Usina de Letras
Usina de Letras
69 usuários online

Autor Titulo Nos textos

 

Artigos ( 60362 )

Cartas ( 21289)

Contos (13387)

Cordel (10358)

Cronicas (22277)

Discursos (3193)

Ensaios - (9714)

Erótico (13520)

Frases (48249)

Humor (19550)

Infantil (4828)

Infanto Juvenil (4178)

Letras de Música (5497)

Peça de Teatro (1345)

Poesias (139358)

Redação (3118)

Roteiro de Filme ou Novela (1062)

Teses / Monologos (2438)

Textos Jurídicos (1949)

Textos Religiosos/Sermões (5812)

LEGENDAS

( * )- Texto com Registro de Direito Autoral )

( ! )- Texto com Comentários

 

Nota Legal

Fale Conosco

 



Aguarde carregando ...
Ensaios-->Serras de Angelina -- 12/05/2012 - 17:29 (Arlindo de Melo Freire) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos

 

Serras de Angelina

                                                                                                                                                                                    

                                                                                                                                                            Arlindo Freire*

 

Na história do Acarí ainda estão os fragmentos do cacique Janduí:sinais da presença indígena naquele município do RN – nas pedras das serras, entre os cactos, nas margens das lagoas, açudes, rios e riachos, no sub-solo, no horizonte serrano, no céu azul, nas noites estreladas, nas cobras e insetos, sob o calor do Sol, nas inscrições rupestres feitas pelos índios, descobertas e sem reconhecimento - guardadas nas matas, roubadas e depredadas, levadas para o exterior, depois de quebradas e partidas..

Junho,25 – 1647, Foi o maior acontecimento  da história no Acarí, quando era chamada de Lagoa Macaguá, atual Barragem Marechal Dutra ou açude Gargalheiras, onde mais de cinco mil indígenas fundaram, informalmente, “sem lenço e sem documento”, o local que mais tarde recebeu a denominação  de Acarí – 1750, 201km.  ao Oeste de Natal-RN, na região do Seridó – Chapada da Borborema.

Naquela data foi realizado o Ritual da Passagem pelos povos originais do sertão, quando Janduí – cacique dos Tarairiú, pretendia dessa forma mostrar aos holandeses que estava disposto com a sua gente – fazer o combate para expulsar os portugueses do Rio Grande – invasores de suas terras e todo o patrimônio indígena.

 Acarí– língua Tupi, é o peixe em forma de cascudo, abundante na lagoa Macaguá, local de freqüentes reuniões dos nômades que habitaram as terras do sertão, a exemplo dos Tarairiú que viviam no nomadismo tribal, sem passar muito tempo em determinada localidade, preferindo o espaço de abundância alimentar, através da caça e pesca.

Macaguá = ave de rapina, língua Tupi, palavra com que foi denominada a grande lagoa em que o peixe Acarí existia em grade quantidade servindo de alimento, não somente para os índios do sertão, como certamente para certa ave de vôos rasantes, com alta velocidade, de bico aberto e certeiro sobre a presa que estivesse sob as águas, para servir de alimento à espécie voadora.

Angelina, da lagoa Macaguá, vivendo no Acari, tem a sigla AMA – por incrível que pareça, nos arredores daquela cidade, na sua pequena pousada, de onde tem saído montada em sua robusta mula, desde os sete anos de idade, apenas para manter contatos com a natureza de argila, pedras e vegetais espinhentos, verdes e secos dos mais variados tipos, além de palmeiras – Carnaubeiras de copas com 1 a 2m de circunferência estremecida pela ventania.

Hoje, com mais de 60 anos, essa mulher morena, esbelta e franzina – guarda sem ressentimentos, todo o seu amor pela natureza com as longas caminhadas no lombo da sua mula, pensando e falando em silêncio com as árvores das serras, olhando os passarinhos, os caminhos com raros animais, os Ventos Fortes do pico das serras e noites, quando o Sol começa descer para o poente, com luz vermelha e menos quente.

Porque você continua fazendo isso?

= Assim, procuro conhecer, cada vez mais, os caminhos das serras feitos pelos animais, pelas águas das chuvas e pelas correntes de ar que constituem a natureza em fase de longa extinção causada com a exploração humana e os fenômenos naturais.

Nos hábitos e costumes de Angelina – está a imagem simples e humilde, sem qualquer toque ou demonstração de vaidade, tampouco de superioridade até mesmo na tonalidade da voz, mediante o emprego de poucas palavras sobre as suas atividades no decorrer das caminhadas feitas com bastante freqüência nos planaltos e serras que fazem o Seridó.

Se essa mulher da pousada Bistrô, situada em proximidade da Barragem Armando Ribeiro – Acarí, fosse procurada por um arqueólogo ou sociólogo, este poderia dizer que na sua origem familiar estão os traços biológicos do indígena e escravo, os quais são confirmados por ela mesma ao revelar que o seu avô era negro, calmo e tranqüilo, além de outras características dessa natureza.

