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Ensaios-->Os jornais em Xapuri (Acre) no século XX -- 27/10/2007 - 11:47 (ALZENIR M. A. RABELO MENDES) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Os jornais em Xapuri(Acre)no século XX

Maria Alzenir Alves Rabelo Mendes

1 - Introdução

Esse trabalho visa traçar o percurso da formação da sociedade xapuriense através dos jornais que circularam na cidade de Xapuri, estado do Acre, no século XX, e averiguar as temáticas predominantes na imprensa local bem como sua relação com o tempo e o meio. Em uma primeira análise, já é possível afirmar que a sociedade em questão é formada não somente por brasileiros nordestinos, como também por sírios, libaneses, turcos, portugueses e italianos. E que estes deram suas contribuições culturais, podendo aquela população ser considerada pacífica, conservadora, de elevado religioso e moral. Quanto à efervescência das atitudes artísticas e literárias, o auge ultrapassou o primeiro declínio do ciclo da borracha iniciado em 1910. Apesar da crise, a produção textual não diminuiu logo, tendo acontecido na fase posterior à unificação do Território, em 1920, quando houve a retirada de muitas pessoas que prestavam serviços no Acre, havendo, como conseqüência, uma mudança no quadro populacional e um declino, em relação ao nível intelectual.

2 - A fundação dos jornais

A fundação de jornais em Xapuri iniciou-se ainda na época em que a cidade não dispunha de nenhum outro meio de comunicação além de cartas, bilhetes ou recados que eram confiados aos comandantes dos navios cargueiros, aos regatões, comboeiros ou aos membros da antiga Guarda Nacional. Estes últimos só exerciam a função de carteiros quando a mensagem dizia respeito à comunicação oficial, isto é, entre aqueles que ocupavam postos na administração política do local, sendo que, na maioria dos casos, tais postos eram ocupados por militares em destacamento. O Major Cícero Mota, a título de exemplificação, foi o encarregado pela correspondência no local até o ano de1911, quando passou suas atribuições à esposa, Sr.ª Vicença Mota, por ocasião da instalação da Agência do Correio em Xapuri.
A circulação do primeiro jornal em Xapuri, o El Acre, instalado na aduaneira de Porto Acre, em 1901 pelo governo boliviano, deu-se quando a cidade, sob o domínio boliviano, ainda se chamava Mariscal Sucre, antes da Revolução Acreana. No entanto, nos acervos consultados, constam apenas os jornais que circularam a partir da gestão do Coronel Plácido de Castro, Prefeito do Departamento do Alto Acre e líder da Revolução, que teve início em Xapuri, em 1902, e terminou em Puerto Alonso (Porto Acre), em 1903.
Em 1907, surgiu o jornal O Acre e teve por redatores o Tenente-Coronel Francisco Conde e Justo Gonçalves da Justa. 1909 suas edições foram interrompidas, tendo reaparecido após um intervalo de quase quatro anos, em 1913, ano em que se deu a instalação do Município de Xapuri na Intendência do Sr. Silvino Coelho, quando o Território do Acre já sofria as conseqüências da primeira grande crise do ciclo da borracha que se acentuou em 1912, em função da concorrência dos seringais ingleses, de cultivo na África, América Central e Malásia, tirando o Acre da condição de maior produtor de borracha da Amazônia.
Concomitante ao surgimento do jornal O Acre circulou também o jornal Acreano (1907 a 1910), fundado pelo Coronel Antônio Antunes de Alencar, Prefeito do Departamento do Alto Acre e um dos fundadores da cidade. O semanário era impresso sob a direção do médico Joaquim da Cunha Fontenele. Em seguida, veio O Correio do Acre (1910 a 1913), inicialmente dirigido pelo Coronel Manuel Leitão, depois pelo Juiz de Direito Bruno Barbosa e, finalmente, pelo Tenente-Coronel Francisco Conde, redator de O Acre.
O surgimento dos primeiros jornais coincide com a instalação da primeira loja maçônica na cidade, a Loja Acre (1907) e a Loja Acreana em 1913. A Maçonaria e o comércio local, tendo à frente e os seringalistas foram os patrocinadores da imprensa local.
Em Xapuri, o afloramento da imprensa deu-se juntamente, e pode-se dizer em função dos gloriosos tempos propiciados pelo grande volume da produção extrativista. Os jornais da época dão conta de noticiar a saída de até 20 navios cargueiros, lotados, do porto de Xapuri em um só mês (O Acreano, 04 de setembro de 1908. p. 1).
Esses navios subiam o Rio Acre para deixarem mercadorias, mantimentos, roupas, calçados e munições, e retornavam às metrópoles Manaus, Belém e Rio de Janeiro, carregados de peles, castanha, e principalmente, pelas preciosas bolas de borracha, produzidas nas brenhas da floresta pelos “brabos” nordestinos que migravam para o Acre em razão do flagelo causados pelas secas em sua região de origem. Os vapores eram também o meio de transporte, tanto para os “brabos”, que vinham em terceira classe, junto aos amontoados de cargas e muares, como para os seringalistas, comerciantes, políticos militares e artistas.
Embora Xapuri estivesse isolada, geograficamente, na selva amazônica, lá aportavam companhias de teatro nacionais e internacionais para se apresentarem no Teatro Variedade, onde eram representadas peças teatrais e concertos. Estes se davam sob a regência de maestros e pianistas, que pelo nome deviam ser estrangeiros, como por exemplo, o Professor Reffoli, as pianistas Emma Biari, Mile, Gerechter, que tocavam “Verdi a quatro mãos” (Jornal Acreano, 03 de maio de 1909). E pessoas que propiciavam shows musicais como a cantora Rosita de la Plata, para uma platéia que vestia “tailleur de cachimir e teissor” (Jornal Acreano, 04 de janeiro de 1908. p. 1; Jornal Correio do Acre, 1910; Jornal O Acre, 27 de março de 1913).
No entanto, essas manifestações de cultura e luxo não condiziam com o quadro que a cidade apresentava: ruas sem calçadas e sem escoamento; precário serviço de iluminação à base de lampiões a querosene; falta de escolas e hospitais; ausência de meios de comunicação e transportes em que não fosse necessário o esforço de homens e animais para realizá-los, tal como se dava no uso de canoas a remo e carroças puxadas a boi. Esse paradoxo é expresso por Manoel Gouveia:
Xapuri, essa grande parte do rio Acre, ainda no embryão... embora falte-lhe ainda a movimentação confortável, essas grandes regalias que transformam a choupana em palácio... A juventude revestida de maior eloquência promove festas carnavalescas, convocam reuniões para a fundação de um theatro, procurando assim, todos os meios para desenvolver a macha evolutiva, elevando o Xapuri ao conjunto das grandes cidades em nada falta para o refocilamento do espírito. (O Poder Social. O Acreano, 23 de fevereiro de 1908, p. 2)

