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Ensaios-->Do Acre boliviano ao Acre Brasileiro -- 03/06/2010 - 02:45 (ALZENIR M. A. RABELO MENDES) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Do Acre boliviano ao Acre Brasileiro
O PERCURSO DAS CRÔNICAS (parte II)

Por:
Maria Alzenir Alves Rabelo Mendes


Os viajantes no Acre

A descoberta do látex como nova fonte de riqueza fez surgir também uma nova expectativa de enriquecimento rápido e ampliação capitalista para os muitos aventureiros e investidores atentos às novidades noticiadas pelos viajantes. E como ocorreu a propagação da notícia sobre o El Dorado, ocorreu também a propagação da notícia das “árvores que choravam leite”. Brasileiros e estrangeiros, por meio de cartas e jornais colocaram a região no topo das notícias, resultando em uma corrida rumo às áreas mais produtivas do látex.

Em decorrência disso, antes que o século XIX chegasse ao final, no Acre, ou Áquiri , as terras antes habitadas por indígenas e onde se concentravam os mais produtivos seringais da Amazônia, já estavam povoadas pelos muitos grupos de aventureiros e investidores, cujo maior interesse focava para a indústria gumífera.
Nessa nova leva de viajantes, diferente do que se deu em outras partes da Amazônia, os aventureiros não vinham somente do Velho Mundo, nem em busca das “drogas do sertão”, ou da “cidade de ouro”. Vinham em busca de outro tipo de El Dorado: das abundantes árvores que “choravam leite” nos vastos seringais a Oeste da Amazônia.

Entre os migrantes, o número de brasileiros oriundos dos sertões nordestinos, em maioria do Ceará, era significativo. Para escaparem da fome, eles vislumbravam um chão novo, onde fossem compensados das agruras das secas e do modelo excludente recém implantado no Brasil, à revelia do ideal de “Igualdade”, um dos lemas apregoado pela imprensa liberal que propagandeou a República.

O modelo excludente validou, na prática, o “despatriamento” dos mais pobres e dos remanescentes da monarquia. Enfim de todos os que se tornaram incômodos à “república dos bacharéis” , ou “república da bucha ou dos maçons”, isso porque grande parte desses bacharéis e outros idealizadores do regime eram militares e ou maçons. Estes, devido à cisão que se deu entre a Maçonaria e a Igreja, passaram a ser repudiados pelos católicos mais conservadores, os quais se mantiveram fiéis ao regime obsoleto. Desse modo, os católicos não simpatizantes da “república dos bacharéis” aumentaram o rol dos desprestigiados pelo novo regime.

Os nordestinos, católicos por tradição, e outros excluídos da possibilidade de emprego nas fábricas ou nas lavouras do Sul do país, seguiram em busca da atividade extrativista, que movimentava o mercado internacional, em demanda por matéria-prima para o desenvolvimento dos novos processos tecnológicos em curso, principalmente para indústria automobilística.

No conjunto dos recém-chegados ao Acre, encontravam-se também pessoas vindas de nações em conflitos, como os sírios e libaneses, expurgados do domínio turco. Estes migrantes fizeram do Acre sua pátria por adoção, como também o fizeram os chamados “brasileiros do Acre”, os quais se encontravam em busca de um novo solo pátrio que lhes garantisse, se não o enriquecimento, ao menos, os meios de sobrevivência. Por essas e muitas outras razões, em pouco tempo, a terra recém-descoberta tornou-se a nova “terra da promissão” para muitos brasileiros e estrangeiros das mais diversas origens: espanhóis, portugueses, alemães, sírios, libaneses e judeus, de diferentes lugares.

O maior número desses migrantes, em especial, daqueles que executavam as tarefas mais pesadas, era de pessoas com pouca ou nenhuma instrução escolar, fáceis de serem manejadas por umas poucas “cabeças” habilidosas para a dominação e para o mando, porém todas, unidas por uma única finalidade: ganhar muito dinheiro e usufruir dele em outros lugares. Alguns exerciam o mando pelo quanto detinham em poder aquisitivo, outros ganhavam destaque e o respeito dos mandatários, tornando-se seus aliados, pelo quanto significavam em sua qualificação profissional ou simplesmente por representarem o saber escolarizado.

