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Artigos-->Madalena, o surupeuta. -- 29/08/2021 - 21:02 (Elpídio de Toledo) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos

 



 



 



 



 



 



“MADALENA, O SURUPEUTA”.



                                                                                                            Elpídio de Toledo03/07/89



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“Dize:
O vento do meu espírito
soprou sobre a Vida.
E tudo que era efêmero
Se desfez.
E ficaste só tu, que és eterno...”
Cecília Meireles, in “Cânticos”. ACARI, O CASCUDO.
Acari é o “cascudo”, peixe que não se fisga em anzol, preto, de couro duro, feio. Derivado de acari, “Carizinho”, ou “Cari”, é o borracheiro de São Francisco, cidade do norte de Minas. Ele conhece bem o “Chicão”, quando se fala do trecho que banha aquela cidade.
Ele sempre faz companhia a um pescador amador avulso, desses que no fundo, que nem eu, querem é conhecer os segredos dele para pegar peixes, grandes idiotas, lá e cá.
Entre o Urucuia e o Rio do Peixe, Carizinho nada de braçada e sabe de tudo que o Chicão fala para os barranqueiros. A notícia chega logo aos seus ouvidos. E ele repassa para quem o convide para pescar, mediante recompensa em numerário. Eu, por minha vez, sempre me recuso a ser acompanhado pelo Cari; friso sempre que conheço bem o trecho. Tanto quanto ele. A par disso, outros pescadores amadores, sócios do mesmo Clube Mineiro de Pescadores, sempre que saem com ele, voltam com bons peixes. Fazem a féria.
Minas férias deste ano, como sempre, me levaram para São Francisco. Eu e Maria Regina, “mea mulé”. Uma semana antes dela cheguei ao clube e pesquei com outros companheiros. Tempo ruim, chuvoso de surpresa, semana toda. Mesmo assim, fizemos proezas. Dos companheiros que foram embora, alguns que comigo pescaram, puderam pegar e levar alguns surubis pequenos (moleques), piaus, piranhas, matrinhchãs e mandis. A semana seguinte estava reservada para pescaria em família.
Meu filho mais velho, Sérgio, dirigiu o carro e ficaria conosco por dois dias. Veio só trazer a mãe. Eu e ela voltaríamos para casa no final da semana. E assim foi. Sérgio pescou comigo sem sucesso, por duas noites. Na segunda-feira, dia 03 de julho, a faringite voou pra garganta da Maria Regina. Ficou esguelada. Não podia me acompanhar na pesca. Fiz o Sinal da Cruz. Queimei minha caneta... tive que convidar o Acari: _“É pra dormir no rio?” “ _Não!”, respondi. _ “Então, o senhor me paga NCz$ 10,00 (dez cruzados novos). A isca é por sua conta. A comida e a bebida também.”” _Feito!”, disse. “Às 16:00 horas esteja aqui. Sairemos às 17 horas.”
Em uma hora, preparamos com paciência tudo que precisávamos para o barco. Um bom farnel. ” _Pra cima ou pra baixo, seu Elpídio?” A maioria dos pescadores sempre sobe o rio com ele, em direção à Barreira do Índio, pesqueiro onde existe uma laje enorme na parte funda e que esconde grandes surubis.” _ Para baixo! Para a Melona!”, respondi. Na Ilha da Melona sempre tive sorte. Sempre voltei com bons exemplares. E lá fomos. Deleguei ao companheiro a direção do motor, um Yamaha 25. O barco era o “Regina”, 6 metros de comprimento e 1,40 de largura. Quase voava. Colorido com faixas azuis e vermelhas, ficava mais bonito com a tripulação com salva-vidas das mesmas cores. Céu de brigadeiro sempre me fez supor que existe mar de almirante. Enquanto nós navegávamos em direção à Melona - distante do clube uns 45 minutos - podia conferir o trajeto; revi pequenos e grandes obstáculos: vaus, ilhas, lajedos árvores, e tudo que boiasse ou estivesse fixo. As distâncias de cada coisa em relação ao barranco, as placas do Portobrás que orientavam as grandes embarcações, e tudo o mais que pudesse servir como referência para voltarmos. E pude relembrar outras pescarias por ali.
