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Ensaios-->Da Europa medieval à Amazônia brasileira -- 03/06/2010 - 02:34 (ALZENIR M. A. RABELO MENDES) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Da Europa medieval à Amazônia brasileira
O PERCURSO DAS CRÔNICAS (Parte I)

Por:
Maria Alzenir Alves Rabelo Mendes
(Este trabalho é parte da minha dissertação de mestrado em Letras, Linguagem e Identidade, pela Universidade Federal do Acre,com o título: 'Marcas da memória cultural nas crônicas jornalísticas de Xapuri - 1907 a 1917', sob a orientação da Profª Drª Olinda Batista Assmar).


Origens e evolução: do registro à interpretação

A pesquisa com as crônicas exige que se faça antes de qualquer análise uma retrospectiva sobre o percurso desse gênero, de suas origens historiográficas à sua evolução para a literatura e para o jornalismo, resultando no hibridismo literário, próprio às modernas crônicas destinadas às colunas dos jornais. Nestes moldes, configuram-se as crônicas jornalísticas de Xapuri, do início do século XX, nas quais não se distinguem nitidamente os liames que separam o literário, do histórico, uma vez que, como um gênero híbrido, nele, mesclam-se traços dos gêneros historiográficos, criativos e jornalísticos.

Das modalidades dos gêneros jornalísticos, as crônicas de ensaio, as líricas e humorísticas são objetos de sondagem nesta pesquisa. Isso porque, principalmente, a crônica de ensaio possibilita múltiplos enfoques sobre os fatos de um dado tempo, tanto no plano da pretensa objetividade histórica, como no plano da subjetividade literária, das quais a imprensa tem feito uso, quer seja no intuito de informar, quer seja no de doutrinar.

A palavra crônica tem suas origens no grego e significa a personificação do tempo, ou “khronos”, que quer dizer “um tempo atrás”. Davi Arrigucci Júnior, no ensaio “Fragmentos sobre a crônica”, explica que o gênero “implica sempre, a noção de tempo, presente no próprio termo” e que esse vínculo de origem “faz dela uma forma do tempo e da memória, um meio de representação temporal dos eventos passados” (1987, p.51).

Filiada à noção de registro dos fatos ordenados em sucessão temporal, a crônica tende para os gêneros históricos, porém, não sendo propriamente história, é aberta às manifestações do espírito, mais próprias da escrita literária. E dessa união decorre seu hibridismo, não no sentido pejorativo, mas como reconhecimento das vicissitudes dessa forma de registro, focada no modo como o autor se relaciona com os eventos de uma época e nos sentidos que ele lhes atribui.

No entanto, a crônica, assim como a carta e o ensaio, dos quais preserva os traços narrativos e reflexivos, tem recebido o status de gênero menor, devido à indefinição de seus contornos, argumenta a crítica mais conservadora.

O preconceito estético, porém, não interfere na simpatia que lhe reserva o leitor que encontra em suas poucas linhas, lazer e conhecimento. Pois, no curto espaço de uma narrativa breve, reflexiva ou humorística, condensam-se as memórias escritas de sociedades e indivíduos, de origem nobre ou comum, em tempos diversos. É na configuração da crônica que, até mesmo, os fatos miúdos do cotidiano e os atos dos seres anônimos ganham importância, é também onde os seres que jamais foram contemplados nos grandes tratados de história podem ter foro equivalente aos das camadas privilegiadas.

Alguns estudiosos ocupam-se do gênero “crônica” como uma correspondência de teor informativo, cujo repertório prioriza o fato concreto, marcado em sua sucessão temporal. Nesta concepção, a crônica se estabeleceu em Portugal durante a Idade Média, ao tempo da escrita dos nobiliários.
No trânsito para a Idade Moderna, porém, com a difusão dos ideais humanistas, os assuntos, nela tratados, já não constavam de mera descrição ou narração objetiva dos eventos. Incluíam também a reflexão e o julgamento do autor, imprimindo no documento uma dualidade que o situou entre os liames da história e da literatura. A interpretação dos fatos, as inflexões do espírito evidenciam-se mais nitidamente nas crônicas que compõem a chamada literatura dos viajantes, produzida durante a expansão marítima.

Na história da Literatura Brasileira, a crônica surge como um gênero literário híbrido, desde os registros do “achamento” da nova terra às crônicas de costumes, publicadas nos jornais da era romântica (Coutinho, 1997). O surgimento da crônica moderna corresponde à fase da fundação da imprensa nacional, no final do século XIX, e coincide com o surgimento de uma literatura também de cunho nacional.

Nessa fase inicial, os redatores e colaboradores da imprensa exerciam dupla função, eram ao mesmo tempo escritores de gêneros informativos/opinativos e de gêneros opinativos/ criativos. Na primeira condição, informavam e opinavam sobre a realidade e, na segunda, opinavam e criavam, sugerindo outras realidades.
No patamar das obras histórico-literárias, situam-se as crônicas de costume do período romântico-realista, publicadas no suplemento dominical do jornal carioca do século XIX, o Correio Mercantil . As obras filiadas ao romance folhetinesco retratam a vida de pessoas populares e da pequena-burguesia carioca do primeiro e segundo reinado. Pormenorizam os tipos humanos, os modismos, as datas festivas, os valores, as normas, institucionais ou não, e fornecem um panorama sobre os modos de vida da sociedade brasileira nos seus momentos de constituição.
Retratam também as categorias profissionais, a forma de hierarquização dos grupos sociais, fazem enfim uma representação do Brasil do século XIX.