Os considerados intelectuais disseminavam-se nos vários outros grupos que gozavam de alguma forma de prestígio e acomodavam-se conforme os interesses que os moviam para a região. Somente em raríssimos casos, eles se incluíam no grupo dos extratores do látex, e de outros trabalhadores braçais .

Os migrantes, os “despatriados”, brasileiros e estrangeiros, fizeram das “tierras non descubiertas” bolivianas sua nova pátria, ainda que apenas temporariamente. É consenso entre os historiadores que os novos habitantes do Acre não tinham planos de se estabelecerem na região. Apesar de ter caráter transitório, a ocupação do Acre logo se constituiu em contendas entre os “brasileiros do Acre” e os bolivianos (Rancy, 1986). Estes últimos, embora fossem proprietários de direito, não haviam tomado posse da região que, pelos tratados hispano-portugueses , pertenciam à América espanhola. Entretanto, a Bolívia não dispunha de recursos para empreender a exploração e o assentamento nas terras acreanas, consideradas de difícil acesso e, por isso, eram até então consideradas como “terras não descobertas”.

A corrida pela borracha fez com que banqueiros e outros grupos poderosos, tão logo tomassem conhecimento das ricas e não exploradas terras bolivianas, empreendessem esforços para arregimentar braços com vistas à apropriação da região. Fato gerador de contendas acirradas, levadas a termo somente depois da Revolução Acreana, quando as terras, conquistadas pelos soldados-seringueiros de Plácido de Castro, foram compradas, via negociações diplomáticas, e incorporadas ao Brasil como território federativo, para o desagrado dos mandatários da borracha que pleiteavam a criação de um Estado autônomo.

A reivindicação dos autonomistas, segundo Francisco Pereira Costa (2005), centrava-se em dois aspectos fundamentais: econômico e político. O primeiro era respaldado no potencial que o Acre tinha de se auto-sustentar. Pelas cifras anuais, o Território contribuía para a nação com uma receita maior do que a de dezesseis Estados do Brasil juntos e apresentava elementos financeiros capazes de garantir seu desenvolvimento em um curto período de tempo.

O segundo argumento da luta pela autonomia era fundamentado na necessidade de uma base política de sustentação que fosse escolhida pelo povo. A inexistência dessa base caracterizava-se em uma exclusão no cenário nacional, que resultava do fato de os habitantes do Território do Acre não poderem usufruir dos direitos políticos amplos comuns aos habitantes dos Estados federativos (Costa, F., 2005).

Essas questões foram o “carro-chefe” da produção jornalística do Acre nas décadas iniciais de sua formação, mas dos embates travados nos jornais locais, o que teve mais duração e repercussão, tanto no âmbito local e regional, como no nacional, foi o que se deu em favor da autonomia acreana. Para seus defensores, libertar o Acre da administração direta do governo federal significava também livrar os acreanos da espoliação sobre o produto extrativista. Isso faria com que a tributação arrecadada retornasse em investimentos para o local. Além do que, na condição de Estado, o Acre elegeria seus representantes locais e teria voz no congresso nacional.



A crônica jornalística do Acre boliviano


A crônica, em sua hibridez, presta-se à escrita da memória individual e à escrita que se configura em uma forma de preservação da memória social, filtrada pelo tempo presente, ainda que sua matéria-prima se situe no passado e dele elabore o conteúdo histórico, transformado pela subjetividade do escritor. Não sendo mera casualidade a extrapolação do campo da história pelo cronista que, ao interpretar a memória coletiva, emite juízo de valor, comunicando ao mundo a sua mundividência, embora intencionando atender apenas as exigências circunstanciais de registrar os fatos.

A primeira crônica publicada em solo acreano data do período revolucionário, compreendido entre 1901 e 1904, e encontra-se em língua espanhola. Esse documento foi editado no jornal El Acre, veículo oficial de difusão das propostas bolivianas para com as terras do acre, litigadas por brasileiros e estrangeiros após a descoberta das múltiplas utilidades da borracha nativa.

