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Contos-->O caso do trem fantasma II (continuação) -- 05/01/2004 - 17:47 (Alceu Silva Santinho) Siga o Autor Destaque este autor Envie Outros Textos
O caso do trem fantasma II
Desde cedo fui cúmplice de meu pai. Aos domingos ele me levava passear. Lá pelas nove da manhã descíamos pela Rua Azarias, dávamos umas voltas pela Praça D. Pedro II-(naquele tempo não havia aqueles prédios na praça- a biblioteca, a delegacia e o prédio dos Correios), depois íamos ao Bar São Luís. Ele bebia alguns chopes, eu comia um Bauru, ele batia papo com os amigos.
O mundo é muito cruel. Muito cruel. Eu não sabia disso até morrer. A vida é efêmera, a morte é para sempre. Vá a um cemitério e constate você mesmo. Todos nasceram e depois de um certo número de dias cada um está morto, e para sempre. Olhe para mim, tente me ver se puder. E saiba também que a maioria dos que estão vivos como você não poderão, como eu, depois de morto ver os vivos. É preciso ter sido canalha, covarde e sórdido na medida certa.
Depois do São Luís, nós subíamos a Rua Batista de Carvalho e íamos até o Juca Pato. Eu já não agüentava comer outro Bauru, tomava apenas uma caçulinha, meu pai tomava outros chopes, conversava com outros amigos e então descíamos até à Rua 1* de Agosto, a próxima parada era o Fuentes. Então meu pai tomava outros chopes e ficava do jeito que minha mãe não gostava. Dali para a Rua Costa Ribeiro era um pulo. Eu nem imaginava o que significava aquelas mulheres todas tomando cerveja naqueles botecos antes da hora do almoço. Só mais tarde eu fui compreender por que mulheres como aquelas ficavam reclusas num certo local bem restrito da cidade.
Em cidades como Bauru, as mulheres já trabalhavam em escritórios das companhias de estradas de ferro no início do século XX. Em 1913, aproximadamente 20 mulheres trabalhavam nos escritórios da Noroeste do Brasil, e não poderiam encontrar-se nas ruas com as prostitutas. Então resolveram, como em todos os outros lugares, segregar as prostitutas numa rua que fosse todinha delas. Os homens achavam isso muito bom, mas em Bauru havia muitas putas, elas espalhavam-se pelas imediações da Praça Machado de Melo, Avenida Pedro de Toledo. Talvez pelo comércio, talvez pelos trens.