No final daquele século, a crônica já havia se consolidado como um gênero literário cultivado pelos escritores da imprensa periódica. O relato dos acontecimentos da vida coletiva ou do mundo particular do cronista ampliou seu universo. E conforme observa o estudioso do jornalismo brasileiro, José Marques de Melo, em Jornalismo e literatura: a sedução da palavra, a crônica passou do campo da história e da literatura para a esfera do jornalismo (Melo, 2002).

E como gênero que veicula e se alimenta do transitório, a crônica jornalística está sujeita à efemeridade, palavra que deriva de efêmero, de origem grega, e remete aos “efemérides”, primeiros relatos oficiais sobre os jogos olímpicos, as guerras e outros fatos da vida coletiva. Destarte, a crônica sobrevive à notícia, graças ao seu poder de transfiguração do real, sem se desprender dele. O hibridismo do gênero permite que o cronista, livre das normas do jornalismo, aborde os temas como convêm às divagações do próprio espírito, comunicando e documentando sem a pretensão de fazê-lo e sem a obrigatoriedade do método, construindo juízo de valor sem a “intenção” de doutrinar.

Na evolução da crônica, as nuances literárias são apresentadas sob a forma de comentário, ou de relato curto, sobre um episódio recortado de um tempo passado, não muito distante do tempo do relato, aproximando-se do conto pela apropriação dos elementos que o estruturam. Todavia, o evento narrado nela é quase sempre a experiência do cotidiano mais próximo ao escritor, configurando-se em uma segunda história, filtrada pela memória individual, conforme observa o historiador Jacques Le Goff (2003).

A escolha de um foro social, porém, não exclui a abordagem dos assuntos de foro íntimo, ou os fatos da lembrança particular do indivíduo. Nessa instância, encontram-se os elos entre a crônica jornalística, de tom político e ou humorístico, com a literatura de introspecção e de reflexão sobre os dilemas humanos em suas miudezas.

Nos jornais do Brasil, essa literatura teve seu status elevado, no percurso do século XIX ao XX, por Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector e muitos outros escritores consagrados, por meio dos quais o gênero cronístico moderno chegou ao público. E dada a sua flexibilidade, passou das páginas dos jornais às dos livros, consagrando-se como um gênero situado entre o literário e o jornalístico. Porém, jamais perdendo seu vínculo com o tempo, uma vez que, o sentido cronológico é pertinente ao termo, segundo adverte Arrigucci (1987).

A tipologia mais própria ao jornalismo tende para um estilo pautado na leveza e concisão, na escolha de conteúdos mais objetivos do que sugestivos. Entretanto, como o cronista é um intérprete do seu tempo, essas escolhas não o impedem de subjetivar a realidade e interferir nela, reconstruindo-a ou moldando-a ao seu próprio juízo. Às vezes, em tom austero, noutras, carregado de lirismo, ou com humor reflexivo.

A crônica jornalística no Brasil, afirma Afrânio Coutinho (1999, p.23), “exerceu sensível efeito sobre o progresso e o refinamento da vida social brasileira”. Para o estudioso, a crônica mantém uma relação mais direta entre o autor e o leitor, ao contrário dos chamados gêneros narrativos maiores, como a epopéia e o romance. De modo geral, ela se presta tanto ao registro dos fatos pitorescos da vida urbana, como das cenas anedóticas e até trágicas, porém tratadas com leveza.

Pesa contra a crônica dos jornais, a constatação de que, fora do contexto em que foi publicada, ela perde no quanto pode comunicar ao leitor de outra época. Este, não raro, encontra dificuldade em estabelecer relação entre os assuntos tratados no texto e os eventos históricos, ali aludidos. Ressalve-se que, quando o nível da narração e descrição objetiva é extrapolado, a crônica alcança o estatuto da arte e permanece no tempo, atualizando-se nas múltiplas possibilidades de leitura que a linguagem literária oferece. Essa particularidade do gênero requer que no estudo das crônicas se estabeleça o elo entre os fatos observados e os evocados pelo narrador, possíveis de serem localizados no tempo. Essa medida amplia o valor da crônica como documento e instrumento revelador da identidade cultural coletiva e lugar de memória social (Le Goff, 2003).


Primeiros cronistas na Amazônia


O surgimento da crônica na Amazônia remonta ao período em que a imprensa e, por conseqüência, os jornais não existiam na região. Remete ao século XVI, ao tempo da escrita das cartas dos viajantes e de outras narrativas memoriais dos europeus no Novo Mundo, salienta a pesquisadora Neide Gondim (1994). O teor desses relatos, assim como o da Literatura de Viagem do Quinhentismo, atendia quase sempre aos objetivos dos agentes financiadores da empreitada. De modo que, seus enfoques se concentraram ora nos aspectos geográficos, paisagísticos e climáticos do local, ora nos seres que o habitavam.