A crônica do El Acre se enquadra entre aquelas em que se busca resgatar aspectos da memória histórica da formação do Acre, no período em que se deram as disputas que resultaram na incorporação do Acre ao Brasil. Como um registro dos momentos que antecederam à Revolução, essa crônica ajuda a compor o cenário da época. E a entender as razões que levaram os homens da imprensa a montar uma tipografia no meio da floresta, em um ambiente onde a maioria das pessoas não sabia ler e tampouco se esperava encontrá-las afeitas à leitura de jornais. Portanto, carece de uma leitura também dos fatos que motivaram a criação do periódico El Acre naquele ambiente rústico.

A história registra que a partir do último qüinqüênio do século XIX, o Congresso Nacional Boliviano passou a organizar sua administração com vistas “a ocupar seus territórios coloniais”. Após a insurreição, a qual culminou na expulsão do jornalista espanhol Luiz Galvez, do seu pretenso império sediado em Porto Acre (ou Puerto Allonso, como queriam os bolivianos), Dom Lino Romero, Delegado Nacional no Acre, instalou no ano de 1900 uma mesa coletora de renda na outrora “terra de Galvez”, Porto Acre.

De seu posto aduaneiro, às margens do rio Acre, a delegação boliviana ditava ordens aos habitantes do Acre e controlava toda a circulação de mercadorias, com o aval do governo brasileiro. Este, além de dar trânsito livre às navegações bolivianas nos rios da Amazônia e a instalação de aduaneiras em suas margens, eximiu-se de agir em prol dos muitos brasileiros que desbravavam a região à quase meio século.

Os altos impostos cobrados sobre a borracha revoltaram os seringalistas que se sentiram lesados, pois a tributação especificada pela Bolívia era muito acima dos valores cobrados pelo Brasil através do Estado do Pará, que também tinha interesse nas terras do Acre. Como se não bastasse o chamado imposto de capitação, sobre a importação de mercadorias, a Bolívia também cobrava imposto sobre a exportação de borracha, e caso não fossem pagos em espécie, os brasileiros eram obrigados a prestar dois dias de serviço público àquela nação, conforme registra João Craveiro Costa (1973).

A tirania sobre os “brasileiros do Acre” fez com que os seringalistas passassem a planejar um movimento de reação ao domínio boliviano. A suspeita de mais uma “insubordinação” fez com que a Bolívia enviasse tropas para o Acre, a fim de garantir sua soberania no local. Ao mesmo tempo em que a delegação boliviana dava demonstração de que reprimiria com violência qualquer ato de hostilidade, por parte dos brasileiros, ela demonstrava que precisava da adesão dos estrangeiros residentes nos povoados. Embora estes, a exemplo dos falantes de língua árabe, dedicavam-se mais às atividades comerciais do que ao trabalho extrativista.

Era também necessária a adesão dos não residentes no Acre, mas que tivessem interesse na “Questão”. Bem como era preciso encontrar um meio de sensibilizar os intelectuais da imprensa, e até mesmo angariar a simpatia de possíveis aliados brasileiros, principalmente, de Belém e Manaus, onde os jornais noticiavam os fatos com assiduidade e, não raro, com simpatia ao domínio boliviano.

A criação de um periódico oficial da delegação que veiculasse para o público alvo a “Questão do Acre” sob a ótica boliviana, e não somente sob a ótica dos “brasileiros do Acre”, era mais que oportuna: era um instrumento em defesa da soberania nacional daquele país.

Nesse contexto, em 1901, foram instaladas na aduana de Porto Acre as oficinas do jornal El Acre, com a finalidade de fazer chegar aos chefes da “insubordinação” acreana e aos interessados na “Questão do Acre” as deliberações da Bolívia sobre a região, na forma mais apropriada aos interesses daquele país.

O texto em discussão está localizado na terceira página, na coluna intitulada também de “Crônica”. E abaixo do título da coluna encontra-se a indicação do órgão que o jornal representa: a “Aduana Nacional Del Aquiry”. Antes mesmo de se iniciar o texto, localizam-se os anúncios sobre as últimas cotações da borracha no mercado, que variava de conforme a qualificação de cada produto .

