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Contos-->SÁBADO MORNO -- 09/01/2003 - 00:02 (Alexandre Marcos Seolim Rodrigues) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Um raio de luz, tímido e inconseqüente, invadiu o quarto pequeno e abafado. Foi o bastante para acordar Emanuel, antes mesmo que o turbilhão de brilho amarelo do sol viesse no rastro do primeiro facho e se espatifasse contra as paredes, trazendo o dia.
A mente do rapaz, trocando o sonho pela vida real, sentiu primeiro o corpo suado. Uma noite quente visitara a cidade. Depois, apressou-se em faze-lo se levantar, com o grito ensurdecedor da obrigação do trabalho. Entretanto, tendo se levantado, o jovem contador acometeu-se do embalo da lembrança: era sábado. Deixou-se cair novamente na cama e, sentado, lastimou-se por ter acordado tão cedo. Fez menção, de si para si, de voltar a dormir, mas constatou que já não tinha sono.
Emanuel saiu da cama definitivamente e rumou direto para a cozinha, onde preparou uma garrafa de café, que lhe serviria para o dia todo. Dirigiu-se então à sala, tomando assento no sofá e acionando a televisão. Ficou aí, com sua xícara de café e os olhos na tela, porém, sem absorver nada do que era transmitido. Não porque fosse atrapalhado por outros pensamentos. Na verdade, o tédio já havia seqüestrado seu sossego e ele percebeu isso. Desligou a televisão, pensando em outra opção para se ocupar.
O rapaz, sentado no chão, abriu as portas de baixo da estante e iniciou uma busca entre os cd´s que possuía. Naquele dia, parecia que nenhum daqueles artistas era do seu agrado. Tentou voltar um pouco no tempo, a fim de lembrar-se o que o teria feito comprar todas aquelas obras, pelas quais não sentia interesse algum agora. Fechou a estante, deixando tudo espalhado. Primeiro sintoma de irritação. E ainda não eram nove horas. Dali mesmo, sentado, virou-se e observou as revistas sobre a mesa de centro. Todas lidas.

- Por que essas editoras demoram tanto para enviar as novas edições?

Esqueceu-se que as assinaturas eram mensais. Segundo sintoma de irritação. E não eram nem oito e cinqüenta. Respirou fundo, batucou um pouco com os dedos no assoalho e então decidiu tomar banho, escovar os dentes, colocar-se em condições normais de higiene.
Terminados os cuidados pessoais, Emanuel voltou à sala, sentou-se no sofá, com as mãos juntas e a cabeça baixa. Pensava, pensava. Ficou ali durante alguns minutos. Então, subitamente, levantou-se, correu para o quarto, fuçou as gavetas da escrivaninha e alegrou-se quando encontrou algumas folhas de papel e uma caneta. Queria escrever sobre aquele sentimento que o tomava.
Postado na cadeira, em frente à escrivaninha, Emanuel escreveu numa das folhas a palavra tédio. Para ele, nenhum título faria melhor expressão em seu texto. O rapaz escrevia, riscava e tornava a escrever. Movimento contínuo, que se repetiu muitas vezes. Nenhuma faísca de inspiração. Frustrado, atirou a caneta na parede. A explosão foi instantânea e espalhou uma mancha de tinta. Terceiro sintoma de irritação e eram apenas onze e trinta.
Nel, como era chamado pela família, que morava distante, deixou a folha ali, com aquela borra azul indecifrável e saiu praguejando pelo apartamento. Isto já nem era sintoma de nada. Era a monotonia virando doença.

- Mas o que é que estou querendo? Sou um contador. Meu negócio são os números e não as letras.

Olhou então para os livros que estampavam a estante: Machado de Assis, Fernando Pessoa, Ernest Hemingway. E não sentia nem mesmo vontade de lê-los.

- Sou um semi-analfabeto!

Seu relógio de pulso soou ao meio-dia. Só então ele sentiu o estômago, vazio e pedinte. Alegrou-se, pois poderia divertir-se cozinhando. Em frente à geladeira, deu uma risada sarcástica, como que caçoando a própria sorte. Teria até mesmo dito:
- Pensou que ia me pegar?