O fragmento, que trata da falta de conforto e do empenho dos jovens em nivelar Xapuri a outras cidades culturalmente desenvolvidas, é o reflexo das aspirações maiores da população de modo geral.
Desde 1904, data da fundação da Vila de Xapuri, até 1913 quando foi elevada a categoria de município, a cidade não havia recebido urbanização a não ser a que foi traçada pelo engenheiro Gastão da Cunha Lobão e Aquiles Peret, que dividiram a zona urbana em quarteirões, com ruas largas e alinhadas, sendo a mais importante delas, a rua Coronel Brandão, cujo nome é uma homenagem a um de seus primeiros habitantes quando Xapuri ainda pertencia aos territórios bolivianos.
O jornal O Acre de 23 de março de 1913 p. 2, no artigo A Vida Municipal, assinado por Antônio Pardo, revela o estado lastimável em que se encontrava o lugar, com ruas sem calçadas, e sem escoamento para as águas, e sem saneamento básico. Ainda que, nessa fase, Xapuri possuísse o maior centro comercial e populacional do Departamento do Alto Acre, e contribuísse com a atividade extrativista para que o Território do Acre se mantivesse na condição de terceiro maior contribuinte tributário da União, pagando o mais alto imposto cobrado no país até então (37,5%).
Em 1913, o jornal O Correio do Acre cessou sua produção em 1º de junho do mesmo ano. E teve seu espaço preenchido pelo Alto Acre, que começou a ser impresso quinze dias depois, nas oficinas que imprimiam o jornal extinto. O Alto Acre circulou até março de 1914, fase em que o Território já sentia os efeitos do declínio do Ciclo da Borracha. Mesmo assim, na área urbana de Xapuri, podia se perceber melhorias como iluminação elétrica, o telégrafo, a agência de correios e a construção das escolas José de Alencar e Afonso Pena. Além disso, já possuía um centro operário, associação comercial coletoria federal, um templo católico e a sede da Comarca do Alto Acre.
A Fundação do Alto Acre deu-se logo em seguida à instauração do município, em 21 de maio de 1913, após a segunda reorganização do Território (1912) no governo do Marechal Hermes da Fonseca. Com a Reforma, Xapuri teve seu primeiro Conselho Municipal composto por sete Vogais na intendência do Sr. Silvino Coelho de Souza. Esses cidadãos eram nomeados diretamente pelo presidente da República, para legislarem e decidirem sobre os destinos políticos e econômicos dos departamentos.
Os representantes do povo, como muitos outros que compunham a população urbana, não somente em Xapuri, também na maioria dos municípios acreanos, eram pessoas vindas de outros Estados da Federação brasileira. No caso específico eram militares a serviço do Governo Federal.
A população urbana era formada também de aventureiros, homens de negócios, seringalistas e regatões, todos atraídos pela excentricidade da selva ou pelas riquezas que poderiam adquirir explorando-a. Mesmo que para isso milhares de vidas fossem dizimadas pelas doenças ou pelas feras. Sendo que as principais vítimas eram os nordestinos-seringueiros3, morando nas brenhas em casebres de pau a pique, alheios às novidades que aconteciam às margens dos rios.
Uma dessas novidades eram os jornais que, desde a redação, impressão e distribuição, só eram de conhecimento daquelas que formavam as elites, fossem de natureza econômica, política ou cultural.
Os redatores e colaboradores não só do Alto Acre como dos demais jornais, quando não eram militares, eram advogados, como o Dr. Antônio Carneiro Meira, o Juiz Bruno Barbosa; ou, pessoas ligadas ao comércio (Peret. O Acreano). Estes em maioria eram cearenses, turcos, sírios ou libaneses (Chagury, Abdalan e Chaul, colaboradores do jornal Alto Acre; Baxir Chaul, do jornal Commercio do Acre), contribuindo com contos, crônicas e artigos. Ainda os portugueses com crônicas humorísticas, e os religiosos como o Pe. Joaquim Franklin Gondim que substituiu o Pe. Benedito Lima, primeiro pároco designado para servir no local (Jornal Alto Acre, 06 de fevereiro de 1913; Alto Acre 31 de agosto de 1913).
O surgimento do Alto Acre ocorreu simultaneamente ao da elevação de Xapuri a Município. As mudanças ocorridas em função das reformas política, administrativa e econômica, serviram de tema para a prosa veiculada neste jornal, que criticou severamente a falta de compromisso de alguns comerciantes locais para com o crescimento e a melhoria do Município.
As crônicas intituladas Fitas, de K. Listo, abordam o assunto chamando de “fiteiros” os que se diziam autonomistas (pessoas que reivindicavam a autonomia do Território do Acre), mas que se recusavam a pagar os devidos impostos, necessários para o desenvolvimento local. (Alto Acre, 24 de julho de 1913).
O Alto Acre também reflete as mudanças ocorridas com o fim do monopólio da Borracha que alterou as relações internas nos seringais. Após a entrada da borracha inglesa no mercado internacional, a borracha do Brasil sofreu queda drástica nos preços; os créditos nos bancos e nas casas aviadoras também diminuíram, forçando os seringalistas a tolerarem a presença dos regatões turcos, sírios e libaneses em seus portos, uma vez que se encontravam sem mantimento para os homens do “corte” (ou da extração do látex).
A agricultura que antes era expressamente proibida, (para não atrapalhar a produção de borracha), passou a ser incentivada. É para este aspecto que chamamos atenção no jornal Alto Acre nas séries de artigos “Pela Agricultura – Palestra com os nossos lavradores”, assinadas pelas iniciais A.P.
Esses artigos tinham por objetivo instruir os agricultores sobre os procedimentos legais e técnicos para o uso do solo, sobre os tipos de adubos, sobre as queimadas, bem com servir de incentivo para que a agricultura no Acre não fosse depreciada.
Em 1914, o Alto Acre saiu de circulação e no ano seguinte (11 de junho de 1915) surgiu o semanário Commercio do Acre sob a direção dos senhores Romeu e Rubens Taumaturgo, este último era Vogal eleito do Conselho Municipal, em 1921. O periódico contava com a ajuda dos seguintes colaboradores: Pe. Gondim, Dr. Antônio Meira (bacharel em Direito), Dr. Bruno Barbosa (Juiz de Direito), Major Cícero Mota, Stellio Amics e o Capitão Baxir Chaul. Todos com experiência no exercício do jornalismo.
De 1915 a 1922, tempo em que circulou o Commercio do Acre, o mundo “civilizado” vivia sob a tribulação causada pela Primeira Guerra Mundial. Na Amazônia, particularmente no Acre, ocorriam outros tipos de dificuldades geradas pelo desinteresse do capital internacional na produção gumífera da Região, sob a alegação de que a borracha produzida nos seringais de cultivo na África e na Ásia representava menos custos do que a do Brasil, devido à distância e a dificuldade de acesso aos seringais nativos.
Apesar disso, a cidade de Xapuri ainda vivenciava bons momentos, mesmo já havendo o esvaziamento de alguns setores políticos e econômicos. Muitos seringueiros estavam abandonando as colocações (lugar onde morava o seringueiro) em busca das margens dos rios ou tentando voltar à terra natal.
De 1915 a 1918, houve melhorias na zona urbana: a cidade recebeu mais uma escola, um matadouro, a fonte de água, além de possuir o maior centro comercial da região, chegando ao total de quarenta e quatro casas comerciais. Sendo a maior delas a da firma Belchior Gallo, A Limitada, uma das mais importantes casas aviadoras da região, com frota própria, navios para a época de chuvas e lanchas para o período de estiagem, quando os rios não permitiam a passagem dos navios de grande porte.
O jornal Commercio do Acre, como representante cultural dessa sociedade (que era mantida pelo comércio que mantinha também o Jornal) explora os assuntos de modo mais aprofundado, integrando-se aos problemas diários, informando, denunciando, e dando sugestões para solucionar, principalmente, os que diziam respeito à crise da economia extrativista, externa e interna.
O exemplar de 03 de janeiro de 1915 demonstra a preocupação com a queda na exportação e com o extermínio dos seringais:
As estatísticas de saídas da borracha dos portos brasileiros demonstram... que a nossa exportação... diminue inquietadoramente... por mais que eu procure não acho em que bases se assenta o nosso futuro.” E com as possíveis conseqüências da ação, ou melhor, da falta de ação do governo, no sentido de encontrar soluções para o problema:“...ainda esperamos de uma natureza cansada que só produz aleijões como os decretos do governo, para assim deixarmos se aniquilar a única indústria que nos sustém... Gama, Farias. Acreanadas)