Na volta, geralmente em alta hora, valia-me de um “cilibim”, um farol de longo alcance. A mão esquerda cuidava do leme e a direita lumiava. Eu aproveitava e me recordava de pesqueiros já exauridos, onde já tinha tido sucesso e que me pareciam convidativos para uma tentativa a mais. Uma galhada, um toco, um capim com pontas caindo do barranco para dentro do rio, uma cascalheira em partes rasas, uma laje comprida, um fundão, tudo isso sugeria uma parada, uma poitada, e o possível peixe bom. Cada parada aliviava o pescador que pilotava o barco. Ao dividir o trajeto em partes conhecidas dávamos conta do tempo que faltava para chegarmos. Rio abaixo, a primeira parte era uma pedra grande que aflorava à direita, perto do rancho particular de alguns amigos meus. Ali já tinha sido a base de uma antiga ilha que a água levou anos para desfazer. Era ponto de bons peixes, não obstante o esgoto da cidade e o trabalho das lavadeiras.
Depois que passamos aquele rancho, comecei a atiçar meu espírito com um velho mantra: “Assentado, com minha coluna ereta, desejo que todos possam se assentar sobre a plataforma da iluminação e seus corações se livrem de todas as ilusões e enganos”. Influências orientais para quem já chegava ao “Japonês” _ rancho bonito, coberto por mangueiras altas e frondosas _ onde havia uma bomba flutuante para captação d’água. Uma placa da Portobrás fazia sinal para cortarmos o rio em diagonal e seguirmos a orientação da oposta. A razão disso era um vau logo à frente.
Pouco tempo na margem esquerda e novo desvio para a direita, para a “Pedra da Seta”: afastada uns cinquenta metros do barranco, ela tem mais de 300 de comprimento e uns vinte de largura. Tudo no fundo. A seta era o sinal para que as grandes embarcações usassem somente aquele lado, quando subiam ou desciam. Eta pesqueiro sagrado! Deus o conservou até hoje. Aí o trecho era longo e de margem bonita, de muito verde. E dava pra gente ver a horta do barranqueiro, com alface, cebolinha e couve, regadas pelas mãos dele. De outro mantra, então, me lembrei:
”Acabo de despertar e desejo que todos os seres obtenham total discernimento e clareza de visão”. Para onde estávamos indo, mesmo?

Estávamos chegando à cascalheira, onde nova guinada à esquerda era de lei. O rio ali era raso e a placa era quem mandava. Olhei para o céu: azul de base aérea, poucas nuvens, dia de bom tempo. Lembrei-me dos “Cânticos”, de Cecília Meireles. O de número IX me acomodava:
“Teus ouvidos estão enganados.
E os teus olhos.
E as tuas mãos.
E a tua boca anda mentindo enganada pelos teus sentidos.
Faze silêncio em teu corpo.
Escuta-te.
Há uma verdade silenciosa dentro de ti.
A verdade sem palavras.
Que procuras, inutilmente.
Há tanto tempo,
Pelo teu corpo, que enlouqueceu.”
E viajando, pensava. Se algum peixe grande eu pescasse, ele receberia o apelido de “Madalena”, em homenagem à terapeuta que me despertou para os “Cânticos”. Ainda que o peixe fosse macho, “Madalena” ficaria bem nele. Tirei da caixa de gelo uma coca-cola para o Cari. Ele... mão nela. Outra pra mim. O motor do barco não parava. “Bico aberto”. Olhei para o céu. As nuvens. Outro Cântico:
“Vê, formaram-se sobre todas as águas
Todas as nuvens.
Os ventos virão de todas as noites.
Os dilúvios cairão sobre os mundos.
Tu não morrerás.
Não há nuvens que te escureçam.
Não há ventos que te desfaçam.
Não há águas que te afoguem.