Mas quando abriu o refrigerador caiu em nova decepção. Só enxergou alguns tomates, a margarina e uma caixa de hambúrgueres. Tinha uma das mãos sobre a porta do aparelho, a outra na cintura e olhou para o vazio da cozinha, como se visse a si mesmo.

- Legal! E é esse o meu banquete?

Após o almoço, o jovem decidiu que ficaria na sala, em frente à televisão, por mais que isso o irritasse. Isso sim era um sintoma. Ele queria mais irritação. E Emanuel ficou em casa, ao som e à imagem, não de um céu profundo, mas de uma programação televisiva superficial e esquálida. Passou-se uma hora e o contador experimentara todas as posições possíveis para se ajeitar no sofá. Mais uma hora e ele repetiu todos os movimentos. Passada a terceira hora de angústia, chegou o desespero, adentrando por todas as frestas que encontrou, até tomar todo o apartamento, como uma nuvem de gás prestes a explodir. E explodiria.
Aquele homem parou em frente ao espelho do banheiro, com seus cento e oitenta centímetros. Decorados com cabelos pretos e ondulados, olhos castanhos, nos quais mergulhou, um farto nariz e um grande pescoço. Ali, começou a sorrir, lembrando de pessoas das quais não gostava. Cada uma que passava por sua memória, fazia-o rir mais, até que chegou às gargalhadas. Sim, ele lembrava de muitas coisas que poderia fazer. Colocou todas aquelas pessoas de que recordou em uma escala de prioridade e correu para o seu quarto. Lá, examinou todos os móveis, antes de chegar ao encontro do criado-mudo. Em pé, colocou as mãos juntas na altura do rosto. Os dedos indicadores tocavam o nariz. Os polegares descansavam embaixo do queixo. Seus olhos começaram a ganhar um tom, um tremor e uma umidade de quase loucura. Então ele puxou a gaveta e deixou seus olhos espelharem aquela imagem reluzente: um revólver, calibre trinta e oito, niquelado, junto a seis balas. Emanuel ofegava, sentia algo parecido com a iminência de um orgasmo. O suor frio lhe descia pela testa. Ele sentou na cama, ao lado do criado-mudo, sem tirar os olhos da arma. Segurou o cabo, nervoso, mas decidido. Esperou chegar a calma para carregar o revólver e realizou esta tarefa sistematicamente. Com os dedos indicador e polegar, apanhava as balas, apontava-as no tambor da arma e, por fim, empurrava-as só com o polegar.
Depois de olhar para si mesmo, o rapaz colocou o revólver sobre o colchão e procurou no guarda-roupa por uma vestimenta melhor. Vestiu-se, tomou novamente a arma e, antes de sair, passou em frente ao espelho do banheiro, para verificar se o cabelo estava em ordem e se era ele mesmo, a pessoa que ia fazer aquilo.
Na rua, tendo a pistola presa ao cós da calça e coberta pela camisa, Emanuel caminhava rapidamente, olhando assustado para tudo. As pessoas, os prédios, os carros, tudo parecia lhe causar um certo pânico. Mesmo assim, ele não desistiu. Quando chegou ao seu destino, um lago na parte mais afastada da cidade, já estava suado.
Emanuel olhou para a água, já tingida de ouro pelo pôr-do-sol. Firmemente, abraçou com os dedos o cabo da arma e começou a tirá-la da calça. Devagar, ele fez com que cada parte do seu corpo, acima da cintura, fitasse o objeto, tão comum em nossas mentes, tão estranho em nossas mãos. Levantando o braço, ele passou o artefato bélico pela barriga, pelo peito e chegou frente às suas vistas. Observou mais uma vez a água e então atirou. Atirou o revólver para o fundo do lago, analisando o naufrágio, cheio de ódio.
Parecia que todo o peso do tédio que sentia, havia se esvaído com o sumiço daquele objeto terrível. A felicidade que Emanuel guardava em si agora era imensa. Mas então se lembrou de algo, com culpa.

- Poluí o lago.

Sentimento breve, aliviado por outra lembrança.

- Polui mais quem fabricou esta porcaria.

Emanuel meteu as mãos nos bolsos e tomou o caminho de volta para a casa, sem tédio, cheio de alegria, de bem com a vida e com o mundo.

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