E já nesta época divulgava-se o que o autor do artigo chama de um projeto absurdo e fora de todas as humanas leis dos seres: “a idéia da plantação de seringueiras em campos”. E sugere: “o que se deve é estudar um meio de plantá-los nas florestas”
O trecho que segue demonstra outros problemas, além da queda do preço e da procura pela borracha:
Os nossos seringais mais novos, já estão com leite por tal forma aguado que a quebra é uma das calamidades latentes; pelos 50 quilos quebram 15 quilos ou mais. Os seringueiros em quem à luz da experiência haviam verificado que uma lata das que vêm com 2 Kilos de banha, cheia de leite, o mesmo defumado pesava em média 1300 gramas, hoje, segundo eles dizem, pesa 700 gr, quase 50% da quebra (Gama, Farias. Acreanadas. Pela Borracha).

O autor fecha o texto profetizando sobre o futuro, diz que se não for feita alguma coisa, em dez anos haverá extinção da espécie. A crise com a borracha vai se agravando, e se alastrando para outras áreas, visto que todas dependiam da produção do látex: “... foram suprimidas as escolas por falta de verba da prefeitura... começaram chegar esta semana os vapores, nada mais trazendo, pois a demora da viagem consumiu tudo” (Xisto Chico. Bagatelas. In: Commercio do Acre, 14 de janeiro de 1917, p.2).
De fato, o leito do rio Acre que banha Xapuri foi sendo aterrado ao longo dos anos.E o projeto de desobstrução dos rios, elaborado no governo de Afonso Pena, foi engavetado. Há também referência aos presídios do Departamento, como sendo um “acanhado quarto para mais de quarenta presos”; de crimes, de muitos réus e poucos advogados e das mudanças nos hábitos da população de Xapuri.
O jornal, fundado sob os auspícios da Primeira Guerra Mundial, parece ter a intenção de exaltar a Alemanha e a guerra: “A Alemanha tanto por sua população, como por seus conhecimentos sólidos, é a mãe do resto da Europa... que pereçam todos os inimigos do povo Alemão...” (Guilherme II).
No artigo “Pátria”, de autoria de Celso Afonso, a guerra não é de todo maléfica: “...Um dos possíveis benefícios da guerra atual tem sido o fortalecimento da idéia de pátria” (Commercio do Acre, 20 fevereiro de 1916, p.1), sentimento esse que, segundo o reitera várias vezes o jornal, não havia no Acre. Muitos são os artigos em que a falta de patriotismo é motivo para a escrita dos escritores: “Infelizmente o que se observa no Brasil é que as coisas da pátria afiguram-se estranhas aos brasileiros” (Simões, Castella, 11 de junho de1916, p.4)
O descaso do governo brasileiro para com os problemas enfrentados pelo Acre, e desabafam: “A guerra é uma calamidade ... Porém de todas calamidades a única que deixa o ambiente expurgado... do desleixo moral... da incúria governamentais... é o que nós precisamos de uma longa é penosa guerra” (Gama, Farias. Acreanadas - A propósito da guerra. Commercio do Acre, 25 de junho de 1916).
Nos anos seguintes surgiram outros periódicos como: o Gazeta do Acre (1917), da firma Taumaturgo & Cia, A Coisa, jornalzinho humorístico, Talisman (1919), de um grupo de senhoras. O Sporte (1921), A Ordem (1926). Boletim Oficial (1932) e Gazetilhas Xapuriense (1937). Ainda O Paladino, jornalzinho literário (1913 a 1915) e Fitas (1919).
Esses jornais desapareceram, sendo encontrados somente alguns exemplares dos periódicos que surgiram depois da Segunda Guerra Mundial, como o Oeste (1949-1957), O Ipiranga (1961-1962) e O Bandeirantes (1984).
Da época em que cessou a impressão do último jornal encontrado, O Commercio do Acre (1917), surgimento do Oeste, Xapuri passou por diversas mudanças que só foram benéficas para os que já tinham cargos com salários razoáveis no governo ou para aqueles que, tendo representatividade popular, assumiram postos na política local como prefeitos ou vereadores.
A evolução política do Território e do Município é fruto dos empenhos por parte dos grupos defensores do poder econômico e cultural que, sentindo-se explorados pelos altos impostos cobrados pela União, iniciaram desde 1907, o Movimento Autonomista do Acre, o que provocou a reação do Governo Federal, unificando o Território em 1920, enfraquecendo, com essa medida o poder dos líderes departamentais, que naquele momento deviam se submeter às determinações do governo geral sediado em Rio Branco.
As mudanças efetuadas refletiram de modo negativo nos municípios, uma vez que os investimentos das verbas destinadas ao Acre se centravam na Capital, fazendo com que houvesse maior fluxo de pessoas oriundas dos municípios em busca de melhoria de vida em Rio Branco. Por outro lado, o fim do “regime prefeitural”, que unificou o Território no governo de Epitácio Pessoa, trouxe benefícios quanto a dar ao povo acreano o direito de escolher seus representantes municipais. Nessa primeira eleição, em 1921, foram eleitos dois redatores do extinto jornal Commercio do Acre, Rubens Taumaturgo e Antônio Carneiro Meira.