Tu és a própria nuvem,
O próprio vento.
A própria chuva sem fim...”
Tardinha. Passávamos pela primeira ilha. A Ilha do Lajedo. Iríamos contorná-la pela direita, passando rente à rocinha de milho, observando as irresistíveis coivaras e uma árvore grande, plantada dentro do rio, apinhada de garças brancas, algodoando e algazarrando o ambiente.
Outro rumo. À esquerda, passamos pelo bico de baixo da ilha citada. Mais uma ilha e chegamos a um areal que escondia a chegada de um afluente, o rio Pardo. Fiquei me perguntando se ficaria pardo se escondesse alguma parte de mim. Foi quando me lembrei de uma certa janela... Quarenta e cinco graus à direita, alcançamos a parte de maior correnteza do trajeto, onde o barranco se desmancha de hora em hora. Alcançamos a margem esquerda, contemplando outros pesqueiros. Estávamos quase chegando. O barco ficou mais lento e nos aproximamos do primeiro pesqueiro que íamos testar. Em marcha lenta, querendo imitar onça ao se despistar para uma presa.
Primeira parada: logo abaixo do bico inferior da Ilha da Melona, uns 300 metros, próximos ao barranco direito de quem desce o rio. Motor desligado, poita soltada ao fundo, barco preso. Poita boa, prendia bem, e o barco não podia ser arrastado pela força da correnteza. Autodeterminação era poita de um Estado. Autonomia era pra poucos? Lançamos nossas linhas. Varas nos “secretários” _ suportes que as deixavam firmes e descansavam nossos braços_. Dentre elas, uma fininha com carretilha pequena, linha 40 e anzól pequeno, começou a dar seu show. O desconhecido belisca, puxa, faz a carretiha cantar a catraca. Eu só observo os movimentos da atletica varinha. Outra beliscada. Outra puxada. Outra beliscada, outra corridinha. Prrrrr...! Tiro a vara do secretário e confiro a fisgada com três puxões. Nada o peixe e nadinhas na vara. Bichinho renitente... Insisto. Lembro-me que meu companheiro Alci tentou apanhá-lo na semana passada; não teve sucesso, mas ficou curioso para saber que espécie era aquela. Finalmente cravei o misterioso. Pesadinho, em relação ao material leve que eu usava para trazê-lo. Lá vinha ele. Quanto mais perto, sem ser visto, mais a linha riscava pequenas curvas como se escrevesse algo. Duas leituras, a da superfície e a do fundo. Ambas fantasiavam. A real mesmo era o que a gente sentia, pelo tato e pelo que víamos á tona. Por fim, chegou. “Essa não!... Uma cambeba... sabidona...” Enganando tanto assim, até parecia coisa rara.
Cari abriu exceção, resolveu falar: Aqui, nesta região, moram dois cabeçudos”. Ele se referia a um casal de “loangos”, apelido que dávamos aos peixes maiores da espécie dos surubis-pintados. Ele estava bem informado sobre eles. Ficamos ali uns 40 minutos. A noite já vinha. Fomos mudar de lugar. Cari ligou o motor, recolhi a poita. O passo de onça começou de novo, o motor só “tchtchteiava”. Pouco navegamos para cima, uns 200 metros. Paramos outra vez, pertinho do barranco. Mais 40 minutos. Desta vez, nada! “O Chicão é um rio danado...”, pensava eu, “ora castiga, ora premia!” Um dia antes, de tanta escuridão, errei o secretário e lá se foram vara, carretilha, linha, anzol e isca para o fundão. Tentei tudo para recuperar o material e neca-de-pitibiriba. Voltei em estado de miséria relacional. Aquela noite tinha sido um desastre. Nada no embornal, além da perda material. Fora eu um neófito ... aí, tudo bem, mas não que eu o fosse. Mas meus olhos, minhas mãos... se enganaram. E como “para trás não há paz!” voltei pra mim mesmo.