Depois desse anúncio comercial, são informados ao leitor o nome do local e a data em que o texto foi escrito: “08 de outubro de 1901”. Em seguida, o cronista situa o espaço geográfico onde o jornal está instalado: no posto aduaneiro de Puerto Allonso (Porto Acre). Somente após as saudações e dos primeiros informes é feito o registro da data de edição do jornal: “20 de outubro de 1901”, indicando que os assuntos ali registrados referem-se a fatos ocorridos nas semanas, ou meses, que antecederam a publicação daquele periódico.

As saudações são seqüenciadas pela apresentação do programa político do governo boliviano, em consonância com sua finalidade do veículo. Sobre as intenções da Bolívia para com os acreanos, o cronista esclarece que:

Nuestra programa sencillo y patriótico, queda explicarlo en el prospecto – Servir unica y exclusivamente los bien entendidos intereses de la región acreana, hacerla conocer en el interior y exterior de la República: à la vez que familiarizar à los moradores del Acre¸ con nuestras costumbres nacionales; demostrarles la bondad de nuestras leyes é instituciones; y en una palabra: “bolivianizar el Acre” (Jornal El Acre. 20 de outubro de 1901, ano I).


O cronista se dá a conhecer ao leitor na primeira pessoa do plural, em um “nós” que não admite a manifestação da liberdade criadora, tampouco a reflexão particular sobre os fatos que registra por cumprimento do dever profissional. Nessa atitude subserviente ele prioriza os interesses políticos de sua nação, a Bolívia, sobre o território acreano. Área que, pelos marcos definidos no Tratado de Ayacucho, de 1867, pertencia àquele país, embora, jamais havia lhes pertencido de fato.

Esse escritor, consciente do distanciamento entre os habitantes e os donos, de direito, do Acre, propõe torná-los conhecidos uns aos outros, mas, preferencialmente, familiarizando os acreanos com os costumes da Bolívia. Essa referência explícita ao desconhecimento da soberania que aquele país deveria ter exercido sobre a região em litígio, demonstra que a Bolívia ainda não havia se dado a conhecer como proprietária legal do Acre. Muito embora aquela possessão já se estivesse habitada por milhares de brasileiros e estrangeiros desde o século XIX. Portanto, faz sentido se anunciar para os inquilinos e tentar convencê-los do seu “pátrio poder”.

Observa-se que há uma tentativa de coibir a reação dos revoltosos contra a ação boliviana, encarada como abusiva pelos “brasileiros do Acre”. Entretanto, a linguagem do cronista dá outra entonação ao texto, no sentido de “apaziguar” os ânimos dos exaltados. Afinado com a ideologia da conquista, que deveria ser disseminada a serviço de sua pátria, ele usa de palavras sedutoras nas promessas aos moradores do lugar, ou seja, “servir exclusivamente aos interesses da região acreana”, demonstrando-lhes a bondades de suas leis e instituições.

No jornal El Acre, o espaço destinado à crônica corresponde ao de uma seção informativa em que são publicados, semanalmente, os registros dos eventos diários, como: a movimentação fluvial, trazendo produtos de primeira necessidade, remédios e outros congêneres, bem como os membros da delegação boliviana, militares, médicos e outros servidores para prestar serviço na alfândega de Porto Acre.

Os feitos do governo boliviano no Acre são colocados em evidência, pelo escritor, como a construção de casas e outros imóveis, descritos sempre como sendo de primeira qualidade, a fim de acomodar os membros da delegação naquele espaço que, para o cronista, era considerado como um lugar aprazível para se viver:

Desde la llegada del Batallon 3º de Linea (…) se han aumentado más de 12 edificios bien construidos y llenos de la mayor comodidad, el aire que se respira és puro, por gran desmonte que en pocos días han verificado los soldados de esta guarnición, con el entusiasmo que se nota de dia en dia l .