Pelo que se depreende das leituras sobre os registros escritos da e na região Amazônica, a crônica foi uma forma de documentação muito usada pelos primeiros exploradores, que imprimiram nos relatos de viagens uma visão subjetiva sobre a região e seus habitantes. Uma visão que corresponde mais ao imaginário europeu medieval, do que a um espaço habitado por humanos de diferentes complexidades culturais e por outros seres vivos comuns. Os europeus trouxeram consigo as noções de um inferno povoado de animais fantásticos, ou de um paraíso edênico de rios abundantes e riquezas infinitas, onde a humanidade encontraria refrigério para seus males (Gondim, 1994).

O historiador Márcio Souza (1994) chama a atenção para as crônicas dos séculos da conquista da Amazônia. Segundo ele, a literatura desse período pode ser chamada de impressionista, por não distinguir o relatado do observado e por se construir, quase sempre, numa louvação desenfreada da natureza, descrita como exuberante e utilitária, abrindo as portas à sua exploração econômica.

As crônicas, às quais se refere Márcio Souza, distanciam-se na temática e na representação do lugar, das que servem de objeto para este estudo, ou seja, as crônicas jornalísticas de Xapuri. Nestas, a tônica recai sobre o tempo do desbravamento e da conquista do Acre. E alcança o cotidiano das sedes dos seringais acreanos, onde os homens das letras são partícipes, observadores e intérpretes das idéias de uma pequena elite “endinheirada” pela borracha, ou dos grupos militarizados imbuídos da administração pública do local.

Enquanto os cronistas brasileiros, do período da conquista do Acre, concentravam-se na reflexão dos fatos em uma ambientação verossímil ao momento e ao espaço da escrita, os cronistas estrangeiros, da conquista da Amazônia, extasiavam-se com a descrição extraordinária da paisagem, entremeando o registro dos fatos reais com os imaginários.

E foi por meio dessa memória escrita que chegou ao chamado mundo civilizado o conhecimento de havia um universo inexplorado de riquezas inesgotáveis. Fato que moveu investidores para feitos desmedidos na tentativa de alcançar também os tesouros “ocultos”, relatados nas lendas do Hombre Dorado e das amazonas . Não foram poucos os que se aventuraram em encontrar a “cidade do homem que se banhava em ouro. Nem mesmo os relatos sobre as tragédias da “caça” ao ouro impediram que inúmeras expedições fossem realizadas.

A expedição de Gonzalo Pizarro, em 1540, que singrou o Dulce Mar em 1542 e batizou o grande rio de “Amazonas”, por analogia às lendárias guerreiras gregas , não objetivava somente romper o monopólio português das especiarias, visava também encontrar o ambicionado reino do El Dorado (Souza, M, 1994). O cronista dessa empresa, frei Gaspar de Carvajal, com sua narrativa fantasiosa, influenciou muitos outros, até mesmo os expedicionários cientistas.

O pesquisador francês Charles de La Condamine, em sua “Breve Narrativa das Viagens através do Interior na América do Sul”, publicada em 1745, relatou o resultado de seus estudos como quem escreveu sob inspiração e não como o apanhado da observação direta. Sua narrativa,assim como as de outros viajantes, revela o deslumbramento do pesquisador com a natureza, fascinante e ao mesmo tempo atemorizante, frisa Mary Louise Pratt (1999).

A expressão desses sentimentos dependia do ângulo para onde devia se mover o foco do cronista, posto que, era orientado por sua formação religiosa e pelas determinações dos fomentadores da expedição . O relato podia assim tender para a intensificação dos conceitos bíblicos, sobre inferno e paraíso, ou para a exacerbação das riquezas da região.

Condamine, mesmo nos moldes das crônicas “maravilhosas” dos jesuítas, inaugurou a era das narrativas de viagens científicas na Amazônia, propagando o conhecimento sobre a geografia local, os costumes dos nativos e as doenças tropicais. A notoriedade desse cientista viajante deu-se com os estudos sobre a borracha da hevea brasiliensis, a seringueira, árvore originária da Bacia Amazônica, de onde é extraído o látex. Seu interesse pelo assunto foi despertado durante a convivência com os índios, circunstância em que pode observar que eles confeccionavam utensílios para uso doméstico com a resina extraída dessa árvore.

A notícia sobre o produto despertou o interesse da comunidade científica. E após a descoberta de sua vulcanização, pelos ingleses e americanos , a borracha passou a ser usada em escala industrial. Por meio da técnica, a goma elástica foi aperfeiçoada, multiplicando as aplicações do látex que, ainda no século XIX, tornou-se um produto de largo uso comercial.

A demanda da borracha, se por um lado ofuscou a busca pela lendária cidade de ouro, por outro, ocasionou a chamada corrida pelo “ouro negro” da Amazônia, produto impulsionador do desenvolvimento tecnológico mundial e um dos sustentáculos da economia brasileira até as duas primeiras décadas do século XX.

(continua)


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