Continuamos. Motor ligado, poita cá em cima! Nova passada de gato do mato. Então, já estava escuro, tive que me situar com auxílio do farol. Estávamos no meio, entre o barranco e a ilha, uns 200 metros já acima do bico de baixo da Melona. Atrás de nós, manjada coivara. Paramos o barco com a quilha de frente para a correnteza. Bem poitado, uns 10 metros à beira da ilha. Tudo quieto. Começamos a lançar as linhas. A primeira foi do Cari, por estar mais perto do motor. Lancei a primeira linha. “Peguei macaco”, o anzol caiu numa moita da ilha silenciosamente; tivesse caido n’água, teríamos ouvido o tapa da isca. Puxei a linha. Engarranchou. Puxei mais. A linha voltou e a isca caiu nágua, escutei. Dei mais linha. Lancei outra linha, a da vara que meu filho Sérgio tinha preparado para ele, enquanto esteve conosco. Lancei-a pelo lado esquerdo, pro meio do canal. Então, eu tinha duas varas lançadas, na espera, no secretariado. Eu, governador! “Haja peixe!”, mantrei.
LOANGOTANGO
Depois de bom tempo de espera, a luz fluorescente da minha lanterna me fez notar que a segunda vara que lancei tremia. Isca que recebia visita, algum peixinho que imitava “telegrafista com fio”. Cari não gostava muito de conversar. Quando o instigava, ele respondia baixo, como se não quisesse dar trela. Comentei sobre os sarapós, iscas vivas, peixes escorregadios que a gente tinha no barco, mas que esquecemos de usar; estavam num pequeno aquário de isopor. Resistentes, mas tínhamos que trocar a água de vez em vez. Comentei que sobrariam muitos, e que não entendia porque não tinha sucesso com nenhum deles. Ele só escutava. Resolveu falar: “Vou ficar com eles, com os que sobrarem.” Então, refleti em voz alta sobre os tipos de iscas que o surubi gosta, e ele disse:” Isca é cheiro. Isca boa é a que desperta o faro do peixe. Minhoca e sarapó têm cheiro forte para o olfato do surubi. Nós não sentimos...” “_ Então, minha mão com cheiro do fumo pro cachimbo deveria fazer algum efeito. Ou não?”, perguntei. Mal perguntei e a vara, a que havia sido cutucada pelo peixinho, começou a envergar, e eu, estupefato, exclamei: “Oh! Oh!, Oh!...”. E ela quase beijou o barco. Corri a mão na carretilha, dei pequena folga na “estrela” dela, pra liberar um pouco de linha. “Come bichinho, come!” torci. E o Cari falou: “Isso, isso, deixa ele cumê!”
O peixe havia comido a isca e mantinha a linha tesa. Ainda não havia conseguido tirar a vara do secretário. Folguei mais a estrela, liberei mais linha. Então, sim, tirei a vara do secretário e passei a dar os três puxões, fortes, que iriam comprovar se o peixe estava bem fisgado. Estava. Comecei a recolher a linha. Endureceu. O peixe tomava a linha que eu recolhia e garfava mais linha ainda da carretilha. Pedi ao Cari uma cadeira. E ele, além disso, recolheu a linha da sua vara e quis recolher a linha da primeira que eu havia lançado. Assentado, comecei a puxar a vara para trás, e pouca linha eu recolhia. O peixe não cedia mais que um metro e tomava outros cinco da linha. Cari não conseguiu recolher a linha da outra vara. Ela continuou presa ao barranco da ilha. O anzol e a chumbada estavam na água, mas a linha ainda estava presa em moita da ilha.