Então, você tem muito conhecimento sobre os índios que viveram no Acarí e Seridó, antes e depois do século 16?

= Não, infelizmente nunca tive motivação e, maior interesse relacionado com este assunto, pois sempre faltou, em nossa comunidade acariense, o incentivo, estímulo

e determinação para conhecer essa história, apesar da sua importância cultural para a nossa população, nas escolas e outras instituições.

Em seguida, falou que tem muita alegria e satisfação com a listagem impressa no Ritual da Passagem – 1647, numa coluna de sua pousada, em que estão relacionados os acontecimentos indígenas, naquele ano, organizados pelo cacique Janduí, publicados em 1651-2 em toda a Europa com repercussão no mundo inteiro e valioso destaque para o reconhecimento da cultura primitiva na lagoa Macaguá, atual barragem do açude Gargalheiras, no Acarí.

Além disso, revelou que em certo período dos anos 80, teve oportunidade de conhecer alguns ossos dos braços, encontrados no interior de uma parede que fora demolida numa casa de seus parentes, nos arredores do Acarí, os quais chamaram a atenção de toda a família, foram guardados e mais tarde desaparecidos porque não havia grande interesse em continuar com eles.

Naquela época, assim como atualmente, tanto a história, como arqueologia e outras ciências relacionadas, exceto em casos raros, são de pouca importância para quem vive naquela cidade serrana, inclusive os estudantes e professores que ali vivem sob o desconhecimento dos episódios que fizeram o passado e o presente das gerações que se orgulham com o lema da Cidade Mais Limpa do Brasil.

Limpeza, para quem entende de meio ambiente, também requer o saber cultural e histórico sobre as origens de qualquer lugar, especialmente em se tratando dos indígenas que no tempo primordial deram início as populações de mulheres e homens que conhecem e respeitam os seus princípios biológicos – desde a existência dos nativos que guardam as suas marcas nas pessoas da atualidade.

A Cidade Mais Limpa tem a barragem Marechal Dutra com 40 milhões de m3 de água, depois de sua construção, durante uma grande seca – passados 50 anos, sem a conservação necessária de limpeza e despoluição, ao contrário do que se verifica, anualmente em países da Europa com reservas de mananciais.

= Vivo com muita falta de tudo isso, mais a pouca consideração em torno da experiência adquirida nas caminhadas entre os altos e baixos, dia e noite, em cima da minha querida e inseparável mula que sabe, por incrível que pareça, de todas as veredas por onde andamos, sem ter nada contrário, até mesmo quando não está bem alimentada.

Para falar, expor as suas informações sobre o Acarí da serrania magestosa, elevada, com mais de 700m de altitude – nível do mar, de cactos resistentes, seculares, floridos, com espinhos longos e curtos, de hastes e frutos vermelhos que servem de alimentos aos passarinhos que cantam ou gritam, enquanto movimentam as suas penas coloridas – Angelina jamais foi chamada ou procurada, talvez por causa da simplicidade em que vive na comunidade da vila em que tiveram morada, os construtores da barragem.

= Casa de ferreiro, espeto de pau!

Esta sabedoria popular – poderia ser aplicada a essa mulher que permanece no seu canto de heroína caminhante das serras e montanhas, falando pouco, pensando nas pedras, vegetais, animais e nos minerais desconhecidos, sem exploração sistemática e tampouco organizada – como potencial de riqueza para que a miséria seja reduzida, pelo menos, na comunidade acariense da famosa região do Seridó.

Já se foi o tempo em que Angelina, na sua juventude, apanhava diariamente muitos quilos do algodão Mocó – fibra longa, em sacos pendurados nos ombros, nos roçados de sua família – para vender e manter o pessoal de casa, todos os anos,  quando o inseto Bicudo não exterminava a produção que, naturalmente deixou de existir –fazendo com que a pobreza aumentasse em alta escala nas zonas rurais do Nordeste.

Nas terras indígenas do Acarí – mesmo antes de 1500, o algodão, mandioca, feijão e milho foram plantados pelas tribos originais para o sustento nativo, comemorado todos os anos, depois do período das chuvas, com festas e outras atividades em locais diferentes das áreas caracterizadas pelo clima das caatingas.

= Quem mandou cortar a pedra granítica com aproximadamente, 2x1m  gravada de inscrições rupestres em baixo relevo, feitas pelo homem primitivo nômade, de certa serra do Acarí, levada e transportada para o exterior?!

Esta e outras questões semelhantes – coleta de pedras trabalhadas pelos indígenas

de 40 a 50 mil anos atrás, estão no esquecimento do Acarí, como se nada acontecesse sobre a destruição do patrimõnio cultural existente e vivo naquela área de histórias misteriosas relatadas pelos velhos moradores de informações repassadas pelos seus antecedentes.

Angelina tem o mesmo pensamento, sem maior explicação, mas, pelo menos o seu coração está angustiado, sedento de saber e conhecer tudo que se passa no horizonte serrano das temperaturas quente e fria – levadas pelos Ventos Fortes que param nos picos das serras e fazem contornos em direção aos espaços vazios.

