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Ensaios-->DIÁLOGOS DE LUZIA. MEU NOME É LUZIA -- 31/08/2011 - 12:14 (Alexandre José de Barros Leal Saraiva) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Confesso: preferiria permanecer em silêncio, mas, ainda assim, desejo falar alguma coisa que não sei exatamente o que é. Eu mesmo não consigo entender a contradição que está em mim e que certamente consubstancia o que sou! Minha boca permanece quieta, os dentes semicerrados. Estou sozinha e me sinto melhor assim. Sei que já é tarde, talvez meia noite, ou até mais, e já faz três dias que não saio deste local escuro. A comida fede tanto quanto eu. Quem, ou o que, estará mais podre? Engraçado, sempre gostei de tomar banhos... Tomava quatro ou cinco por dia. E agora, estou aqui, imunda, grotesca. Há em mim cheiros ruins e variados. Estou cercado por fedores: o suor acumulado, os rastros de urina e de fezes que me tornei, o hálito da degeneração orgânica do meu corpo e a alma que fede mais do que tudo. Que fede e grita. Grita palavrões desconhecidos. ‘Porras’ em latim, ‘caralhos’ em sânscrito, filhos inumeráveis de putas miseráveis. Será tudo isso possível?! Ao final, já enjoada, grito profanações em tom sagrado. Canto padres nossos e gaguejo ave-marias. Misturo dores, amores, milhares de ódios sem gosto algum que consiga saciar minha fome, matar esta sede ridícula que amarga minha boca pintada de...
Meu deus. Não há cor nenhuma em minha boca. Era vermelha. Tenho certeza. Da última vez que eu era mulher, minha boca era vermelha... e suculenta, farta, demasiadamente boca. Agora eu lembro bem: era ela desejada por homens, beijada por mulheres, mordida por mim mesmo nos dias de fúria. Por ela, transitavam líquidos preciosos e substâncias fálicas, e eu os adorava a todos. Viva a champagne, viva as noites de gala, viva a minha boca, viva!
Viva porra nenhuma. Estou só. Sozinha. Sem ninguém perto. Sem ninguém longe. Afinal o que é a solidão senão um ser estacionado na única referência que lhe sobra, ele mesmo. Nada a esquerda. Vazio a direita. Por cima, nem o vento. Embaixo de mim, a terra vermelha do planalto que me despreza. Acho até graça. Quem disse que pretendo ser inumada? Enterro é coisa de primata. O ser humano, o Ser Humano de verdade, com letras maiúsculas e vocalização solene, jamais pode ser esquecido debaixo do chão, no convívio espúrio dos vermes, sendo comido pedacinho por pedacinho, sem poder reclamar com o maitre ou com o gerente desta espelunca em que se encontra hospedado forçosamente. Aliás, pensando bem, o quarto foi invadido. Sequer bateram a porta. Milhares de vermes entraram sem convite neste caixão que é seu, somente seu. Foi você, o morto, quem pagou. Merda, nem mesmo depois da morte, deixamos de ser esbulhados em nossas posses? Se isto acontecesse comigo, registraria um BO. Chegaria tranqüila na delegacia mais próxima e diria ao delegado:
- Dr., não venho lhe pedir, porque quem tem razão não pede, exige! Estava eu deitada sofisticadamente em meu novo ataúde, quando milhares de vermes, de bactérias e outras minhoquinhas que desconheço a linhagem familiar, invadiram minha propriedade e passaram a devorar minha carne...
Puxa vida, minha carne, igual a minha boca, também era vermelha e agora é preta, podre... Espera aí, eu não morri, quem está morto é você, apenas estou, hipoteticamente, em uma frenética delegacia de fétida polícia. Por favor, não me atrapalhe. Você lê rápido demais, desatenciosamente demais e desse jeito acaba me confundindo. Vá tomar um café ou fumar um pouco. Quem sabe assim, mais descansado da própria morte - que insiste em te enganar travestida de vida - você entenda que esse diálogo com o delegado nunca aconteceu, até porque sou contra inumações e detesto autoridades.
Volto, portanto, a delegacia conjectural.
- Dr., não venho lhe pedir, porque quem tem razão não pede, exige! Estava eu deitada sofisticadamente em meu novíssimo e chiquérrimo ataúde, quando milhões de vermes, de bactérias e outras minhoquinhas que desconheço a linhagem familiar, invadiram minha propriedade e passaram a devorar minha carne deliciosa. Primeiro entraram pelos meus ouvidos e fizeram cócegas torturantes. Quando eu pensava que iria morrer de cócegas, senti que meu olho esquerdo era atacado por um batalhão faminto. Em poucos segundos, senti um vento frio entrando pela órbita daquele lindo olho azul que agora, como o senhor pode ver, me falta na cara. Também me faltam pedaços de dedos, a bochecha direita, quase que a vagina inteira. Esta, coitada, está sendo literalmente comida! Ainda bem que me restaram as pernas, sem as quais eu não poderia ter vindo aqui. Pena que a língua, agora, fala apenas pela metade...
Uff! Cansei. Só de imaginar já cansei. Por isso e por muito mais, enterro jamais! Serei embalsamada e colocada, de pé, no átrio do teatro nacional, disfarçada de faxineira. As pessoas passariam por mim e nunca dariam conta de mim. Assim, ao contrário das faxineiras que estão vivas, e eram para ser vistas, mas ninguém as enxergam, eu serei uma morta, que era para estar oculta embaixo da terra, perambulando as vistas de todos estes pretensiosos cegos do cotidiano. De vez em quando um bêbado corno me dará uma cantada e ainda ficará puto com meu silêncio. Saíra enfurecido, pegará uma puta de verdade na primeira esquina e, se não tiver muito cuidado na hora do pagamento, brevemente estará ao meu lado fazendo a invisível faxina no átrio do teatro nacional, caso compartilhe comigo do mesmo descrédito quanto ao ridículo e desnecessário ato de inumação.
Espera aí, você já voltou do café? Por que não fumou o cigarro como lhe mandei? Eu precisava de um pouco mais de tempo. Até quando sai você me atrapalha. Então, palhaço, você fica, quem sai sou eu. E não se esqueça: meu nome é Luiza.
Merda... Não precisa quebrar a porta, estúpido!
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