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Artigos-->Autopsia para um crime de mãe -- 12/06/2002 - 10:26 (Adelio Rosa) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
Uma multidão estava reunida na porta da prefeitura, diante de um palanque onde a principal banda da cidade promovia fundo melodioso da sinfonia Hendell. Havia muita gente. Juizes, promotores, delegados e colunistas sociais, jornalistas, madames, empresários, jovens, crianças, mulheres e policiais. O prefeito fazia o discurso, deveras assaz, contundente, profundo, da mais pura emoção.

Naquele fim de tarde qualquer do início de dezembro, quando a brisa do Natal já faz embelecer a alma e deixa aquecido o espírito da boa vontade, a sociedade estava em profundo silêncio para um movimento pela paz. O evento estava marcado e tomou realce nas entranhas da sociedade como um ser que se agiganta, como uma força desconhecida, que move o homem contra toda e qualquer desesperança.

O assassinato de Juliano, filho de um industrial renomado, homem de respeito e de admiração, machucou e feriu a sociedade, que agora exigia uma reação. Todos, sem distinção, vestiram a camisa branca da paz, em solidariedade à sua própria sorte. Entendiam que a sociedade não suportava mais tamanho afronto. Assassinar um garoto de ouro, filho da melhor tradição, foi o tiro fatal e a sociedade unida, sairia em caminhada pela paz, levando a mensagem de amor, um amor que o homem, por mais que procure, não encontrará jamais.

Jovens, crianças e velhos, sentiam a morte de Juliano, moço jovem, que estudava faculdade e nos fins de semana freqüentava a boate e os bares de gente bonita, que caiu fuzilado por cinco tiros, numa fatídica noite maldita. E a notícia trágica ganhou drama e comoção. A família Alvarenga chorou a perda de seu maior tesouro e a sociedade, do prefeito ao mais simples cidadão, também chorou com emoção.

Sobre o palanque, a presença de dona Rute, mãe do rapaz, despida e despojada de todos os rótulos sociais, tornava-se agora o símbolo da paz. O rosto da elegante mulher não escondia a dor de sua alma, dilacerada por uma navalha que corta profundamente, que humilha e que estraçalha. Quem olhasse nos olhos daquela mulher perceberia o quanto é maior da dor da morte. Quem olhasse nos olhos daquela mulher sentiria o horror e o pavor de quem morreu nessa sorte.

Longe dali, numa rica mansão, dona Luzia, uma velha senhora de cabelos de um branco fulgaz, também queria caminhar pela paz. Dentre todos que imploravam pelo fim da violência, dona Luzia era a que mais se ajoelhava diante de Deus, para o homem pedindo clemência.

A velha senhora também foi cruelmente assassinada quando seus três filhos foram mortos numa emboscada. O crime aconteceu no morro, na periferia da cidade. Os meninos, como ela dizia, voltavam de uma festa quando balas frias arrancaram a vida e a própria alma de dona Luzia. Após o ocorrido, a velha senhora nunca mais viveu. Apenas vegetava, como vegetam aqueles que carregam a amargura de quem a vida perdeu.

No enterro dos meninos e nos dias que se seguiram, não houve manifestação. Os jornais noticiaram, a televisão mostrou, mas ninguém se manifestou. Dona Luzia, acompanhada do carcomido marido e de alguns poucos vizinhos, deu adeus aos seus filhos, enquanto ouvia, de alguns policiais, que não morreu ninguém, “eram todos marginais”. Essa dor doeu mais forte e, no silêncio da indiferença fria, abriu as portas do inferno a quem jamais mereceu tamanha sorte.

Mas a vida segue a diante, indiferente do que possamos pretender. E naquela tarde, terminada a caminhada pela paz, dona Rute, cansada e mal suportando aquela imensa dor, chegou em casa abatida e foi recebida pelo abraço carinhoso e terno de amor, de dona Luzia, uma mãe que também chorava, chorava sua dor. A velha senhora, que a muitos anos trabalhava naquela mansão, tomou em seus braços a podre mãe e, como se afagasse seus filhos, lhe rendeu a mais bela oração.

Dona Rute, que no momento do enterro dos filhos de dona Luzia, fazia compras no shopping, chorou o choro que todos choram, independente de classe, de poder ou de porte.

Naquela tarde as lágrimas de duas mães se confundiram.

E que bom seria se a multidão que caminhou pela paz tivesse visto aquilo que ninguém mais via. Com certeza a multidão entenderia que não há paz onde reina a hipocrisia. (*jornalista e escritor)

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