Os reflexos negativos da centralização do governo do Território atingiram a cidade de Xapuri. Pois, conforme se pode observar na entrevista da Irmã Serva de Maria Reparadora, Alfreda Patrini, concedida à pesquisadora do CNPq, Suzy Andréia, o quadro geral da cidade, em 1928, era de miséria. Segundo a freira, este foi o principal motivo pelo qual ela veio designada para servir no Colégio recém - fundado, Divina Providência.
Irmã Alfreda disse que queria servir em um lugar onde houvesse maior necessidade e a mandaram para Xapuri, onde já se encontravam outros religiosos como o Pe. Felipe Galerani, Diretor do colégio, irmã Mercedes, Ester Bressan e a Madre Priscilliana Bellon.
Esse grupo de Católicos europeus eram os promotores de eventos culturais, a partir de então, como representações de peças teatrais, manutenção de jornais de curta duração e agremiações estudantis. Além de propiciarem no colégio Divina Providência, aulas de piano, canto e balé, ministrados pela professora e maestrina, Elaís Meira Eluan.
Ainda segundo o depoimento da irmã Alfreda, pelos idos de 1947 a 1949, quando a indústria gumífera da Amazônia tomava novo impulso em função da Segunda Guerra Mundial, havia muita pobreza em Xapuri, impondo às freiras, sob a direção de D. Júlio Mattiloli, então bispo da Prelazia Acre e Purus, fazer campanha de arrecadação de donativos junto aos seus familiares que ficaram na Europa. Assim, vinham roupas, remédios e alimentos, que eram distribuídos pela igreja à comunidade local.
No momento em que entra no cenário local o jornal O Oeste, em 1949 – 1957, patrocinado pela prefeitura local na gestão de Minervino Bastos, o município recebeu alguns benefícios como: construção da escola Plácido de Castro e escolas rurais; instalação do Banco de Crédito da Amazônia; aquisição de máquinas e a compra do primeiro carro motorizado, bem como a construção da casa das estação de rádio, do posto policial, do campo de futebol e do posto de puericultura. Ainda o término do Mercado Municipal, construção de ramais, a fundação do Rotary Club, patrocinador do próximo jornal desse estudo, O Ipiranga.
No setor de saúde, porém, segundo o jornal, a situação era precária. O único hospital da cidade, o Epaminondas Jácome, aos cuidados das irmãs servas de Maria, (irmã Priscila, irmã Bernadina) encontrava-se sem medicamentos, carecendo de reformas e com seringueiros batendo constantemente à porta.
O jornal Ipiranga Acreano começou a circular em 1961 e desapareceu em 1962, ano em que o Acre foi elevado a Estado pela lei nº 4.070, através do projeto apresentado pelo então Deputado Federal José Guiomard dos Santos, do PSD, Partido Social Democrático Acreano.
Segundo artigo publicado pelo jornal em 1961 por ocasião das festividades do 57° aniversário da elevação de Xapuri à cidade, a população urbana do município era composta por “2.000 almas e 13.000 por todo o Município”.
Observa-se que, em termos numéricos, houve crescimento populacional, visto que em 1902, o povoado possuía apenas 150 habitantes, seis casas e vinte duas barracas. Mas, no que se referia ao padrão de vida e nível cultural, o fracasso era notório, facilmente deduzido até pelo fato de não ter produção textual representativa nas fases posteriores.
Em 1984, numa coincidência que não surtiu os mesmos resultados, a Maçonaria (patrocinadora dos primeiros jornais de Xapuri), voltou a imprimir em sua gráfica outro jornal O Bandeirante, circulando de julho a outubro, e desaparecendo no mesmo ano de sua fundação.
Desta vez, os números já não eram semanais, nem quinzenais, apenas circulavam uma vez por mês e eram distribuídos gratuitamente para as poucas pessoas que destinavam algum tempo para a leitura.
Em entrevistas recentes realizadas pelo projeto de pesquisa Amazônia: os vários olhares, a maioria das informantes revelou não ter conhecimento da existência desses jornais, os mesmos dizem que não tinham o hábito de leitura.
Também merecem consideração os anos que separam a atualidade da época em que Xapuri vivenciou seu auge econômico e cultural. Ao longo do tempo, todas as mudanças ocorridas na sociedade são refletidas na qualidade da produção textual, que foi perdendo em quantidade e qualidade, à medida que o Acre se esvaziava de intelectuais com o fim do ciclo extrativista.
Pois, aquelas que vinham para trabalhar na sede dos seringais possuíam, no mínimo, o curso secundário. E aquelas que vinham a serviço do governo, quase todos, quando não eram militares eram advogados, médicos e professores. Não esquecendo a presença dos religiosos católicos que muito contribuíram para a disseminação da cultura.
Quanto à segunda leva de migrantes que veio para o Acre, na década de 70, não se pode dizer que era formada por elementos que tivessem aptidões artísticas ou formação intelectual, pelo menos isto é o que se percebe pelo fato de já decorridos 27 anos desde que o governador Wanderley Dantas abriu as portas do Acre para os sulistas, estes quase não deram contribuições nesse sentido.

