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Contos-->EU ENCONTREI LÚCIFER -- 05/01/2003 - 19:18 (Alexandre Marcos Seolim Rodrigues) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Estava eu em mais um dia apinhado. Deslizava rapidamente meus pés pelas ruas e calçadas da cidade, a fim de cumprir com compromissos profissionais e, também, pessoais. A despeito de meu sofrimento, o sol seguia em sua, literalmente, árdua tarefa, a queimar meus olhos, pele e miolos, no que era apoiado por minhas preocupações.
Devia eu ter prestado maior atenção às pessoas com as quais negociei naquela tarde. Pelo menos assim, teria conhecido gente nova e diferente, embora despreocupado de um sentimento de amizade. Mas, ao contrário, eu cumpria todas as minhas obrigações como uma máquina, sem ver, sem ouvir, sem sentir absolutamente nada, além do cansaço físico e mental.
Qual não foi minha alegria, quando constatei que havia realizado tudo quanto devia ser feito naquele dia de trabalho. Esqueci-me que existia um amanhã, novamente alucinante e exaustivo. Em meus pensamentos figuravam somente as opções de que dispunha para relaxar nas últimas horas do dia. Eu poderia, depois de um banho morno, com sabonete e xampu de aromas suaves, sentar-me na poltrona e ler alguma ficção de Julio Verne, ou a aterrorizante e nojenta Metamorfose de Franz Kafka. Ou, então, na mesma poltrona, deliciar-me numa cerveja muito gelada e assistir a qualquer coisa na televisão. Ora, idéias não faltavam. Todas satisfariam meu desejo de descansar.
Com este objetivo bem emoldurado na cabeça, deitei meus passos no caminho de casa, tendo um quê de satisfação no rosto e, até mesmo, respirando o ar da cidade com mais cuidado, experimentando, sentindo.
Entretanto, todos nós estamos mais expostos a surpresas, que a rotinas. Explico.
Nesse caminhar mais calmo em direção à casa, senti no ombro um toque pesado e áspero. Sem parar, tornei um pouco o pescoço para trás e deparei-me com figura difícil de caracterizar à primeira vista. Um rapaz de feição comum e aspecto simpático pediu-me para que esperasse um minuto. Ante meu olhar interrogativo, o homem apressou-se em explicar.

- Estou aqui, especialmente, para falar com você.
- Pois não! E quem é o senhor?
- Esta pergunta atropela um pouco meus anseios.

Então, dei-lhe as costas, dizendo.

- Sendo assim, passar bem.

O rapaz inquietou-se.

- Não, espere! Tenho algo a lhe dizer.

Joguei meus olhos para o céu, deixei caírem os ombros e com um profundo suspiro, protestei contra Deus.

- Mais essa agora?
- Não se irrite. Tenho certeza de que não se arrependerá em me ouvir.

Minha curiosidade, extremamente aguçada, deu-me um grande empurrão, tornando-me inclinado a aceitar a súbita proposta.

- Bem, vamos lá! Diga o que tem a dizer.

Tendo pronunciado essas palavras, abri os portões para o meu interesse. Esse homem me assustaria um bocado.

- Vou facilitar as coisas. Meu nome é Lúcifer.

Ele permaneceu como estava, fitando-me, sério e quiçá, preocupado com minha reação. Não só a minha testa, mas todo meu rosto enrugou-se. Tentei de todas as formas segurar o riso. Impossível. Desmanchei-me em gargalhadas, até o ponto de verter lágrimas. A esta altura a rua pareceu esvaziar-se. Estávamos ali, somente eu, que já me considerava estranho e aquele, que eu julgava um louco. Quando me recompus do ataque hilariante pude falar-lhe novamente. E ele mantinha a mesma expressão.

- Olhe, eu não tive um dia fácil. Estou cansado e nunca fui muito paciente. Além disso, sou um simples comerciante, não um psiquiatra.
- Eu não preciso de um psiquiatra. Preciso de alguém que me escute.