Quando o peixe era grande, o parceiro tinha que limpar a área e recolher todas as outras linhas, era a regra. “Pode cortar?” _ Pode! Este aqui é bom.” “_ Oooolha?!...” “_ Pode cortar, sô! Este é bom!” Ele cortou a linha e guardou aquela segunda vara. Sem sucesso, eu tentava puxar vara e recolher linha. Ele voltou a falar:”Esse peixe aí é muito grande. Ele não vem fácil. Não é melhor soltar o barco?” “_ Espere um pouco.” respondi. Tentei novamente. Nada! Pensei que era melhor seguir a sugestão de quem sabia que sabia. Eu estava em estado de “docta ignorantia”, sabia que não sabia. Ele recolheu a poita. Enquanto o barco desceu, mantive a linha firme e recolhi o máximo que pude. Ilusão, o peixe manteve seu propósito de ficar longe de nós. Cari soltou a poita e o barco parou. Comecei a puxar. O peixe era bravo e eu pouca linha pude recolher. O pouco que eu recolhia de linha ele tomava o mesmo tanto e mais alguma. Continuei olhando pra vara e me lembrei do meu filho Sérgio. Gostaria que ele estivesse ali, naquela hora.
Mas Cari era a melhor testemunha. “Esse peixe aí é muito grande. Ele não vem assim, assim... Acho melhor soltar o barco outra vez.” Disse o companheiro. “OK, você é quem manda!” retruquei. O barco desceu e eu recolhi mais linha. Ele soltou a poita e o barco parou outra vez. Nova luta. Então, o peixe deu sua primeira mostra de cansaço. Eu é que não podia! Era questão de honra para o pescador vencer o peixe. Ainda distante de nós, ele veio à tona e bateu n’água, fez um barulho tremendo. “Esse peixe é enorme, seu Elpídio.” O peixe voltou para o fundo. Zanzou de um lado para outro. “Vamos soltar o barco outro tanto!” E o barco escorregou e eu tomei mais linha. Então, ficamos mais próximos dele. Cari fez o barco parar. Eu lhe pedi para tirar minha cadeira. E fiquei em pé. O peixe então exigiu tudo o que eu tinha de forças. Eu puxava a linha, ia com a vara da popa para a quilha, e a recolhia na volta, da quilha até o motor. Várias vezes.
A SOMBRA DE MADALENA
“Está vindo?”, perguntou o Cari. “Sim”, disse eu. E ele estava vindo mesmo. Vez em vez, ainda tomava linha. Carretilha bem regulada, outra coisa, né!? Eu o vencia. “Agora, o senhor vem pra perto do motor. Ele vai dar o show dele é agora. Pode ser que ele vá pra esquerda ou pra direita. Aí o senhor põe a ponta da vara dentro d’água, que é pra linha não raspar no barco.” A instrução técnica do Cari era completa. Coisas que haviamos praticado com peixes menores que aquele, então, foram válidas e bem lembradas pelo Cari para aquele peixão. “Esse peixe é muito grande... quantos quilos o senhor acha que tem? Dos que eu pesquei, dos maiores, um desses tinha 30. E não me lembro de fazer tanta força...” falou.
Continuei puxando aquele peso-pesado. Foi pra direita, voltou pra esquerda, e o Cari já pegou o bicheiro, pau com ferrão de açougueiro na ponta, que ajuda o embarque, se bem fisgado no rabo do pescado. Levei a ponta da vara pra baixo e, ainda assim, senti a linha dar leve raspada no barco, mas estava firme. Ele voltou pra esquerda, mas não lutava mais. Estava cansado. Cari pegou sua lanterna, fraquinha, mas não deu pra ver nada. O peixe distava uns quatro metros do barco. Tomou linha outra vez. Nova luta. E lá veio ele. Do motor me afastei e puxei o tanto de linha que pude em direção à quilha. De volta à popa, nova recolhida. Pedi ao Cari que ligasse minha lanterna de luz fluorescente. Clareou...