3 - A Prosa Jornalística

De modo geral, o jornalismo visa à informação, mas no que se refere ao texto específico para jornal, este visa a informação imediata e trabalha com a pesquisa sobre a realidade numa perspectiva de consumo rápido, dando primazia aos conteúdos sem grande variedade de forma.
Quanto ao texto literário, seja ele veiculado em jornais ou não, o que se observa é o privilégio dado ao efeito estético, sugerindo mais que informando. No entanto, nem a liberdade da criação na literatura, nem a restrição do texto jornalístico trabalham com as formas congeladas da comunicação comercial. Forma e linguagem diferem um texto do outro, mas a diferença maior fica por conta da linguagem, se a do jornalismo precisa ser atualizada, e objetiva, a da literatura permite arcaísmos, estrangeirismos e neologismos, que garantem maior expressividade aos valores transmitidos por ela.
Nilson Lage, em A Linguagem Jornalística, define-a como sendo a conciliação entre comunicação eficiente e comunicação de aceitação social, composta de combinação de regras, possíveis no registro coloquial e aceitas no registro formal. Já a literatura na definição de Alceu Amoroso Lima é a expressão do homem e da vida. Nela, o mais interessante não é o que se diz, mas o modo como se diz.
Não devendo esquecer que tanto o jornalismo quanto a literatura dispõem de restrições quando se faz necessário uma classificação dos gêneros e das espécies. Assim, nos textos de caráter puramente informativo, ou do gênero literário jornalístico, têm-se artigos, notas, lembretes, cartas, anúncios e homenagens. E nos textos de natureza literária, o conto, a crônica e a prosa poética e ainda, no gênero satírico, a anedota e a piada.
Sabe-se que a função do jornalismo tem caráter predominante informativo. Nilson Lage corrobora essa afirmação quando discorre sobre a retórica do jornalismo, definindo-a como uma em que os fatores mais importantes são a elevada taxa de informação, de identificação ou de empatia que ocorrem em notícias sobre pessoas importantes, que correspondem a estereótipos sociais, ou que se articulem em torno daquelas que estejam de acordo com as aspirações coletivas.
Diz ainda que o sistema de comunicação de massa montado no Ocidente, ao utilizar a identificação constrói mitos, como por exemplo, a invenção de um falso passado num universo de ficção onde não há envelhecimento, numa luta pela sobrevivência, além da escolha dos heróis que se cultuam. E esta forte identificação, segundo o autor interfere em critérios jornalísticos.
Nos jornais em estudo, no diz respeito ao texto meramente comunicativo, a informação muitas vezes aparece com forte carga dessa identificação. Tem-se, por exemplo, o discurso cívico, a exaltações dos heróis, dos homens que participaram da Revolução Acreana e daqueles que se empenharam na construção do povoado e, posteriormente, da cidade de Xapuri.
Do jornal O Acreano, com o texto do dia 10 de novembro de 1907, intitulado “Tratado de Petrópoles”, passando ao Correio do Acre, com o texto “23 anos da Proclamação da República”, de 24 de novembro de 1912, ao jornal Commercio do Acre, com o texto “Plácido de Castro”, de 15 de agosto de1915, até chegar ao último jornal de Xapuri, O Bandeirante (1984), com o texto “Retalhos da Vida Xapuriense”, o que se percebe é a idealização de um passado glorioso e de seus heróis quase sobre-humanos em uma cidade harmônica, regida pelos princípios da boa moral e inspirada no mais alto espírito patriótico.
Destaca-se a figura do herói da Revolução Acreana, Plácido de Castro, que segundo a visão oferecida pela maioria dos jornais, não é o caudilho, o aventureiro, tampouco o dissidente do exército gaúcho, conforme disseram alguns. De modo geral, ele representa a imagem do:
... grande compatriota acreano ... tragicamente emboscado por uma quadrilha de bandidos... o mais distinto acreano, o mais insulto guerreiro... de caráter altivo e nobre... não morreu incontinente, sobreviveu três dias [que] valeram por séculos de agonias, por acerbas dores morais e físicas que pouco a pouco iam exterminando a existência (Filho, Antonio Alves. Plácido de Castro. Commercio do Acre, 15 de agosto de 1915).

