:

“Traz notícias frescas / de festas ribeirinhas / e uma lista / de saborosas
saudades / como se nunca viu / para o café da manhã. ”

Como flor de lótus ou lírios despontando dos dejetos de igapós poluídos. Em vez de mocambos, palafitas. Metapoesia justiceira que “Não bastante, atualiza.”

“E se a palavra se fecha
em copas e num piscar
de olhos (como o homem
se fecha em si e finda
mudando de nome e dono
não quer dizer que vá
terminar em nada e sim
acabar em tudo, palavra.”

Experimentalista, ensaia poesia visual, plástica, na concretude das letras que constroem arquiteturas verbais significantes:

mata mato
mata verde mato
mata mato

Às vezes cínico, às vezes sarcástico, não raro também paranóico, deixa o leitor sem fôlego, sem sossego. Outras vezes ironiza, satiriza a politização do discurso e a mercantilização da fé, em versos cruéis:

“Uma camisa
sem pé nem cabeça
despenca
dos andaimes
frouxos
mão na
frente
outra atrás
sem pagar o aluguel.

Aleluia! Aleluia!”

Um livro-poema sálmico, irado como a voz de um profeta do destino. Demoníaco, que reconstrói “este texto em que quase / jazz.” Obra de decantação e remissão, porque “Esta é a ecologia / no cotidiano do texto.”

Com Aldísio Filgueiras a poesia brasileira do século 21 se renova pela melhor tradição, renasce das cinzas da mesmice, dando um coice no beletrismo (ainda) em voga e se institui, consciente e agressiva — ainda que com certo pessimismo por não crer “mais que o sol possa / aquecer sozinho o sol”.

“Nova Subúrbios” é o melhor livro desta temporada e poucos virão com tanta força e tanta qualidade. É um livro para se ler muitas vezes.

Comentarios
Renove sua assinatura para ver os contadores de acesso - Clique Aqui