Contive-me de um novo ataque e decidi levar a brincadeira adiante.

- Pois bem! Venha! Eu lhe pago um café.

Seguimos até uma pequena lanchonete, onde poderíamos conversar, se não confortavelmente, ao menos, sentados.
A garçonete serviu os dois cafés e, antes de retirar-se, certificou-se de que não desejávamos mais nada. Então, o rapaz meteu a mão num dos bolsos de sua calça e tirou de lá uma identidade, apresentando-me prontamente. Nesse momento, senti-me numa peça de teatro.

- E eu nem sabia que havia documentos para tal função.
- Quer ver minha ficha criminal?
- Não é necessário. Aposto que ela é muito atrativa para a indústria de reciclagem.
- Pode acreditar que sim.

Ele possuía identificação. Uma sombra de dúvida pairou em minhas íris. Ainda assim, decidi alongar.

- Muito bem! Diga o que precisa.

Ele baixou a cabeça, juntou as mãos entrelaçando os dedos e posicionou-as em meio às pernas, aproximando os joelhos, afastando os calcanhares. Deixou escapar um sussurro.

- Estou arrependido.

Quase engasguei com o café, que sorvia no momento daquela declaração acachapante. Depositei a xícara novamente sobre a mesa e olhei fixamente para ele.

- E eu que achei que as surpresas tinham acabado.

Com a voz trêmula, o tal demônio prosseguiu.

- Veja! Isso não é brincadeira. Meu orgulho imputou-me esta pena. Devo arrepender-me e sentir-me sempre mínimo.
- Você fez até cara de salário agora.

Falei rindo.

- Não brinque!
- Desculpe, mas nunca um demônio quis meus conselhos. Aliás, por que eu?
- Não sei. Só achei que devia...
- Tudo bem, tudo bem.

Suspirei, passando a mão direita por todo meu rosto, desde a testa até o queixo, como se fechasse a palma.

- Olha, não sei o que lhe dizer. Você errou demais.
- Eu sei.
- Você tinha tudo. Era o que poderíamos chamar de funcionário de confiança do Chefão. Se é que você me entende. O que mais podia querer?
- Eu quis ser o chefão.
- E, para quê?
- Não sei. Status. Visibilidade talvez. Poder, com certeza.
- Entendo. Um orgulho incontrolável.
- Sim. Gigantesco.

Pensei um pouco mais e continuei.

- Você quis vencer o invencível.
- Eu sei.
- E mesmo que houvesse possibilidade, você deveria utilizar a força do superior e não enfrentá-la, tentar vencê-la.
- Aí está. È o que todos me dizem.
- Ora, então do que precisa?
- Não sei.
- Eu imagino. Por que não pára com tanta maldade, tanta interferência negativa na vida das pessoas? Veja quanta destruição nesse mundo! É tudo culpa sua.
- Eu sei.
- Por que não acaba com esse vício?
- Vou tentar.
- Muito bem. Feita a minha parte, agora preciso ir.
- Espere!

Então, ele arranjou fôlego para um último questionamento.

- Você não sentiu medo. Foi muito natural. Como pode?

Sorri confiante e disse, altivo.

- Você sabe muito bem como.
- Ele está com você, não é?
- Em todos os momentos.
- Quanto poder!
- Ei, isso é inveja?
- Não, não. Eu já vou.
- Veja lá. Não vá cometer os mesmos erros.

Ele só jogou a mão no ar, virou-se e seguiu, cabisbaixo. Eu voltei para a casa. Da poltrona, olhei para a Bíblia que ficava sobre uma mesinha no canto da sala e me enchi de interrogações.

“Por que eu, Senhor? Por quê?”.

E Sua voz retumbante, tremeu os móveis de minha residência.

“Lúcifer deve se arrepender todos os dias. Não comente, mas todos passarão por essa mesma experiência que você teve hoje. Veja se aprende algo!”.

Sorri, acionei a televisão com o controle remoto, executei meneios com a cabeça e só consegui dizer:

Que dia!


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