Nesse tipo de discurso o que é atualizado não é a informação, mas a criação e perpetuação de mitos nacionais. E é exatamente por este aspecto que a função do jornalismo é sobrepujada. Considerando que os jornais visam sempre aos anseios do público consumidor, dentro de um determinado tempo histórico, é provável que a evocação da figura de um homem de atitudes determinadas e severas como Plácido de Castro, servisse a um propósito: reacender na sociedade xapuriense o desejo de luta, de reagir com firmeza ao descaso do governo para com o Acre naquele momento de crise.
No entanto, a comunicação jornalística de Xapuri não se manifesta somente nos momentos de crise. Manifestou-se também durante os tempos de “pompa” no fervor dos movimentos pela autonomia do Território.
A insatisfação gerada pela falta de estruturas nas cidades e os poucos recursos enviados pela União aos Departamentos, foi o que motivou o Movimento Autonomista de 1910. Nesse e em outros movimentos, Xapuri sempre esteve à frente com a participação de seus representantes dos setores econômicos e intelectuais.
A posição dos intelectuais, muitas vezes, constitui-se na verbalização dos anseios dos representantes econômicos que custeavam os jornais. O jornal O Acreano (1907), fundado pelo coronel Antônio Antunes Alencar, um dos participantes da Revolução Acreana, funciona como instrumento polarizador dos propósitos do coronel e do grupo representado por ele: o grupo dos mandantes que enriqueceram com a exploração dos seringais, e que tendo outros objetivos, além do extrativista, propiciavam a fundação de veículos capazes de disseminar e causar efeitos positivos em benefícios próprios.
A criação desse jornal deu-se sob o propósito autonomista que se disfarçava em sentimento patriótico e beneficiavam os interesses políticos de determinados elementos. Fica patente que a comunicação veiculada atende à ideologia dos que estão na parte superior da pirâmide, formada na parte inferior pelos seringueiros e na parte superior, pelos donos de seringais, das casas aviadoras, enfim, pelos financiadores do sistema.
Um fragmento do que deveria ser apenas uma notícia sobre o regresso do Coronel Antônio Antunes de Alencar à cidade de Xapuri, mas que se tornou um meio para promover a imagem do mesmo, exemplifica um momento em que o critério jornalístico foi interferido:
... em regresso de sua longa excursão ao sul do país o nosso distinto amigo e prestimoso Cel. Antônio Antunes de Alencar ... seus amigos aguardavam com ansiedade justa ... Foi um bravo, portou-se com heroísmo ... na gestão interina da Prefeitura desse Departamento... tendo manancial de fecundo civismo, compenetra-se dos deveres que nos assistem e nunca furtou-se às suas obrigações à Pátria. (Acreano, 31 de dezembro de 1908, p.2)

A instigação ao patriotismo é marca constante, seja motivada em datas do passado como “Sete de Setembro Perante a História” (O Acre, 1907) ou “Tratado de Petrópolis” (O Acreano, 1907), “Mytologia” (Pró Acre, 1910), “Almirante Barroso” (Correio do Acre, 1911) e outros textos que se continuam, nesse sentido, nos jornais posteriores.
Informações obtidas junto ao IBGE apontam os sírios como sendo o povo estrangeiro que mais influência exerceu na formação dos xapurienses, com sua língua, religião e os costumes de origem, bem como as práticas comerciais. Aspectos da vida desse povo são apreendidos nos contos e das lendas árabes, publicadas nos jornais.
O “Conto Árabe”, assinado por Baxir Chaul, trata de um libanês que matou a esposa ao ouvir dela que amava um homem já falecido e queria encontrar-se com ele no além mundo. Tal confissão foi ouvida pelo marido, enquanto a mesma a jovem esposa chorava sobre o túmulo do dito homem. O marido “traído”, antes de matá-la, disse que esqueceria tudo se ela concordasse em ir com ele para sempre para uma das Repúblicas da América do Sul. Não tendo ela concordado, ele resolveu tirar-lhe a vida, numa atitude que revela machismo e sentimento de posse em relação à mulher.
Fica a indagação sobre se este conto que, tendo sido publicado em um jornal de Xapuri, logo em umas das Repúblicas da América do Sul (Brasil), seja mesmo ficção, ou se o autor lançou mão da forma literária para contar um fato verídico, que trata do modo de apropriação do gênero masculino, da relação de dominação para com o gênero feminino na cultura oriental. O título do conto é sugestivo de veracidade e revela a submissão das moças aos pais nos casamentos arranjados: “Fiz calar o coração... aceitando-te como esposo para não contrariar as ordens do meu pai”. E o machismo do marido que “apontou-lhe o revólver ao peito e disparou.” (“Conto Árabe – Mas não é simbólico”. Alto Acre, 1913)
Outros textos literários de temática universal aparecem com freqüência como: “Alma Geométrica” (adaptação de A Iliada de Homero), pertencente à literatura clássica. (Acreano, 15 de dezembro de 1907). E adaptações de fábulas de fundo moral (inspirado em La Fontaine), como “A Prisão de um Leão”, que fala sobre uma mucura que logrou o leão na selva, e um coatipuru que o libertou. Esta adaptação ilustra como ficam as pessoas fora do seu lugar de origem, desorientadas, pasmas pelas singularidades do ambiente em que estão resolvem voltar. (Alto Acre, 12 de outubro de 1913), e ainda textos sobre as várias lendas do sol e da lua, de acordo com cada povo (Alto Acre, 07 de dezembro de 1913).
A grande preferência dos escritores/jornalistas fica por conta da prosa poética e da crônica. A primeira classificação se deve ao fato destes textos comportarem uma forte carga de lirismo e subjetividade, sem preocupação com o espaço, e sim com aspirações e as ansiedades do espírito.
A comunicação que se faz através da prosa poética, ou seja, o que estes textos sugerem, é que os povoadores do Norte em geral são saudosistas. No primeiro momento, Saudosistas da terra natal, da amada e da família. No segundo momento, o da evasão e do retorno de muitos às suas origens, o saudosismo se faz em função da ausência da atividade gumífera e de tudo que ela proporcionava à população.
Esse fragmento de “A Imagem”, assinado por A.S.C., representa o exemplo clássico de uma série de outros textos que foram sendo publicados desde o início da formação de Xapuri:
”É o meu coração mergulha-se no infinito com a dor da saudade, e pleno crepúsculo, soledade plena... ouvindo a rugir monótono do vento que roja-se na floresta, quando hei procurado o vulto amado de alguém” (Acreano, 16 de setembro de1908).

