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Poesias-->À MEMÓRIA DO MALUCO BELEZA (*) -- 07/09/2004 - 12:12 (adelay bonolo) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
DEVANEIOS





Obs.: Este longo poema foi escrito às vésperas da invasão do Iraque pela GRANDE NAÇÃO DO NORTE. Depois de escrito, ouvi pela primeira vez a música de Raul Seixas “O DIA EM QUE A TERRA PAROU”. Fiquei impressionado com a coincidência do tema. Daí a dedicatória. Foram e são realmente "grandes" devaneios.







"A televisão, aos berros, desfila as últimas mazelas do mundo,

Enquanto o vento forte arremessa jatos d’água na vidraça da sala.

E as maldades, em borbotões, revezam-se ferozes

Na voz do apresentador e na boca rubro-carnuda da moça bonita.

A beleza desta contrasta evidentemente com a feiúra hedionda das notícias.

O vento sopra mais forte e o dia escurece como se fora noite.



De repente, com a voz teatralmente embargada e impostada,

Como que degustando o impacto da notícia, diz o moço:

— E atenção! Os EE.UU, acolitados pela Europa, acabam de invadir o Iraque!

— O mundo todo, já contando os mortos, amanheceu estarrecido – acrescenta a moça!

Uma rajada de vento mais forte arregaça as janelas e violenta, como aquele ataque,

Meu ambiente, inundando-o num aguaceiro de sangue e vento e furor e ódio!



Nisso, uma pomba branca, alheia às misérias coloridas das reportagens,

Pousa tranqüila no umbral frio e molhado da janela,

Trazendo-me a inesperada paz que o mundo lá fora desconhece...

De repente o vento amaina e se transforma em brisa suave

E a chuva, em forma de orvalho rutilante, colore em arco-íris o céu azul da tarde!

Vagarosamente volto os olhos para a TV e o casal já não é o mesmo de antes!



Uma sensação de calmaria percorre-me o corpo afeito àquelas intempéries.

Busco nas centenas de canais a cabo a continuação das notícias da guerra,

Que se misturavam até há pouco às mercantis mensagens de paz e amor do Natal...

Pobre povo, destroçado sem piedade pela intolerância dos poderosos!

Imagino que a essa altura milhares de vítimas coalham o solo iraquiano,

Estancando o longo processo de miséria e subordinação e sofrimento!



Pesquisa inútil! O artefato diabólico, antes belicoso, está pontilhado de cenas bucólicas

De crianças brincando, de bichos inocentes, de cachoeiras de águas límpidas.

Jardins zoológicos e regatos cristalinos se misturam aos parques de diversões

E a paisagens de campos floridos também cheios de crianças felizes...

Crianças de todas as cores e raças, abraçadas, numa ciranda infinda,

Cuja algazarra estridente se soma à das gaivotas e ao marulho espumante das vagas.



A pomba na janela parece petrificada em pedra sabão arrulhando sem cessar.

Nada entendo. Que acontece com o noticiário é-me importante,

Embora desconfie que aquilo seja obra da pequena pomba branca!

Pomba petrificada em pedra sabão, que continua arrulhando... arrulhando...

Sinto que aquela eterna dor na nuca, filha da hipertensão, desaparecera,

Acompanhada de um leve repuxo na pele do rosto. Corro ao espelho mais próximo



E não reconheço a figura inexplicavelmente remoçada ali refletida.

O calendário da parede registra um salto no tempo e marca dezembro 2010!

Ninguém em casa, nenhum ruído, nenhum sinal de vida se vê por ali.

Pelo que restou da janela arregaçada olho as ruas vazias...

Apenas o solitário arrulho da pequena pomba branca petrificada

E os risinhos alegres da criançada brincando nos jardins floridos.



Continuo navegando pelos canais da TV e não atino com a programação:

Nenhum noticiário policial, nenhum drama familiar, nenhuma cena chocante!

Folheio indiferente um almanaque de variedades da década encontrado sob a TV.

A resenha referente ao ano de 2002, já passados oito anos,

Não faz nenhuma referência à guerra do Golfo, da invasão do Iraque!

Será que esqueceram de fazer a anotação? Folheio com ansiedade à busca da verdade,



Numa sofreguidão quase doentia. As informações que vejo me estarrecem:

Saddam Hussein e J.W.Bush receberam o prêmio Nobel da Paz concedido em 2003!

“Tás brincando”, penso admirado. O antigo ditador convertera-se ao judaísmo

E ambos apaziguaram o Oriente Médio. O Irã, dos Aiatolahs, unira-se ao Iraque,

E juntamente com a Arábia Saudita e os demais países do Golfo,

Começaram a distribuir petróleo gratuitamente aos países pobres da África.



A Palestina tornara-se centro universal de estudos bíblicos. Arafat, cristão novo,

Continuou líder daquela gente repartindo com Israel a liderança daqueles povos.

Formaram no final de 2003 Liga Contra a Intolerância Religiosa, e criaram,

Nas Sinagogas e Mesquitas cultos diários ecumênicos. Não acredito no que leio!