Os fatos, considerados de maior importância são demarcados temporalmente e descritos com precisão: dia, mês, ano, local; com quem, para que e para quem. Observa-se, pela preocupação com o registro cronológico dos fatos, que o sentido atribuído à palavra “crônica”, no jornal El Acre, correspondia ao que era dado pelos cronistas régios, para os quais a datação em ordem seqüencial dos acontecimentos era de fundamental importância. Naquele tipo de registro, assim como na crônica desse jornal, o relato é “matéria memorável” que se presta à representação de uma época, é por isso um “lugar de memória” atravessado pelos fatos do cotidiano, onde se inscrevem o individual e o coletivo (Nora e Le Goff, 1993).

Outro aspecto que chama atenção, na crônica do El Acre, é a listagem da delegação boliviana, cujos membros são identificados de acordo com a função que cada uma deles exercia no contexto da disputa pelas terras do Acre. O cronista apresenta-os, nominalmente, sob a justificativa de que o público deve tomar conhecimento dos componentes do poder no exercício de suas funções constituídas, nas esferas militar e civil:

Delegado Nacional Teniente Coronel Manuel Canseco,
Secretario Doctor José M. Aponte.
Id. Tesorero don César Rivera.
Cirujano y Farmacéutico Julio Villanueva.
Auxiliar Néstor Leaño.
Intendente Teniente Coronel H. Ibanez.
Comisario Mayor don Claudio
(…)
1º Jefe del Batallon 3 de Línea Teniente Coronel H. Ibanez.
2º Id. Comandante Casimiro Miranda. (El Acre. 20 de outubro de 1901, ano I, n.º 01).


A listagem dos nomes é uma das muitas formas de preservação da memória sustentada na escrita, como um recurso que permite o registro da informação e sua transmissão através do tempo. Os fatos citados são dispostos obedecendo à cronologia dos acontecimentos, tal como era a finalidade de gênero nos seus primórdios: registrar os fatos e suas circunstâncias ordenando-os cronologicamente. Essa forma de marcação em muito se aproxima dos tratados de onomástica dos povos asiáticos, fundados na idéia de que, segundo Le Goff (2003), nomear é conhecer e registrar é um meio de permanência e continuidade na história.

A escolha e a ordenação dos assuntos, bem como o tratamento que lhes é dado pelo cronista, em muito se aproxima dos Annali Maximi , de Roma, no início da era cristã, onde os cronistas relatavam por escrito os feitos mais relevantes do ano. E dos Acta Diurna Populi Urbana , espécie de mural popular, afixados nos lugares públicos, que forneciam informações sobre assuntos de interesse do povo: nomeações, divórcios, vitórias na guerra. E outros fatos do cotidiano: vendas e locações, perda de objetos, jogos e espetáculos.
A memória coletiva, no texto em foco, sobrepõe-se à memória individual, uma vez que as experiências cotidianas não se referem ao sujeito da escrita, que se mantém no anonimato, mas aos outros agentes da comunidade boliviana instalada no Acre.

O jornalista comporta-se como alguém que não está autorizado a manifestar suas idéias, tampouco conduzir sua lente para os focos de seu interesse particular. Direciona o foco de sua atenção para ângulos previamente escolhidos a fim de dar visibilidade aos feitos e às intenções das forças dominantes, neste caso, o governo boliviano no Acre. Por conseguinte, não pode ater-se às miudezas do cotidiano das pessoas comuns, as quais, sequer, são mencionadas.

O jornal El Acre, cumprindo de sua missão de veículo oficial, disseminava a plataforma política da Bolívia, tornando-a ser reconhecida como soberana sobre aquela gente sem pátria. Entretanto, passada a fase das apresentações polidas, o jornal passou a publicar ameaças aos acreanos, por meio de um decreto de Dom Lino Romero, que “marcava o prazo improrrogável de seis meses, a contar de 1º de maio [de 1902], para o registro dos processos de medição e demarcação dos seringais. Quem o deixasse de fazer, findo aquele prazo, perderia os direitos de proprietários” (Costa, J., 1973, p. 58).