“_Nossa...! Esse peixe é um monstro”, diz o Cari. Apareceu a primeira sombra de “Madalena”. Puxei a linha até à quilha de novo. Cari lançou o bicheiro e tentou fisgá-lo. Errou a bicheirada. Madá afundou e foi pra debaixo do barco. Soltei linha e megulhei a vara também. Nova luta para trazê-lo pra perto do barco. Idas e vindas, do motor à quilha, e vice-versa. Eu estava exausto. Firmei minhas pernas e disse pra mim mesmo:”É agora ou nunca. Se eu não trouxer este peixe agora,vou ter que apelar por ajuda do Cari. E isso não pode acontecer!” Forcei. Dei tudo de si, como diz o outro. Já estava lá na quilha quando ele se aproximou do barco e do Cari, perto do motor. Desta vez ele não perdeu a viagem: cravou o bicheiro nas costas de Madá. “Pronto”, pensei. Mas... que nada! Cari não conseguiu puxá-lo sozinho pra dentro do barco. Taquei a vara no secretário, peguei o bicheiro já fisgado por ele, e disse:”Pegue o outro bicheiro!”
Pescador que se preza tem de ter dois exemplares de cada apetrecho, sempre prontos para uso. “Está aí, debaixo da sua perna.”, disse o Cari. Chutei-lhe o bicheiro reserva, e ele então pôde cravá-lo perto da cabeça do animal. Contando 1, 2 e 3, alçamos o Madalena do rio para o barco. Ao cairmos de costas dentro do barco com ele, ele procedeu como quando eu bicheirava jacaré no Paracatu. Pulou de um lado para outro sem parar, e sua cabeça bateu no aquário de isopor, o dos sarapós. O aquário se espatifou e os sarapós sairam pulando por todo o barco.
Nós, também, pulamos de alegria, vitoriosos, abobados, cansados, ofegantes, sorridentes. Catei tods os sarapós e lancei-os ao rio. Que eles sobrevivessem, era o meu desejo. “Obrigado, Chicão, você castiga e premia!” Madalena pulou mais. “Vamos virá-lo de barriga para cima.” , disse o Cari. “Assim ele para de pular.” E assim o fizemos. Cari mediu seu comprimento em palmos. “São dez, são dois metros. O meu maior tinha 1 metro e 70 centímetros. Deve pesar uns 60 quilos. Pois o meu pesou 50!?... Só acho que está muito magro. Veja a barriga dele, tá vazia.” “_ Você acha? E agora, o que faremos? Vamos continuar a pescar?” _ Não sei... o senhor é quem sabe?” _ “Mas você ainda não pegou nenhum!... Quantas horas são?” _ Oito e meia. Por mim, não... o senhor é quem sabe... Tem jogo do Brasil hoje, na tevê. O senhor é quem sabe...” _ Ah, vamos continuar, ainda é cedo... ou não... Acho melhor o não! Você falou em jogo do Brasil? Ficar aqui pra quê? É avareza. Vamos embora. Vou só tomar um gole de uísque. Espere aí.” Dose dupla, de gelo e tudo de sede que tinha. Ele não não bebia. Só coca-cola. Recolhi a poita, ele ligou o motor e iniciou nossa volta para o clube.
A POESIA DA VOLTA
Assentei-me no chão do barco pra não atrapalhar a visão do Cari que se virava para começar o regresso. Ele não gosta de usar o cilibim, vai pelas sombras do barranco e das árvores. Eu olhava para o Madalena e lembrava-me da terapeuta de mesmo nome, e do Cântico IX, da Cecília Meireles:”Teus ouvidos estão enganados. E os teus olhos. E as tuas mãos...” . Fiquei sorrindo sozinho. Mais uma dose de uísque. Ninguém esperava que chegássemos ao clube com um peixão desses. O que diria Maria Regina? “Sua faringite vai até sarar!”, decretei. E então? O melhor era rezar pra chegarmos bem e que nada nos acontecesse naquela noite sem lua. Mais uma dose de uísque. Que loucura!... “E este monstro de peixe diante de mim. Não, não é sonho!” Minhas mãos não se enganaram desta vez. Aí, quando nós quase chegávamos, vieram os Cânticos X à minha mente:
“Este é o caminho de todos que virão.
Para te louvarem.
Para não te verem.
Para te cobrirem de maldição.
Os teus braços são muito curtos.
E é larguíssimo este caminho.
Com eles não poderás impedir
Que passem, os que terão de passar,
Nem que fiques de pé
Na mais alta montanha,
Com os teus braços em cruz.”