No meio das elites - quase nada se fala ou comenta em torno dessas ocorrências que fazem do Acarí um dos maiores destaques municipais do RN com mulheres altas e brancas, bonitas e elegantes com suportes de majestades originárias dos europeus colonizadores da região do Seridó, de pele branca-rosada, estatura de quase 2m, firme e forte, com elevados recursos financeiros aplicados na agropecuária e suas casas grandes de arquitetura colonial.

Faz 10 anos que o professor e pesquisador B.N Teensma, da Universidade de Leiden, dos Países Baixos – Holanda, publicou pela EDUFAL – Universidade Federal de Alagoas, um completo estudo de pesquisa relacionado com o Ritual da Passagem de 1647, na então lagoa Macaguá – Acarí, sob a liderança de Janduí, sob a denominação de Monumento da Cultura Indígena com repercussão em toda Europa e, posteriormente no mundo inteiro.

Outro município do RN e demais Unidades da Federação tiveram um privilégio igual a este do Acarí em dimensão cultural, histórica, arqueológica, política e social?!

Na verdade – Nem Um, sequer!!

Então, porque temos ignorância nesta questão de projeção e grandeza para todo RN. no passado, presente e futuro?

Nos sítios e periferia daquela cidade – vivem os populares de cor mestiça, altura média de 1,6m., sem trabalho fixo, desempregados comendo o que conseguem – farinha de mandioca, feijão e rapadura, com e sem peixe do açude público de pesca livre sob o controle da Associação de Pescadores na defesa das espécies.

Na Vila dos Pescadores, localizada entre a barragem e a cidade, moravam os trabalhadores das obras do grande açude, muitos dos quais ali permanecem em mini casas com luz elétrica e água encanada, criando seus pequenos animais no quintal e na rua, tendo alguns estabelecimentos comerciais com exposição de produtos em suas frentes.

Paulinho como trabalhador rural, tem a sua residência na Vila, juntamente com esposa e filhos, sendo por demais conhecidos, queridos e respeitados por todos, pois a família unida tem suas atividades: a companheira cuida da casa, faz refeições sob encomenda para atender aos visitantes, enquanto o filho Ivan – jovem , anda pelos campos fazendo fotografias dos animais e aves que encontra, assim como das serras, pedras e outros fatores naturais, para vender e expor.

Nos fins de semana e feriados, Paulinho sai de casa logo cedo para atender aos visitantes da cidade em passeios de barco motorizado no percurso de todo largo da bacia em que se deposita o grande volume d´água da imensa barragem alimentada pelas chuvas caídas nas serras – formando rios e riachos que desembocam na longa depressão da terra com profundidade superior a 30m.

Nas sombras das árvores e serras em torno da cidade, o artesão Dimas passa o dia inteiro, desde o raiar do Sol – fazendo as peças em pedras graníticas para atender às encomendas, com figuras de animais e pessoas da região, conforme a concepção do artesão meio bizarro, bastante conhecido e procurado por quem estima e admira o artesanato em pedras com o rústico acabamento de estética da arte.

Na complexidade do cenário acariense - cerca de 12 mil habitantes, o município tem em torno de 160 professores em mais de 22 estabelecimentos nas zonas urbana e rural, com mais de 3 mil alunos, os quais poderiam conhecer e tomar consciência do que são capazes de fazer pelo esclarecimento da comunidade, especialmente as pessoas humildes e pobres que ficaram sem educação.

= Profeta de casa, não faz milagre.

Assim tem sido desde o tempo de Jesus Cristo, infelizmente, até mesmo no meio de Sua família, mas, a mudança jamais deixou de fazer, pois ela depende apenas da vontade de cada um e da coletividade que se considera capaz de realizar a história do ser humano no processo da evolução, segundo a necessidade da união e solidariedade.

Entre as mulheres professoras do Acarí e Angelina Conceição, certamente existe o potencial para algum trabalho comunitário, visando, pelo menos, a organização dos artesãos, através de associação – para que desse modo a variada produção venha ser fonte de renda para eles, mediante a comercialização ou venda dos produtos de forma organizada.

Na perspectiva dessa organização – seria indispensável, também, estabelecer os meios para reconhecer a cultura indígena depositada no Acarí, antes da sua extinção completa e radical, gravada nas pedras com pinturas e desenhos que vêm sendo extintos, depredados e roubados por exploradores e mercenários fraudulentos.

Apenas com boa vontade e entendimento, entre Angelina, as professoras e alunos, seria viável ou possível – aproveitar toda energia humano-social recebida das serras e Ventos Fortes que fazem a beleza da vida no Acari com a coragem e o coração do cacique Janduí – deixados nas águas da lagoa Macaguá, hoje, Barragem Marechal Dutra com os depósitos de numerosos minerais em filigranas. >11.05.2012*Jornalista,,Sociólogo-

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comentarios
Perfil do AutorSeguidores: 20Exibido 591 vezesFale com o autor