Esse fato motivou os seringalistas a reagir contra o governo boliviano. Pois se nenhuma medida fosse tomada, os brasileiros ficariam sem o direito de permanecer na terra, que seria devolvida à Bolívia para as negociações que lhe conviesse fazer com outros locatários, menos com os que haviam ocupado a área até então. Embora muitos seringais já estivessem demarcados e em processo de legitimação da posse pela expedição de títulos fornecidos pelo governo do Estado do Amazonas, Estado ao qual o Acre era geralmente citado como se fosse pertencente a ele. Entretanto, pelas normas recém-implantadas, haveria perda total dos investimentos feitos pelos desbravadores do Acre.



Xapuri no contexto revolucionário e do movimento autonomista


A cidade de Xapuri , situada na confluência dos rios Xapuri e Acre, teve importância relevante na história da formação do Acre, como sede dos melhores e mais produtivos seringais nativos da região. Ela serviu de cenário para as primeiras reuniões estratégicas nos levantes pela anexação do Acre ao Brasil, quer sob o domínio boliviano, que vigorou até a Revolução Acreana de 1902, quer sob o domínio brasileiro, depois de cessada a questão com a Bolívia.

Nesse contexto, além da importância nos planos econômico e cultural, Xapuri tem significação política, tanto para a anexação do Acre ao Brasil, como para a consolidação do movimento autonomista. Tal manifestação da vontade do povo teve sua expressão maior na eclosão dos sentimentos de insatisfação, dos seringalistas e comerciantes do Vale do Acre, com a administração autoritária e espoliadora do governo federal no Território.

O espírito de insatisfação, somado ao de inquietação, levou os mandatários dos Vales do Acre a reagiram à administração imposta pela União e a buscarem alternativas para superarem as crises, política e econômica, que se instauraram após a anexação do Acre ao Brasil e ao fim do monopólio brasileiro da borracha.

Os eventos que antecedem e os que sucedem a essa fase são representados nas crônicas de Xapuri do período histórico delimitado neste trabalho, ou seja, as duas primeiras décadas do século XX, contempladas nos jornais da cidade. Além desses eventos, as crônicas tratam também de fatos ocorridos no passado, durante os primeiros anos do desbravamento do Acre, ainda no século XIX. São, portanto, crônicas que resgatam, não somente a memória de Xapuri, mas também a memória da exploração e da conquista do Acre.

A cidade entrou para a história do Acre, não somente como um pólo econômico e cultural, também por ter sido a cidade onde teve início a Revolução Acreana. Os jornais comemoram com orgulho o fato de que naquele pequeno lugar “foram presas as primeiras autoridades bolivianas”, documenta o jornal O Acre de 06 de agosto, de 1907.

Xapuri era uma espécie de “cidade livre”, conforme salienta Leandro Tocantins (1979, vol., II). Isso porque, além da inexpressiva presença militar boliviana, no local, seus moradores mantiveram-se indiferentes à república de Galvez, preferindo acatar as decisões do governo brasileiro. Não obstante essa aparente indiferença, os fundadores de Xapuri já se encontravam empenhados na causa por um “Acre brasileiro” desde a primeira rebelião dos seringalistas no Acre, em 1899, quando se posicionaram contra a entrada de estrangeiros nos assuntos relativos à região em disputa.
Naquela ocasião, os seringalistas se organizaram em um bloco denominado “Comissão Garantidora dos direitos Brasileiros” contra as medidas impostas pelo espanhol Luíz Galvez Rodrigues de Arias, que havia se proclamado imperador do Estado Independente do Acre, sob o patrocínio do Estado do Amazonas e do Pará. O movimento de oposição ao governo de Galvez foi reprimido com a prisão dos membros dessa Comissão.

No período revolucionário, que vai de 1900, data da publicação do “Manifesto dos Chefes da Revolução Acreana ao venerando Presidente da República Brasileira, ao povo brasileiro e às praças do comércio de Manaus e do Pará”, a 1904, quando se deu a anexação do Acre ao Brasil, os mandatários xapurienses também já se faziam presentes, organizando-se contra o jugo da Bolívia e de seus aliados.

A delegação boliviana, ao perceber a ação dos brasileiros em seus territórios, passou a criar estratégias “aliciadoras” de brasileiros. Algumas delas, além da fundação do jornal El Acre, incluíam a criação de um conselho municipal, com membros escolhidos através de eleição, a descriminação de lotes de terras para brasileiros e a mudança do nome da cidade Xapuri para Mariscal Sucre.