Em “Hora da Saudade”: ”O mundo ainda tem a luz suavíssima da lua e o brilho trêmulo e meigo das estrelas que o iluminam e nós temos apenas a amarga e cruel saudade” (Correio do Acre. Fleury, 1911). O sentimento de ausência é transformado em saudade dos antepassados, nos Mais os textos dos últimos jornais escritos e impressos em Xapuri:
Evocá-los me vem à memória os vultos de (cita o nome dos fundadores da cidade)... meu corpo franzino de menino vindo do Ceará... meus olhos curiosos se arregalaram expiando a flotilha do Pará e Manaus...E ainda quando os nomes das gaiolas...traziam completo carregamento e voltavam carregados, “bebendo água”, como se dizia na nossa gíria marítima... (Oeste, 1949).

O carro chefe que conduz o texto literário nos jornais são as crônicas de fundo histórico, filosófico, especialmente, as humorísticas.
Na definição de Hênio Tavares, a crônica é uma espécie de conto curto que capta flagrante da vida, pitoresco, atual, real ou imaginário com ampla variedade temática, num tom poético e coloquial da linguagem oral. Já o professor Massaud Moisés, em seu Dicionário de Termos Literários, refere-se à crônica como sendo uma modalidade literária sujeita ao transitório e à leveza do jornalismo. Provavelmente são por estes aspectos que o jornalismo xapuriense tenha dado-lhe preferência.
Quanto ao humor ou gênero satírico e humorístico, tem sido usado em muitas sociedades, (e muito no Brasil) para ridicularizar governantes ou para denunciar abusos. Henri Bergson, em seu ensaio O riso, defende que o humor pode ter intuito moralizante, que o riso provocado pelo humor adquire função social e se torna convite para corrigir defeitos, castigando certos excessos.
É interessante, analisando dessa ótica, que as crônicas humorísticas nos jornais de Xapuri, tiveram seu ponto alto em 1913, ano em que ocorreram reformas políticas, administrativas e judiciárias em todo o Território do Acre. Entretanto, estas não atenderam às expectativas locais, visto que os representantes políticos continuaram sendo nomeados pelo Governo Federal.
Uma carta enviada ao jornal Alto Acre serve de indício dos problemas que surgiram com relação a esse fato: “Já passou o vento da anarquia sobre este município, turbilhou um instante por esta zona, desorientando alguns espíritos, produzindo algum efeito dissolvente...” (Alto Acre, 1913). Nesta mesma carta há referência à uma outra carta, enviada pelo senador Arthur Lemos, em que ele esclarece ao Coronel Rodrigo de Carvalho o “falso conceito” sobre a Inconstitucionalidade das Intendências nomeadas no Acre.
A reação dos contrários às reformas no Acre servem de motivo para a série de crônicas intituladas “Fitas”, assinadas por K. Listo. Nelas há um misto de informação com boa dose de ironia e humorl:
... Os seringueiros do nosso Departamento estavam organizando um abaixo-assinado a fim de pedirem ao muito ilustre vogal Coronel José Soares para não por em prática a idéia de que o mesmo ilustre Coronel está possuído de representá-los perante os altos poderes do País... Parece que os seringueiros acreanos, vão queimar o “Fitão” do muito ilustre vogal. (Alto Acre, 22 de junho de 1913, p.2)

E na outra série intitulada “Nossos Antigos Bons, Burros e Bravos”, de J. Brígido, o autor satiriza os coronéis do sertão, as gafes, os erros de pronúncia deles e a quase total ignorância sobre assuntos que não fossem do dia- a- dia das brenhas:
Os Feitosas sempre tinham sido grandes chefes, quando aparecia um deles no Aracaty ou no Forte faziam-se acompanhar de música como só iam os potentados do tempo... Uma estada do Capitão - Mor, José Alves, No Forte, era um sucesso e uma derrama de Patacões – O dinheiro dele andava diante de tudo ... (Alto Acre, 15 de fevereiro de 1914).

No último fragmento pode-se estabelecer um paralelo entre os “grandes” do sertão e os “grandes” do Acre: ricos, poderosos, esbanjadores e sem instrução.
No jornal O Acre, do mesmo ano, na série de crônicas “Riscados”, de Zé do Barranco, o humor declarado é feito sobre os seringalistas viajando de primeira classe nos navios da Iloyd: “ ... reclamavam de tudo porque tudo pagavam com seu dinheiro. Supunham que isso era chic e constituía um aprova de civilidade...” (O Acre, 1913, p.2)