Chegamos. Vitória! Atracamos ao porto do clube. “Cari, olha tudo aí! Vou busar gente para ajudar. Toma conta de tudo. Vou avisar mulher.” Passei pelo chalé onde estávamos hospedados. E gritei: “Maria Regina! Maria Regina!” Nada. Fui para o prédio principal. “Toninho!Toninho!” Era o gerente do clube. “Toninho! Peguei um peixe enorme. Leve alguém para nos ajudar. Está lá embaixo, com o Cari!” “ _ Mentira, Elpídio?!...” surgiu Maria Regina. “Vê lá se vou acreditar?!...” “Vai lá ver! Um monstro. Vai lá!?” E ela foi. “– O senhor vai tirar retrato agora? Pesou 53 quilos.” Disse o Cari. _ Claro! Vou pegar a máquina.”
Apanhei a máquina e encaixei o rolo de filme apressadamente; o uísque fazia seu efeito. Fui para o local onde ficavam a balança e os peixes que foram pesados naquela noite. Lá reencontrei-me com Madalena ainda sobre a balança, de barriga para cima. Comprovei: 53 quilos! Sapequei o “flash” nele. Recebi cumprimentos, abraços, apertos de mãos e as tradicionais perguntinhas:”Foi você mesmo?Aonde? Que hora foi? Quanto tempo demorou pra trazer o bicho? É macho ou fêmea? A isca era minhocuçu ou sarapó? Quanto tempo você esperou? Na raseira ou no fundão? Qual o número da linha? E do anzol?...”
Cansado da pesca e de responder, fui dormir. De madrugada, pelas quatro, ainda escuro, acordei e fui direto ao local da balança. Não era sonho. Madalena estava lá, sendo contemplado pelo vigia e pelo companheiro que nunca mais lembrei o nome. De manhãzinha, o peixe foi dependurado para as tradicionais fotos. Eu, Cari e seu filho, e Maria Regina. Muitas fotos junto ao Madalena. Seu Mané, em seguida, começou sua função de açougueiro de peixe; esquartejou Madalena, e acomodou as partes num dos refrigeradores do clube.
Enquanto as partes de Madá endureciam, passamos o resto da semana em festa; brinquei, tirei fotos e fiz novas experiências no rio. Dois dias depois de apanhar o Madalena, pela manhã, eu pescava com Maria Regina e me lembrei da conversa com o Cari, sobre o cheiro da isca. Eu tinha um resto de fumo no barco e misturei-o com água. Embebi uma minhoca naquela solução. Logo fisguei um piau e, em seguida, um matrinchã com a mesma isca. Preparei outra isca de fumo para cachimbo e coloquei-a no anzol de outra linha. Entrou um bom mandi. Houve um intervalo, os peixes desapareceram e a fome apertou.
Fomos almoçar no clube. Depois do almoço fui à cidade, comprei uma seringa para veia e injetei em 12 minhocas a solução de fumo para cachimbo, bem diluída em água. E, à noite, saí para pescar com o Cari novamente. Iríamos passar a noite no rio. Cari pegou um surubi de 7 quilos e eu só pesquei peixes pequenos. As minhocas acabaram e acabou a pescaria. Aliás, naquela noite, Cari deixou sua vara air n’água e perdeu todo o seu material. Dei-lhe uma carretilha velha para compensar a perda.
Naquele “perde e ganha”, recebemos muitos telefonemas durante a semana. A alegria dos meus filhos era notória. O Sérgio, que tinha voltado para Belo Horizonte, já prometia que iria pegar um maior que o meu Madalena. A luta pela primazia começa dentro de casa... E só Deus sabe o que se passa nas cabeças de dois pescadores, dentro de um barco. A surda disputa, em menos de 3 metros quadrados, é a amostra da luta cotidiana. Despedimo-nos e viajamos de volta à casa. No dia seguinte, corremos, eu e o Sérgio, para encomendarmos a revelação e a ampliação das fotos. Esperamos uma hora, eu e ele ansiosos para vê-las. A balconista pegou o canhoto da encomenda e retirou do seu arquivo o envelope. E leu o valor da revelação: “Não saiu nenhuma, o senhor paga dois cruzados novos. É só o custo da revelação. Não saiu nenhuma!?...” Pensei comigo:”O Chicão premia e castiga!”.
