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Contos-->CONTAGEM PROGRESSIVA -- 16/09/2000 - 18:52 (Antero Luis Branco Leivas) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Corta ! E era tensa a espera. Tensa de tudo : de tarde, de noite ou de ‘madrugadia’ . Deturpando toda e qualquer plausível hipótese em carne e osso. Um.

Ou dois... sentia-se o tempo, desde que se soube que havia uma bomba aqui, ali e acolá. Perto e longe. E o tempo passava, caindo feito pedra, montes de pedras, de prédios, de palavras, rolando em dois pontos : nós e eles. Um sussurro no próximo segundo poderia ser um urro. Três...

Uma bomba escondida ? Aonde ? Como ? Em que vão ? Em quais entrelinhas ?
Vasculhávamos tudo : poltronas, armários, textos e sub-textos; pontos e vírgulas; sofás, senhas, seixos, sexos, usernames e sonhos...
O chão auscultado, revolvido como um corpo doente.
Mãos furando paredes, olhos mirando um ponto qualquer. Nada tinha fim e sobrava, tudo cedia quando tocado, abrindo novo campo sub-reptício. E à este mais quatro : jogo de espelhos, cartola com pombos e coelhos; rimas in/acidentais, capa de mágico, coração, fundos falsos...estas reticências em tudo, sempre. Um esconderijo, uma pequena reentrância onde uma bomba, um ovo, um ovni, um susto! (entre parênteses) Possibilidades de sublocação. Mundos jamais habitados, entre uma parede e outra. Um deserto surpreendido. Deserto onde bombas podem se acasalar e proliferar como insetos, ratos, gralhas e gigabytes. Portas e chaves. Chaves a serem experimentadas nas fechaduras. Quando, enfim, acertávamos e ela se abria, outra porta por detrás desta, aparecia, fechada...trancada. Novamente as chaves, o tilintar das chaves, as múltiplas portas : umas falsas, outras emperradas, algumas se abrindo para algumas e rangendo.

Cinco. O emparedamento inchado e roído exalava um algo semelhante à chuvas ancestrais , seguido de um vapor de ferrugem e carcaças de invertebrados. Tudo era escuro e inexplicável, como a ciência.
Tateávamos, pois, à margem do texto. Tartamudos, chafurdando pés em terreno molhado. Tartasurdos, tartacegos... Brincando, em horas erradas, com a palavra. O lodaçal do pâncreas, pantanal de pele, alçapões e rugidos; hieróglifos e humores (rumores?) desgovernados. Símbolos, sangue e bílis. Um protocolo sem histórico ou passado, o coração num bater imoral e volátil.

Quedamos a bomba. Literalmente, ou sua metáfora. Apurando os ouvidos, tentava-se deslindar nos vários sons que nos achegavam, o cauteloso resfolegar da linguagem; o bater dos relógios, o tiquetaquear das caixas trancafiadas à priscas eras (seis); enquanto que, na velha juke-box, medievais vinis, rodavam em silêncio...

O começo profetizado da futura frase interrompida. Sempre em pontas de língua, prestes a serem ditas ou malditas. Destinadas a quebrar o silêncio em cacos, fragmentos, eticéteras, estilhaços. Em versos inversos dos trocadilhos mais infames. Só assim pudemos reparar, discernir, divisar quantos sons desembrulham-se, chocam-se, crepitando no ar (d)à noite.

Sete ! As pupilas à escâncaras, habituando-se a treva total, ainda que temporária. Os arautos “amorcegados” nos campanários, nos templos; os volejantes de nomes tolos e torpes títulos querendo ser mais que aprendizes na escola do ‘como-é-grande-o-mundo’. O homem, que nesta terra miserável sem anjos e sem Augustos se assusta na própria sombra, se fazendo Deus. Quantas frinchas, interstícios, brechas, oitos, fontes ? Nada é plano, liso, pleno. Há mais côncavos que convexos, mas em toda parte(?)céus, terras e Shakeasperianas filosofias...ângulos na penumbra, o sujeito oculto na oração. Subterrâneo, subterfúgio, sub-urbano subentendido, mesmo perante algo aparentemente exato, compactado e indivisível. Nove ?

Magia e mitos do pensamento. Frases e comunicação. Sorrisos heréticos e vergonhosamente contritos. Agulhas no palheiro, personagens mais Poeanos que Israfel e Annabel Lee. Vírus mais que incuráveis...
De repente, a compreensão ! (ou não ? ) E se um, só um, tivesse engolido a bomba ? (ou não !) Separamos entre gritos e sangue; mantos, mantras e intestinos; braços, pernas e frontispícios; derme, epiderme e janelas de edifício. E muito mais : telas, livros, globos, glóbulos e rg’s...
Logo, chegamos às vísceras... Nem bomba, nem nada. Apenas um tufo de carne. cabelo e jornais. Dez.

Rio de Julho, Sampa, dia 37 de 1981/2000.
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