Onde estive, meu Deus! Será que fui durante esse tempo abduzido por alienígenas?

Ou, dopado pela dureza dos corações do mundo, não havia percebido a mudança?



Foram abolidos todas as seitas e movimentos terroristas em todo o mundo!

Bin Laden recebeu o perdão dos EE.UU. e da Inglaterra, após haver aderido,

Juntamente com todos os membros da Al Qaeda, ao cristianismo maronita.

Israel exportou a todos os povos árabes suas experiências agrícolas.

O Oriente Médio tornou-se um celeiro horti-fruti-granjeiro e o Líbano,

Repositório arqueológico, recuperou sua magnificência milenar...



A China libertou o Tibete e, juntamente com o Japão, Coréia Unificada,

Vietnã e Ilha Formosa formaram praticamente um só país.

Criou-se no mundo uma moeda única e foram abolidos os passaportes...

Os EE.UU. assumiram o papel de guardião da miséria e pobreza,

Destinando boa parte de seu orçamento anual para socorro aos países pobres.

A pobreza declinou no mundo e, em 2008, ninguém mais passava fome!



O analfabetismo foi erradicado e as Universidades Africanas sobressaíram!

A Nigéria, Botswana, África do Sul, Lesoto e tantas outras nações africanas

Passaram a exportar alimento. As chuvas voltaram a cair sobre o Continente

E os animais selvagens foram salvos. O último safári ocorreu em 2004.

O buraco na camada de ozônio fechou-se com o controle da poluição

E a natureza, em todos os lugares do mundo, começou a ser recuperada!



As doenças desapareceram da face da terra: A AIDS e o Câncer e a Tuberculose,

A Lepra, o Mal de Alsheimer, as doenças mentais, até a gripe,

Tudo foi eliminado. A última vítima dessas doenças morreu em 2007.

As endemias rurais, a febre amarela e de outras cores também sumiram.

Mosquitos, baratas, escorpiões, ratos, cobras, pulgas, carrapatos

E ouros insetos e animais nocivos perderam essa característica...



Não se buscou mais a pedra filosofal, nem o velocino de ouro,

O elixir da juventude, nada disso! A ciência curou todas as doenças

E aumentou o tempo de vida útil de homens e mulheres.

Poções que rejuvenescem, sem seqüelas, foram disponibilizadas

E a população do mundo recobrou a alegria de viver...

Meu Deus!, penso, onde é que eu realmente estive nesse tempo todo?!



Continuo a folhear sofregamente o almanaque e as notícias me estarrecem!

As faculdades de medicina foram praticamente abolidas, tanta era a saúde!

No campo das relações humanas, as desavenças e rixas interpessoais,

Os desquites, divórcios e adultérios, até mesmo as infidelidades

Não mais ocorriam. O mundo recuperou a paz em todos os sentidos.

Os advogados passaram a ser socorridos por entidades filantrópicas.



E as faculdades de Direito, os juízes e tribunais, tudo ficou inútil.

Os crimes de morte, os roubos e furtos, todo o tipo de contravenção,

As drogas, o fumo, a bebida e suas mazelas, tudo desapareceu.

As prisões foram transformadas em centro de cultura

E os asilos fechados pelo rejuvenescimento dos internos.

A Polícia foi transformada em associação de caridade e proteção,



O exército abolido, todas as armas foram recolhidas e destruídas,

Fechadas as fábricas de armas e munição. Que maravilha, penso eu!

Filmes policiais, violentos, com droga e outras violências

Foram arquivados em museus especiais da memória humana.

A televisão e o rádio e os jornais extinguiram os programas

E páginas que continham qualquer espécie de violência... Um paraíso!



Busco informações sobre o Brasil e o Governo Lula, eleito em 2002,

Foi um sucesso, tendo sido reeleito em 2006. A inflação foi dominada,

A fome extinta, as desigualdades regionais desapareceram...

O nordeste transformou-se num celeiro de alimentos, nunca mais houve seca!

Os políticos ficaram honestos, a corrupção eliminada...

Os partidos políticos foram unificados em Partido do Povo, ora no poder.





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E o almanaque continua informando a transformação do mundo!

De repente, o livro cai das minhas mãos e tenho um sobressalto:

Olho para a TV, ainda ligada, e revejo o casal com a moça da boca carnuda.

— Bagdá acaba de ser bombardeada! Bomba nuclear! Centenas de milhares de mortos!

Recupero o domínio da situação. Olho para a janela e a pomba fugira...

Janelas fechadas. Chuva e vento fortes. Escuridão lá fora e tristeza cá dentro!



Olho com cuidado o lugar onde a pomba estivera pousada...

Nenhum sinal, salvo uma cusparada branca, molhada, nojenta,

E uma colônia de piolhos subindo pela vidraça embaçada,

Heranças e provas de um devaneio maluco e esquisito!

O casal continua despejando sangue e guerra e bombas e mortes...

Pomba (ou bomba) filha da puta!"



Adelay Bonolo

dezembro/2002

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