Como eu gostava daquela vida de vagau. Eu vendia alguns pacaus quando a coisa ficava preta. Mas o bom mesmo era aplicar algum truque em cima dos capiaus que eram muitos ali na Praça Machado de Melo. Eu era uma cara bem conhecido até pelos comerciantes da Rua Batista, mas isso não impediu que eu desse um golpe num cara duma loja de sapatos que havia na esquina da Gerson França com a Rua Batista. Havia naquela esquina uma loja de sapatos. Atravessando a Rua Batista, do outro lado tinha uma pastelaria. Entrei, chamei o dono e disse que eu era uma espécie de gerente de um orfanato que cuidava de dois mil garotos lá na Vila Cardia, que íamos dar uma festa, e eu precisaria dois mil pastéis para o meio-dia de amanhã. Ele topou o negócio, eu dei um pequeno sinal e fui embora. Um pouco mais tarde, entrei na sapataria, comprei quinze pares de sapatos para homem, disse para o dono que eu tinha dois mil cruzeiros para receber na pastelaria ali em frente. Você quer que eu mande que ele entre o dinheiro para você aqui? Então eu gritei alto pelo nome do pasteleiro:- “Olha, daqueles dois mil que eu tenho aí, você pode entregar novecentos aqui”. Eu peguei os sapatos e entrei no primeiro trem que saiu. Ri muito só de pensar no cara recebendo novecentos pastéis por quinze pares de sapato de primeira qualidade.
É muito triste estar meio-morto como eu, quer dizer, morto mas sem conseguir se desligar da vida. Eu estava toda hora querendo participar da vida dos vivos, mas não podia. Via o que acontecia no dia a dia da cidade mas não poder fazer nada. Eu vi o General colocar o Garçon como chefe do vagão-restaurante do já famoso trem da morte. Aquele cara não poderia, de uma hora para outra, arranjar dinheiro para bancar as despesas de um vagão-restaurante. Seria preciso que ele vendesse em um único dia todos os relógios falsos que ele vendia em um ano ali na Praça Machado de Melo. Mas o General sabia o que estava fazendo, somente um cara como Garçon saberia negociar com os paraguaios de Ponta Porã e com os bolivianos de Corumbá.
Você, leitor, sabe o que é a vida? A vida é uma roldana que leva de roldão os sonhos do ser humano vivo. E o triste de tudo é ele perceber isso somente depois de morto, quando nada já não dá mais pé. Faz-lhe pó os sonhos, mas não o avisa, não lhe prepara o tombo, deixa que tudo venha abaixo como num terremoto, deixa-o só com os escombros e todo aquele peso de touro sobre os ombros.
Oh, minha infância de mentol, oh rei do Harlen, oh verdes ramos, montanhas verdes, rubras colinas e cavalos sobre as colinas. Oh chocolates quentes, lanternas japonesas, pátios de estações de trens, campânulas de bronze sobre a grama, pão e vinho postos sobre a mesa. Oh sangue, oh sangue, oh sangue.
Não fui um intelectual, mas tenho a absoluta certeza que esse parágrafo anterior, se fosse escrito em espanhol seria muito mais belo. Escreveria, por exemplo, ay com ipsilone. Seria chique a bessa.
Tenho conseguido me dar bem com a depressão ultimamente. Até perdi a vontade de morrer, sinto que estou retomando a confiança em mim. Tenho pensado até em escrever alguma coisa, memórias por exemplo, ou então contar uma estória que fale das relações do General e o Garçon contrabandista. Quando estava vivo haviam dois eus convivendo em mim: Eros e Thanatos conviviam em mim ambiguamente. Às vezes tinha vontade de ter quinze anos novamente, outras vezes queria sinceramente morrer atropelado por um forte resfriado. Eu muitas vezes quis ter morrido de “gripe espanhola”. Pensava que talvez fosse virar nome de rua, como o pai de um amigo que era político e morreu de apendicite.
Quando chega a madrugada eu vou pela Avenida Rodrigues Alves na direção do cemitério. Passo ali por onde hoje é a Nações Unidas e lembro do Córrego das Flores que hoje está canalizado. Fico imaginando como deverá ser no futuro e rio tanto e me pergunto, afinal por que o rio-avenida não explodiu um minutos antes e estourou com aquele outro general, o presidente? Por falar em presidente, quando eu era um garoto de parquinho infantil conheci um imbecil que seria presidente da república (ele pensava que era república estudantil) e que veio a Bauru em campanha eleitoral. Ele pegou minha irmã no colo e eu até hoje tenho inveja dela por não ter sido eu quem ele pegou no colo. Eu gostaria muitíssimo de ter vomitado nele pois esse débil mental em menos de um ano após se eleger presidente da república renunciou ao seu mandato, iniciando a maior crise política que esse país talvez tenha passado. Disse depois que não nascera presidente da república, mas sim com sua consciência. Não sei se esse imbecil tivesse consciência, mas eu sei é que ele não tinha era responsabilidade e que ele era sim um tremendo cara-de-pau e um puta dum pau-d`água.
Os corvos são, todos sabem, aves de negra plumagem. De tão negros são lindos, tão traquinas como os neguinhos carvoeiros, tão espertos e tão tristes. Meu atual endereço lembra negro de luto e dor mas também lembra claro de esqueletos, de ossos. Esqueletos polidos, flautas vertebradas, vermes, ratos, cristais facetados, poliedros, espelhos, espectros, escaleras. Águas submersas, homens subterrâneos, porcos subterrâneos, dedais, retroses, tudo isso “fruto de uma longa experiência”, experiência muito “além da história da arte”. Pólipos, reentrâncias, ruptura, gênese. Gramíneas, eqüinodermos, gnomos, geléia geral dos cérebros humanos. Ai frustração dos ideais não atingidos, febre de desejos, de sabores desconhecidos, de cores não experimentadas, ai Dada, ai surreal, ai pós-moderno das armas de exterminação em massa, isso é que é democracia.
Extermínio para todos, para o pobre e para o rico, para o loiro e para o negro, ai nêutron térmico, ai retrovírus, ai raios gama, radiação mais que democrática, rosa pálida da morte, sem flor, sem vida, plena de raios gama, a radiação te ama, mano.
Às vezes incorporo em algum poeta:

Neste silêncio da meia-noite
Sento-me em silêncio nesta sala de apartamento
Ouço o silêncio das batidas do meu coração
E o eco de tambores silenciosos dentro da minha cabeça.
Em silêncio eu pergunto
Em silêncio eu mesmo respondo:
A oração em silêncio talvez seja a resposta.

Garçon tomou o ônibus Bela Vista e desceu na Rua 1* de Agosto, no ponto do Júlio Meca. Caminhou por dois quarteirões até a estação, subiu até a sala do General, identificou-se junto à recepcionista que foi anunciá-lo. O General mandou que ele entrasse: - Tudo bem? O contador já registrou o restaurante na Junta Comercial? – Tudo OK, respondeu o Garçon. – Certo, disse o outro, então vai logo providenciando as bebidas, encomenda os refrigerantes lá na Coca-Cola. Olha, cerveja eu quero só Brahma, liga lá em Agudos, vê se tá tudo certo. A carne você pode cotar nos frigoríficos daqui da cidade mesmo e lá de Araçatuba. Cê tem que aprender a negociar com esses caras, vai ver que é mais difícil do que vender relógio fajuto ali em frente. Olha, Andradina também tem carne, mas cuidado com os caras daquele senador. Arroz, feijão, batata, essas coisas cê compra daquele amigo meu que eu te falei. Ele tá precisando de ajuda e nós vamos precisar de uns caras do nosso lado no futuro. Bom, agora vai, mas não fica falando prá todo mundo que nós somos sócios. Tem certas coisas que é melhor que ninguém saiba. Vai...
(continua)
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