2.2 - Peculiaridades dos jornais

A evolução do aspecto formal do jornal foi ocorrendo, em termos de mundo, gradativamente durante o século XVII e XVIII: os jornais aumentaram em tamanho em número de colunas. Após a Revolução Industrial, com a invenção da rotativa, ocorreu a padronização da lauda por causa da largura da bobina do papel. E em meados do século, XX as laudas começaram a ter cálculo gráfico, as vinhetas, fios e enfeites foram sendo eliminados, havendo maior valorização dos espaços em branco.
No Brasil foi adotado o modelo saxônico que dá preferência à verticalidade da composição e às regras rígidas de divisão do espaço, além da liberdade de colocar, ou não, as manchetes no alto da página. Mas nem sempre esse modelo foi acatado por todos os jornais brasileiros.
E compreensível que os jornais em estudo não estejam de acordo com o modelo surgido no mundo após a Revolução Industrial, e nem com os livros de normas de redação, os Stylebooks, lembrando que tais livros surgiram no Brasil (no sul do país) somente depois de 1950. Não chegando a serem divulgados nas regiões mais longínquas, como é o caso do Acre, o que favorece a forma singular dos jornais confeccionados em Xapuri.
Os cadernos, em geral, apresentam-se em formato de tablóides. O projeto gráfico obedece a um padrão estético próprio, agrupando, conforme a necessidade, as versais, caixa-baixa, redondas e itálicas hierarquicamente, organizadas em colunas, ora no sentido vertical, ora no horizontal, com preferência pelo sentido vertical, antecipando-se ao modelo adotado no Brasil depois de 1950.
Outro aspecto comum, observado nos jornais em estudo, é a ausência dos recursos gráficos utilizados pela imprensa no restante do mundo e do país, como por exemplo: fotografias, ilustrações, charges e cartoons. E considerando que o projeto gráfico guarda relação com o meio social e identifica os leitores a quem se destina, justifica-se que o mesmo se apresente irregular nos jornais de Xapuri, pelo fato desta cidade estar localizada no seio da selva, a milhares de quilômetros dos centros que dispõem de recursos tecnológicos avançados.
No que diz respeito ao editorial, coluna em que é manifestada implícita, ou explicitamente a posição do jornal perante a sociedade (filosofia/ideologia), este tem sua função desempenhada na coluna preenchida pelos artigos que nem sempre a ocupam as primeiras páginas. Muitas vezes, a primazia é dada às crônicas. Por ser o artigo um texto pertinente ao jornalismo, é através dele que os editores dos jornais xapurienses interpretam e opinam sobre os fatos relacionados à comunidade local, à vida nacional e aos assuntos de interesse universal, como ciência, política, economia, educação e religião.
No que se refere à linguagem, já foi dito que a linguagem do jornal objetiva a informação precisa sem circunlóquios, excessos de adjetivos ou definições vagas. Porém, os artigos, dos jornais coletados, são redigidos em estilo e linguagem que, muitas vezes, aproximam-se da que é usada pela literatura, havendo fusão da notícia com a crônica e a prosa poética.
No jornal Alto Acre de 27 de julho de 1913, no texto assinado por E. Vellaz, as três espécies encontram-se entremeadas em um artigo que teria como função principal informar a morte do Major Wenceslau Salinas, que foi vítima de um equívoco:
Já havia passado a hora sinistra da meia noite ... subia as águas do Acre um pequeno Batelão ... Nesse instante partiu da margem do rio um tiro... era a intimação costumeira nessas passagens... uma sentinela... ordenava que o barco encostasse... o motor tinha desobedecido a intimação da sentinela maldita... Foram disparados dois tiros, indo num projétil vitimar, o major Salinas, herói da Revolução Acreana...(Extranha Saudação)

Pela maneira como a notícia foi dada parece remeter a um fato em um passado já distante, mas no mesmo jornal, em outro número, é dada a informação das medidas adotadas pela polícia para apurar a responsabilidade do crime, fato que permite inferir que o fato era ainda recente.
A adjetivação também é freqüente, principalmente, quando a notícia diz respeito a pessoas ilustres. Todavia, ressalte-se que o jornalismo de Xapuri, no geral, não é sensacionalista, nem dá primazia às notícias sobre crimes nos seringais, nem sobre as brigas entre seringueiros alcoolizados que ocorriam sempre aos domingos quando eles iam ao barracão se “aviarem” e tomavam uma pinga ou “mata bicho”. Também não fala sobre fuga de moças ou de mulheres casadas entre os seringueiros com família9. O enfoque principal fica por conta dos eventos sociais como: festas, encontros no Ponto Chic, na Casa Branca, do teatro, das novenas, quermesses e procissões.
Nos demais assuntos, os temas mais freqüentes ficam por conta da tristeza e da saudade dos “exilados” em Xapuri, do aportamento de vapores carregados, das lanchas naufragadas, nos períodos de estiagem, do excesso de chuvas nos meses de Janeiro à Março, com relevância para os textos que se relacionam ao ciclo da borracha.

Considerações finais

Os jornais de Xapuri mantinham-se em nível bastante elevado para a época e o espaço. Apresentam-se com características semelhantes às revistas periódicas, englobando assuntos variados, em seções específicas como: “Missiva”, destinado a cartas de leitores, e “Riscados”, destinado a crônicas sobre o lugar, ambas as colunas do jornal O Acre; “Nossos antigos bons, burros e bravos”, “Fitas”, seção de crônicas, e “Pela Agricultura”, destinada a artigos científicos, no jornal Alto Acre; ou ainda a seção “Acreanadas” do jornal Commercio do Acre, voltadas para questões regionais, especialmente, as que dizem respeito ao extrativismo gumífero e seus problemas.
O Extrativismo é tema constante nas crônicas, nos artigos, nas notas, nos lembretes e nas cartas, abordado ora com seriedade, ora com humor. Às vezes satirizando os seringueiros, às vezes os seringalistas. Mas também falando por eles para reivindicar assuntos de seus interesses como: as dificuldades junto aos Bancos financiadores, problemas jurídicos causados por dívidas, falta de mercadoria, ou perda delas em acidentes nos rios. Até sobre seringalistas desesperados, entregando os seringais a preços baixíssimos para os credores, no fim do segundo ciclo da borracha, depois da Segunda Guerra Mundial.
Outros temas como: a saudade, a sensação de estar no degredo e a falta de atenção do Governo Federal para com o Acre, ocupam os espaços principais das páginas, demonstrando a autenticidade e originalidade dessa produção textual, que consiste em material riquíssimo para outras pesquisas, por revelar dados históricos, lingüísticos e culturais de uma sociedade que se formou em função da atividade extrativista, no início do século XX no seio da selva amazônica.
Nos textos de comunicação dos jornais em estudo há uma diversidade de formas como: artigos, cartas, notas e anúncios. Cada espécie preenchendo os requisitos que lhes são atribuídos: os artigos, levando ao público informações mais de interesse regional e local, com alguns poucos espaços para textos científicos; as cartas comunicando e esclarecendo alguns fatos ou episódios obscuros entre moradores da localidade; as notas e anúncios, tornando de conhecimento da sociedade a chegada e ou saída de pessoas ilustres; mais as novidades do teatro e do cinema. Enfim, o que de melhor Xapuri oferecia, desde remédios, lazer a artigos de luxo, tanto no diz respeito ao texto jornalístico de comunicação, quanto o texto literário, os jornais de Xapuri preenchem duas funções pertinentes ao jornalismo: prestar serviço a comunidade e estimular o gosto pela arte e pela literatura.

Comentarios

Aldo Antônio Pimentel Mota   - 26/05/2024

Sou neto do major Cícero Mota. Meu pai, Aldo Mota, nunca comentou a respeito de meu avô. Sou que escreveu a peça "Deus lhe pague" e minha avó, Maria Vicência, vendeu por 400 mil rés, ao empresário de Joraci Camargo.

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