Desolados, compramos outro filme. A intenção era tirar fotos da cabeça do peixe e fazer vários “posters”. Dias depois, levei-a para que fosse embalsamada. Então, tirei novas fotos, em preto e branco, pra sair no jornal, na “Coluna do Pescador”. Sérgio, uns dois meses depois, levou para o clube a cabeça embalsamada de Madá. Ela ficou na parede do salão nobre. Madalena com seus 53 quilos ficou ao lado de dois outros e sobressaía-se pelo tamanho da cabeça. Mas havia um Cântico introdutório ainda, que não havia levado em conta:
“Dize: o vento do meu espírito
soprou sobre a Vida
E tudo que era efêmero se desfez
E ficaste só tu, que és eterno...”
SÉRGIO, O PRIMAZ.
Um ano depois, no dia 19 de julho de 1990, Ano do Nosso Senhor Jesus Cristo, fiquei obrigado a lavrar a presente escritura. Sérgio havia embarcado para São Francisco em companhia de Maria Regina e seus primos, Marquinhos e Felipe. Antes de partir, lembro-me que ele exibiu-me um bilhetinho. O bilhete dizia: “Sorte = 50% de preparação + 50% de oportunidade”. E arrematou: “Preparado eu estou, porque pesco desde os 8 anos de idade. E a oportunidade é agora, porque meu anzol vai ficar dentro d’água, na mesma região, na Melona. Vou pegar o Hildebrando, nome que idealizei para um peixe maior que o Madalena.” E naquele dia, 19 de julho, eles já estavam dormindo na Melona com os anzois dentro d’água.
Madrugadinha, 5 horas, eles acordaram com o barco sendo arrastado pelo peixão. Era o Hildebrando. Demoraram 40 minutos para embarcá-lo. Às 9 horas da manhã já estavam na balança do clube: 55 quilos. Muitas fotos, muita festa, muito filme de VT. Hildebrando embalsamado e a primazia do melhor pescador na família, por dois quilos, passou a ser do Sérgio. Rasgou a “bula papaial”, a da mistura da minhoca com caldo de cachimbo. Pescou no trivial, com minhocuçu comprada do Zé Cascalho, em Paraopeba. A cabeça de Hildebrando, hoje, é a mais admirada, ao lado da cabeça de Madá e outras duas fajutas, nômades, desconsideradas, anônimas.
De lá pra cá, outras comparações foram registradas: Madalena tinha dois metros, Hildebrando 1,79. Nisso ganhei. Madalena tem 50 centímetros de nuca à boca, Hildebrando tem 56. Nisso perdi. Minhas preleções sobre a minha inveja e a dele, e a do seu irmão Cláudio, ficaram mais ricas. Apesar disso, fiquei “excomunicado”. O disco da comparação existe, e contém um poderoso “software” na cabeça da juventude.
Já escutei de muitos que o homem é um ser comparador por excelência. É a primeira atitude, a primeira leitura. Que devemos fazer comparações com propriedade. Comparar peixe com peixe. Até aí, comparar Madalena com Hildebrando é muito próprio, entre dois pescadores. Estimula a competição entre dois amantes da Haliêutica, conforme nos ensina Sócrates. E quando deixo eliminada a hipótese da inveja, pela constatação da comparação com propriedade, fica outra coisa qu aprendi com a terapeuta Madalena: mesmo inexistindo a inveja, existirá sempre a luta pela primazia. Sérgio foi o primaz de lá pra cá... até não se sabe quando. Minha esperança era Maria Regina, em São Francisco, com variedade mais aguda de faringite. o que até hoje não se deu, graças a Deus...
FIM











































 


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