Tais estratégias estavam em desenvolvimento quando, por meio dos jornais de Manaus, os seringalistas mais influentes do Alto Acre, Vitorino Maia, Antônio Antunes Alencar, Dr. Francisco Teixeira de Magalhães Filho e Antônio Gonzaga da Igreja , tomaram conhecimento de que o Acre seria arrendado a empresários ingleses e norte-americanos, mediante o Bolivian Syndicate. Por iniciativa do seringalista Antônio Antunes Alencar, o Conselho Municipal foi extinto, em julho de 1902, dando início a mais uma ação contrária ao domínio estrangeiro pelos representantes brasileiros do Alto Acre.

Apoiados pelo então governador do Estado do Amazonas, Silvério Néri, a quem também interessava o domínio sobre a região, os seringalistas e seus seringueiros receberam treinamento militar do Coronel José Plácido de Castro , para lutarem pela posse do Acre. E na madrugada de 06 de agosto, de 1902, Xapuri entrou para a história como a cidade onde teve início a Revolução Acreana . E foi eleita capital do Acre Meridional até 1903, ano em que, pela terceira vez, o Acre foi proclamado Estado Independente pelos mandatários do Alto Acre, os quais aclamaram Plácido de Castro chefe supremo das forças revolucionárias, cujas bases militares foram estabelecidas em Xapuri.

Dessa feita, a proclamação da independência do Acre tinha o aval do então presidente da República, Rodrigues Alves, e do Ministro do Exterior, Barão do Rio Branco. Ambos, por coincidência ou não, eram maçons, assim como muitos outros nomes de ilustres que participaram e deram suas contribuições para a formação do Acre.

Após sair da condição de capital do Acre Meridional, com a organização administrativa do Território pelo Decreto nº 5.188 de abril, de 1904, que dividiu o Acre em departamentos (Alto Acre, Alto Purus, Alto Juruá), Xapuri voltou à condição de povoado até 22 de agosto do mesmo ano. Data em que foi elevada à condição de vila, pelo prefeito do departamento do Alto Acre, Coronel Rafael Augusto da Cunha Matos, e teve como primeiro intendente, nomeado pelo governo federal, o coronel Gentil Noberto . Este havia sido ajudante de campo de Plácido de Castro na Revolução, mas acabou por se aliar às forças do exército brasileiro.

A instalação municipal se deu em 07 de março, de 1913 e teve por intendente, também por nomeação, o Sr. Silvino Coelho de Souza , fundador do jornal Alto Acre, veículo oficial dos interesses da Intendência e que foi extinto tão logo seu fundador saiu da posição de mando. Mas as primeiras eleições municipais aconteceram somente depois da unificação do Território, na intendência do seringalista José Soares. Em 1921, foram eleitos setes vogais para representar o povo xapuriense.

A formação do povo de Xapuri é bastante heterogênea: brasileiros, turcos, sírios e libaneses , portugueses, italianos, alemães e japoneses. Entre esses migrantes, os brasileiros figuram em primeiro lugar. Em segundo, os sírios e libaneses. Denominados quase sempre de “turcos”. E diferentes da maioria dos brasileiros, eles não se concentravam na extração do látex, e sim na atividade de comércio, regateando pelos rios em pequenas embarcações. Devido à facilidade com que seus pequenos barcos avançavam pelos rios, mesmo nos períodos de estiagem, os regatões serviam de elo permanente entre os habitantes das densas florestas e a civilização.

Não obstante sua importância, o comércio que praticavam era proibido pelos seringalistas, por ser concorrente com o das casas aviadoras. Já para os seringueiros, que se sentiam explorados pelos patrões, os “turcos” representavam uma alternativa na aquisição de bens de consumo em troca da borracha.

Além disso, eles integravam o pequeno rol dos que conheciam o saber letrado na região. Dado que se verifica, neste estudo, nos registros escritos, assinados ou aludidos a autores de origem ou falantes de língua árabe, habitantes ou passageiros em Xapuri.

(continua)





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